Edição: sábado, 07/07/2018
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Frederico Amaro Haack
COLUNISTA

O EMBAIXADOR DO JAPÃO EM PETRÓPOLIS

Abaixo segue uma entrevista do cônsul japonês, sr. Setsuzo Sawada no Brasil cedida a revista ‘A Noite Ilustrada’, publicada em 1937, em sua casa de veraneio em Petrópolis situado na Rua Benjamin Constant nº. 280.

Lembrando que as duas primeiras embaixadas japonesas no Brasil foram sediadas em Petrópolis, sendo a primeira na rua Sete de Abril, nº 21 e a segunda na Avenida Ipiranga, nº 326.

“Como nas fotografias que nos mostram grandes políticos yankees entretendo seus lazeres como se fossem pacíficos agricultores, assim encontrei S. Ex. Setsuzo Sawada, embaixador do Japão no Brasil, em sua bellíssima residência de verão em Petrópolis. Mettido em amplas calças de “golf” e commodas meias escocezas, e em mangas de camisa como um bom burguez despreocupado, fazia agricultura entre macissos de flores e palmeiras decorativas.

- A natureza, aqui se assemelha-se á do seu país?

- Muito, muitíssimo: é egualmente deslumbrante, fecunda e polychroma. Aqui sinto- me feliz. E esta cidade de Petropolis é tão formosa e socegada, tão gentil e graciosa, de clima tão doce e hospitalidade tão effusiva, que uma pessoa nella se considera como no melhor dos paraísos.

- Gosta do Rio de Janeiro?

- Certamente. A bahia de Guanabara é a melhor e a mais bello do mundo, e a gente da cidade de uma sympathia e de uma bondade perfeitas. Já estou ha dois annos chefiando esta embaixada. Tenho ali muitos amigos, grandes amigos e estou encatado.

- Viajou pelo Brasil?

- Não. Conheço apenas Rio, Petropolis, São Paulo e Santos, mas tenho intenção de viajar por outros Estados e percorrer o interior do paiz, onde imagino bellezas suprehendentes.

Estamos no Palacio Noronha, amplo luxuoso, todo decorado com lacas, móveis e estampas japonezas. Refugiamos-nos num salão amável e discreto. Sobre uma mesa, muitos livros, entre os quaes distingo “Sur L’Art de La Vie”, do Conde Kayserling, e um volume japonez, volumoso e ricamente illustrado.

- Que pena não poder eu apreciar.

- É uma revista. No Japão ha muitas revistas como esta. Lê-se muito no meu paiz. Calcule que temos jornaes que fazem edições de mais de dois milhões diários. As escolas publicas são frequentadas por noventa e nove por cento da população infantil. Isto significa que o analphabetismo japonez mal existe...

- Quantos annos tem de vida diplomática?

- Cerca de trinta annos. Já sou veterano.

Não posso dissimular minha surpresa. O embaixador tem cabelos brancos, sim, mas é delgado, ágil, alegre. Não parece ter excedido quarenta annos.

- Viajou muito?

- Sim. Minha carreira me levou á China, á America do Norte, á India e a diversos países europeus. Estou agora no Brasil, tão longe do meu paiz!

- Que cidade recorda com mais “saudades”?

- Todas, porque todas tem algo de interessante e encantador, mas o Rio é a cidade onde melhor me tenho achado.

- Onde passou a Grande Guerra?

- Em Londres, onde servi, durante sete annos consecutivos, em nossa embaixada. Os annos de 1914 e 1918 não se esquecem mais...

Faz- se aqui uma pequena modificação no dialogo no sentido de concentração.

- É numerosa a colônia japoneza no Brasil?

- Conta cerca de 170.000 nippões. Quase todos se dedicam á agricultura e devo dizer-lhe que quase todos se manifestam satisfeitíssimos com a situação em que se encontram, O trabalho de organisação colletiva vae surgindo entre elles. Sei, por exemplo, que em São Paulo tratam da construcção de um grande hospital.

