Edição anterior (1307):
sábado, 09 de junho de 2018
Ed. 1307:

Capa

Compartilhe:

Voltar:

HOJE

Edição anterior (1307): sábado, 09 de junho de 2018

Ed.1307:

Compartilhe:

Voltar:


  Colunistas
Fernando Costa
COLUNISTA

Senhora Crase

Não tenho razão de queixas. Em minha infância tive ótimas professoras. Por isso, louvo minhas profas. Geny Gac, Sebastiana do Carmo, Sylvia Siqueira, Philadelphia Reis e, por último, Alice Mª. Gac Coelho. Ponho ainda em relevo o nome da Dna. Alfredina Egypto Cerqueira, não foi minha profa., mas, me ensinava com seus exemplos de religiosidade e me deixava participar das aulas em seus turnos mais adiantados. Minha família residia próximo ao Colégio e eu queria mesmo era estudar. Falo isso sem ostentação. Minha base foi toda de escola pública: E. E. de Hermogêneo Silva, mais tarde  E. E. Eduardo Duvivier, situada no 3º.Dist. de Três Rios. Isso me rendeu uma excelente prova para o “exame de admissão” ao ginásio. E, também nessa fase, tive o privilégio de contar com os ensinamentos de ótimos professores, dentre eles, Delphino da Silva Monteiro, ex-seminarista do antigo Caraça, MG. Lecionou além de português, as cadeiras de inglês, francês, canto orfeônico e latim. A seguir várias dessas disciplinas foram abolidas ou se tornaram opcionais, se mantiveram, no entanto, as cadeiras de inglês e português.  Delphino era excelente professor. Era severo, mas, competente.  Ao mesmo tempo em que temido, era respeitado e querido por seus pupilos. O aluno que conseguisse nota quatro já se sentia feliz, nota cinco e daí por diante, mais feliz ainda. Bastava Delphino chegar à porta da sala de aula e o silêncio era sepulcral. Ai daquele que fosse pego colando, olhar para os lados, nem pensar! Até hoje as análises sintáticas e léxicas rondam minha mente, as orações coordenadas sindéticas e assindéticas, as conjuntivas, adversativas, os períodos compostos por coordenação e subornação as funções do “que” como partícula expressiva de realce e outras conotações, as locuções, a concordância verbal e nominal, as famosas crases... Ele nos dizia que os acentos não eram para serem jogados no texto como se polvilhássemos um tempero na salada, mas, sim, colocados de forma correta.  Crase, essa palavra que provém do grego (krâsis) desde cedo nos foi apresentada como significação de mistura. Pontificava ele: na língua portuguesa, ela significa fusão e é usada para indicar a junção de duas vogais iguais, ou seja, é a contração de dois “aa” com os artigos definidos femininos – a-as- ou com pronomes demonstrativos a, as, aquele, aquela e aquilo. E a criançada não media esforços para gravar esse ensinamento. E ele nos dizia: ocorrerão a crase se convergir duas condições: se o termo regente exigir a preposição “a” e se o termo regido aceitar o artigo feminino “a” (as), sendo obrigatória nos seguintes casos: a) na indicação do número de horas. Hora indica tempo e é uma palavra feminina. É um adjunto adverbial de tempo formado por palavra feminina, assim devemos usar o acento grave, a crase. b) nas locuções adverbiais, prepositivas e conjuntivas, com palavra feminina. Compro a vista ou à vista. Se a intenção é usar a expressão adverbial, a resposta, com certeza, é à vista. Sem o acento grave, a pessoa que por ventura viesse a comprar uma vista de alguém estaria cometendo um crime. Imaginem só adolescentes de onze e doze anos fazendo esforço para assimilar essas informações. Mas nós nos esforçávamos. E lá vinham mais exemplos. Dizia-nos o mestre: a expressão compra “a prazo” não se acentua porque é uma palavra masculina e nunca usamos crase antes de masculino. Dizia das locuções com palavra feminina tais como, ás ocultas, à noite, à direita, à força, à primeira vista, à toa, à direita, à mão, às cegas, à vontade e etc. são acentuadas. c) ele nos lembrava de que a expressão à moda de, mesmo que a palavra moda viesse oculta esse “a” é acentuado. Por exemplo, hoje irei ao Majórica, comerei um bife a milanesa ou à milanesa? A meninada em coro dizia, “à milanesa” E seguia o mestre, a expressão “ à moda de” ou “à maneira de” deveríamos usar o acento grave, a crase. A forma objetiva de ensinar nos cativava, ainda mais quando dizia: “usamos sapatos à (moda) Luis XVI, “ Nós nos vestimos à(moda de) l950”, “escrevemos poesia à (à moda de, ao estilo) Drumond  de Andrade”.  Quando se falava da crase e seu uso facultativo exigia  nossa redobrada atenção. Ele dizia, antes de pronomes possessivos femininos o uso do acento indicativo de crase é facultativo, quer dizer, depende da preferência de quem escreve, por exemplo, Maria referiu-se “ a minha” viagem ou “à minha” viagem. Oferecerei “as minhas colegas” de turma Julia, Regina e Leila um ramo de violetas ou “às minhas colegas”. Não me esqueço de quando ele nos alertava quanto ao uso da crase diante dos possessivos, principalmente depois do verbo, “se evita a ambigüidade.”  E  dizia sobre a elipse do substantivo: “ faço referência a( ou à) tua empresa. Os pronomes possessivos antecedidos de nomes de parentesco rejeitam a crase. Refiro-me  a sua irmã. E os nomes de lugares? Fui a ( ou à) África, a Espanha( ou à) e etc... Se escrevermos nomes de mulheres, Carmen, Christiane, Beth: Mandamos convite à Carmen ou a Carmen. Enviamos  flores a Christiane ou à Christiane. Enviamos dois mimos à Beth ou a Beth... Ás vezes as cabeças se embaralhavam, quando nos dizia: “a preposição “até” possui como variante a locução “até a”, é facultativo mesmo que venha seguido de demonstrativo “aquele”, “aquela” “aquilo”: Vou até a ( à) farmácia. Foi até a( ou, à) porta.” Ele nos chamava a atenção para quando a frase contivesse a significação de “ até mesmo” perderia, como perde a variante, assim,  dizia ele, é substituída por um termo masculino. Obedecia até (mesmo) às ordens mais  extravagantes ( até aos caprichos). Já transcorreram mais de meio século e às vezes me vejo, calado e atento, sempre sentado nas primeiras fileiras, para tentar absorver o máximo porque sabia que o mundo que aguardava um dia iria me cobrar isso. Hoje relembro as apostilas em letras roxas, repletas de regras editadas pelo incansável Professor, neste aprendizado que não finda, ainda que a despeito da informática e outras modernidades. Minha eterna gratidão a todos pelo facho de luz entremeado de amor ardente até hoje.

 



Edição anterior (1307):
sábado, 09 de junho de 2018
Ed. 1307:

Capa

Compartilhe:

Voltar:

HOJE

Edição anterior (1307): sábado, 09 de junho de 2018

Ed.1307:

Compartilhe:

Voltar:


Casando com Estilo








Rua Joaquim Moreira, 106
Centro – Petrópolis – RJ
Cep: 25600-000

ABRAJORI – Associação Brasileira dos Jornais do Interior