Edição: segunda-feira, 17/07/2017
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Entrevista com o geólogo José Ferreira Leal
 
 
 
A minha aproximação com o ex-governador Carlos Frederico Wernek Lacerda foi através de um amigo comum, que convidou para visitar umas terras em Paraty (Fazenda Laranjeiras), as quais os mesmos estavam interessados em adquirir, propondo-me participar do negócio na aquisição das terras. Com essa negociação conjunta tive oportunidade de conviver com a família Lacerda e discutir as políticas minerais do regime de governo à época.
 
 
1 - Qual fato o inspirou a abraçar a Geologia como profissão?

Aos sete anos de idade, convidado a celebrar o aniversário de um colega de colégio, tive a oportunidade de estar na residência do avô deste colega. Tratava-se do senhor Marcos Carneiro de Mendonça, ex-goleiro da seleção brasileira de futebol, ex-goleiro do Fluminense e ex-presidente do mesmo. Esta residência tinha uma peculiaridade em seu sótão onde ficava um minimuseu de pedras preciosas, dispostas em mostruários aos pares, pedras brutas e ao lado as mesmas lapidadas.
Como um índio fiquei fascinado pelo colorido e a transformação que as peças adquiriam pela lapidação. Esta casa, hoje tombada pelo IPHAN, chama-se “Casa dos Abacaxis”, em estado de degradação na Rua Cosme Velho.
Anos se passaram e ao término do terceiro ano (denominado científico) era criada a Escola Nacional de Geologia no Estado do Rio de Janeiro, onde prestei vestibular, portanto faço parte da primeira turma de geólogos graduados no Rio de Janeiro que teve como paraninfo o criador dos cursos de geologia na época o ex-presidente Juscelino Kubistchek de Oliveira em 1961.

2 - O senhor se considera um predestinado? Pode nos relatar um acontecimento que indique isso?

Porque faço parte de um grupo de colegas de faculdade que lutaram toda a vida profissional como empreendedores no setor mineral. Como tínhamos em comum o gosto pelo desafio, formamos a primeira empresa de serviços de geologia cujos sócios eram, na totalidade, profissionais da área. Foi a empresa “Geobrás” (1962) no governo Jânio Quadros, que resolveu suspender as concessões dos pedidos de pesquisa mineral nos seus sete meses de governo. Fomos obrigados a fechar a empresa!
Em 1969 esses mesmos sócios fundaram outra empresa de serviços na área mineral, a “Geo-Mineração” com as mesmas atribuições da “Geobrás”. Seu crescimento era de dois dígitos/ano. Em agosto de 1969, no governo Médici, era criada a empresa estatal “Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais” (CPRM) para realizar pesquisas geológicas no território brasileiro e no exterior, contratando mais de cem técnicos entre geólogos e engenheiros de minas, a grande maioria recém-formados. Inicia-se a concorrência com as empresas de serviço privadas forçando um “dumping” nos preços dos serviços, principalmente sondagens. Foi mais uma experiência empresarial naufragada!!!
Porém, o governo resolve incentivar a pesquisa mineral financiando o setor com os denominados empréstimos com cláusulas de risco através do BNDE e CPRM. No caso de as pesquisas minerais resultarem em insucesso os valores do empréstimo iam a fundo perdido. Para compensar esses casos criaram um coeficiente de risco para os empréstimos nos casos de sucesso, alcançando valores até 250% do valor original do empréstimo.

3 - Como se deu a sua transferência para o Pará e como se desenvolveu o projeto de pesquisa mineral naquele Estado?