- Que diz das relações commerciaes nippo-brasileiras?

- O commercio teve desenvolvimento animador no ultimo anno, realçando um saldo considerável a favor do Brasil. Temos, desde longo tempo, um tratado de commercio, mas a enorme distancia que separa as duas nações e outras circunstancias traziam escassa a corrente econômica. No anno passado, porém, comprámos no paiz 200.000 e vendemos 40.000 contos de réis. O algodão predomina naquella cifra. A Missão Economica Brasileira, que visitou meu paiz sob a chefia do Dr. Salgado Filho, alcançou notável êxito e é de se esperar, consequentemente, um grande impulso no intercambio econômico nippo-brasileiro.

- Ha também relações intellectuaes entre os dois paizes?

- Sim, Fundou-se no Rio, agora um instituto da alta cultura nippo-brasilica, presidida pelo illustre Dr. Leitão da Cunha, um dos mais preclaros sábios sul-americanos. Dois estudantes brasileiros já partiram para estudar no Japão e dentro de um mez deve aqui chegar o Dr. Torii é conhecido universalmente e uma sua filha é professora na Universidade de Michigan. É a primeira vez que o sábio japonez vem ao Brasil, e faz esta viagem com o mais vivo enthusiasmo. Note uma particularidade interessante: o Dr. Torii é catholico.

- Sim, é curioso, pois o catholicismo terá poucos adeptos no Japão...

- Certo. Não ultrapassam 200.000, mas são crentes fervorosos. O Vaticano tem um delegado em Tokio.

- Há jornalistas japonezes no Brasil?

- Ha dois, ambos brilhantes: correspondente da Agencia “Domei” e outro correspondente do diário “Asahi”.

Fazemos aqui nova derivante, mais brusca esta, para levarmos a palestra ao terreno difficil da alta politica.

- Qual é, em sua opinião, o problema fundamental americano?

O Dr. Setsuzo Sawada sustem seu perenne sorriso e desvia a minha flecha.

- Não sei... Não sei...

- Acredita na solidariedade americana?

- Sim.

O embaixador tangencia perguntas sucessivas – discreto, amável, porém invencível. Chegamos a um ponto claro.

- Pensa que o communismo é um grande perigo?

- Immenso, e para todos os povos do mundo. Entre nós, no Japão, havia também grande agitação communista, que debellamos com pulso implacável. Na China, persiste a agitação.

Serio, o embaixador aguarda minhas perguntas sem pestanejar, como exímio atirador de florete.

- Acredita no fracasso da Sociedade das Nações?

- Essa instituição encontra-se, presentemente, em situação difficil.

- Qual é o thema mais vivo para os patriotas japonezes?

- Nós, japonezes, amamos a paz.

O embaixador é um habil esgrimista e minhas perguntas mais suhtis ou maliciosas resvalam, desobjectivas, pela fina lamina da sua experiência politica.

Procuro, então, caminhos tranquillos para seu coração de patriota.

- Togo!

Os olhos do Dr. Setsuzo Sawada brilham em pura emoção.

- Togo é uma grande figura nacional.

- Quaes são as virtudes, fundamentaes do japonez?

- Lealdade, coragem.

- Permita-me acrescentar: dedicação e intelligencia.

S. Ex. sorri á minha amabilidade e responde:

- Sim, o japonez é subtil e atilado. Somos um povo de grande fervor religioso de forte espirito monarchico, de vida sensível e de grande amor, immenso amor ao trabalho e á paz.

O embaixador japonez repete novos elogios ao Brasil, uma sequencia sincera de elogios que flue, espontânea, sincera na sua palavra cadenciada e amável. Fumámos o ultimo cigarro, que é nacional. Tenho a impressão de que em tudo quanto lhe seja possível, o diplomata pretende homenagear o paiz em que se sente espiritualmente feliz, e o povoem cujo convívio encontra a sensação rara da amizade e da alegria.”



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