Edição: sábado, 11/11/2017
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Gastão Reis
COLUNISTA

 O AROMA QUE ENGANOU THATCHER

               Faz tempo, assistindo a um programa na televisão, eu ouvi uma frase da entrevistadora sobre determinada pessoa que me chamou a atenção: “Ele transpirava o aroma da própria importância.” Em outra oportunidade, eu li uma entrevista de Edward de Bono, o metre do pensamento lateral, que nos sugere olhar para os lados para abordar uma questão de outros ângulos e perspectivas possíveis. Ele citava como exemplo desse tipo de problema (aromático) o caso da Margaret Thatcher, ex-primeira-ministra inglesa já falecida. Segundo ele, o início do fim começou quando ela passou a se fazer perguntas do tipo: “Como é que a sra. Thatcher resolveria essa situação?” Foi-se afastando da correta e clássica questão: “Como é que essa situação pode ser resolvida?”

              Uma outra maneira de entender esse processo de progressiva perda da capacidade de ouvir pode ser ilustrada com o exemplo do executivo excepcional a que todos dão corda até o dia em que ela arrebenta. A autoconfiança acaba indo além do ponto aconselhado pelo bom senso. Entre ouvir e ouvir-se, ele acaba dominado pelo canto da sereia deste último. Não é preciso dizer o quanto a vaidade pessoal tomou conta da situação. E o estrago que acabou fazendo.

               A vacina contra esse estado de espírito pode ser ilustrada pelas respostas dadas por um monge zen-budista quando lhe foi perguntado se poderia resumir a filosofia zen em apenas uma frase. Ele escreveu uma única palavra, em letras maiúsculas, numa folha em branco: ATENÇÃO! Não satisfeito, o autor da pergunta reformulou-a para poucas palavras. O monge escreveu então: ATENÇÃO! ATENÇÃO!  Ainda um tanto insatisfeito com respostas tão sucintas, pediu que o fizesse em mais palavras. O monge calmamente voltou a escrever: ATENÇÃO! ATENÇÃO! ATENÇÃO! Finalmente o interlocutor entendeu a mensagem eloquente a favor do ouvir com extrema atenção a tudo que se passa à sua volta. Ouvir muito é a mensagem.

                A biologia nos cobra um preço com o passar dos anos que se manifesta através da perda progressiva da acuidade dos sentidos. A dificuldade de ouvir é uma delas. Aqui estamos diante de algo semelhante à questão da coragem física versus coragem moral. Quando se tem esta última, as pernas podem até tremer, mas você acaba indo lá e fazendo o que sua consciência lhe ordena. Quando a coragem é meramente física, e esta lhe falta, você corre o sério risco de sair correndo envergonhado quando for posto à prova.

              Nossa trajetória de vida é um permanente bate bola entre o ouvir e o ouvir-se. O perigo se aproxima quando o equilíbrio é rompido a favor apenas do ouvir-se. Claro que seria simplista atribuir pesos permanentes de 50% para o ouvir e o mesmo percentual para o ouvir-se. Se você tem pouco conhecimento de uma dada situação, o peso maior deve ir para o ouvir. Se você se sente à vontade numa outra em que tem grande domínio, é razoável dar muita atenção ao que se passa entre suas duas orelhas. Cabe a você calibrar os pesos relativos das situações intermediárias.  

               Eliminamos todos os riscos procedendo dessa maneira? Certamente que não. Mas reduzimos significativamente as margens de erro. Ainda assim, não há razão para tranquilidade total. E por uma razão muito simples:  o uso do cachimbo deixa a boca torta. Foi isso que acabou acontecendo com a Thatcher e com o executivo experiente: acabaram surpreendidos pelo novo que não estava previsto em seu caderninho mental de receitas prontas e acabadas.

               A lição que fica é a necessidade de uma permanente dose de humildade. Cultivar nossa autoestima não pode ser um processo de ignorar progressivamente as contribuições de terceiros. Autoestima muito elevada pode nos colocar numa posição de olímpica autossuficiência. Certamente não existe receita de bolo para todas as situações. Não vamos escapar de todos os erros. Mas manter sempre na ordem do dia a pergunta correta e clássica nos ajuda muito: “Como essa situação pode ser resolvida?”  A solução de terceiros pode ser muito melhor do que a sua. Abdicar de ser dono da verdade faz com que você seja menos chefe e mais líder. O aroma da humildade não engana e funciona.                     ]

               Para terminar, vale ilustrar o mote deste artigo com a resposta dada nos velhos bons tempos pelo fundador da Construtora Camargo Correa a uma pergunta feita por uma jornalista que o entrevistou nas páginas amarelas da revista VEJA. Ela queria saber como ele, que só estudou  oito anos, conseguiu construir aquele império da construção civil no Brasil e no mundo. Ele disse apenas: “Muito simples, minha filha. Sempre trouxe para trabalhar comigo gente muito mais competente do que eu.” Edward de Bono teria aplaudido e Thatcher talvez houvesse se livrado do aroma da própria importância se tivesse isto em mente o tempo todo.     

 Minha identificação: Gastão Reis Rodrigues Pereira

Empresário e economista                                                                    

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