Em 1963 o professor José Raimundo de Andrade Ramos convidou a mim e a mais alguns colegas para promover a pesquisa mineral no Estado do Pará a pedido do governador da época, Aurélio do Carmo.
Criamos o projeto “Seu Minério Vale um Milhão” inspirados no “Seu Talão Vale um Milhão” do Rio de Janeiro, que foi lançado pela TV Marajoara, ao vivo, explicando a ideia e objetivos.
Chegavam amostras de minérios de todo estado e nos interessou aquelas de manganês, na época pesquisadas pelo Departamento Nacional da Produção Mineral (DNPM).
Fomos procurar o manganês na área da aldeia dos índios Caiapós, família Gorotire, às margens do rio Fresco, afluente do rio Xingu.
Ao sobrevoar a aldeia reparei que as serras no entorno eram semelhantes às formações ferríferas do Quadrilátero Ferrífero de Minas Gerais.
Junto com os índios, exploramos todos os locais onde havia possibilidade de encontrar manganês, durante um mês sem sucesso.
Assim, resolvemos visitar a serra que havíamos avistado no sobrevoo e, para nossa surpresa, eram quilômetros de formação ferrífera que expunham pacotes de dezenas de afloramentos de minério de ferro. Sofri uma picada de uma formiga do local que me deu reação de íngua e tonteiras, de acordo com os índios era a formiga tocandeira, nome que foi dado ao complexa dessa serra pelo Projeto Radam, “Serra da Tocandeira”.

4 - É verdade que o senhor foi amigo e sócio do governador Carlos Lacerda? Pode nos contar um episódio interessante dessa parceria de amizade e negócios?

A minha aproximação com o ex-governador Carlos Frederico Wernek Lacerda foi através de um amigo comum, que convidou para visitar umas terras em Paraty (Fazenda Laranjeiras), as quais os mesmos estavam interessados em adquirir, propondo-me a participar do negócio na aquisição das terras. Com essa negociação conjunta tive oportunidade de conviver com a família Lacerda e discutir as políticas minerais do regime de governo à época.
Consegui convencer o Grupo Novo Rio, presidido por C. L. a investir em mineração, visto que a área da Fazenda Laranjeiras tinha resultado num negócio de sucesso, vendido ao Grupo Brascan com lucro.
Assim, em 1973, foi criada a empresa Tricontinental de Mineração com capitais brasileiro, português e angolano, ou seja, dos três continentes.
Troquei minha participação da “holding” do grupo Novo Rio, pelo controle das ações da empresa Tricontinental de Mineração com um acervo de mais de 700 áreas para pesquisa mineral e com os financiamentos de risco da CPRM/BNDE, iniciamos os trabalhos de campo com 12 técnicos em geologia e engenharia de minas.

5 - Como surgiu sua relação negocial com Eike Batista?

Tive oportunidade de adquirir, em licitação pública da CPRM, áreas contendo ouro no rio Madeira. Eike, recém-chegado da Suíça, me procurou para saber se admitia um sócio na empreitada, quando fizemos a sociedade de 50% para cada parte, e iniciamos os trabalhos de planejamento de serviços de campo em Rondônia no rio Madeira. Após 6 meses a área foi invadida por centenas de garimpeiros com balsas, tornando inviável nosso projeto. Eike, que até aquela data havia pago 50% do valor contratado entre nós, pagou todas as prestações apesar da perda do projeto pela invasão dos garimpeiros.
Em 1984, como diretor de mineração da empresa Multiplic, tive conhecimento de uma mina de ouro em Paracatu (MG), que teria sido oferecida à mesma, porém seus acionistas consideravam o investimento de alto risco e desistiram. Casualmente, caminhando pela Av. Rio Branco, encontro o Eike e falei sobre a mina de ouro de Paracatu (Mina Morro do Ouro), cujo projeto era desenvolvido pela empresa Rio Tinto. Expliquei do que se tratava e sugeri que considerando que o sócio era a Rio Tinto e ele conhecedor da Bolsa de Valores de Toronto, especializada em projetos de risco na mineração, talvez lá tivesse sucesso. Voltou com os companheiros que lhe proporcionaram a compra sob o controle dos sócios brasileiros e sob sua liderança.
A mina do Morro do Ouro era a de mais baixo teor de ouro no mundo, mas com o tratamento do minério desenvolvido pela Rio Tinto, estava tecnicamente pronta para usufruir da subida do preço do ouro no mercado internacional.  Assim, com os lucros contínuos anos após anos, Eike resolveu vender sua participação nessa empresa. Disseram que ele era “louco”, mas com o valor recebido passou a comprar ocorrências de ferro de baixo teor no Quadrilátero Ferrífero que estavam à disposição de qualquer cidadão. E assim continuou até entrar no ramo do petróleo.

 



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