Edição: sábado, 07/04/2018
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  Colunistas
Gastão Reis
COLUNISTA

 RAÍZES DE NOSSOS INFORTÚNIOS

           Aparentemente o andar de cima da sociedade brasileira, os membros dos poderes executivo, legislativo e judiciário, nas três esferas de governo, não estão se dando conta de que houve uma mudança qualitativa no exercício da cidadania brasileira. Àqueles que queriam ver as pessoas nas ruas protestando tiveram um prato cheio na terça-feira, dia 3.4.2018. A população deu provas de que está vigilante em muitas cidades Brasil afora, e não só em grandes cen-tros urbanos, como Rio e São Paulo, em que a participação não poderia ter sido melhor, mesmo com chuva e tempo exíguo de convocação nas redes sociais.

           Cada vez mais, as pessoas estão percebendo que vêm sendo enganadas. O Brasil se tornou um país em que uma imensa e paquidérmica burocracia se serve da Nação ao invés de servi-la. Esse estado de coisas se tornou insusten-tável, e quem paga a conta – todos nós! – resolveu dar um basta a essa festa macabra em que o bem comum não é convidado a entrar. A despeito de tudo, inclusive de ter uma classe dirigente republicana mais preocupada com seu próprio umbigo, o povo brasileiro sempre encontrou maneiras de sobreviver, ainda que nem sempre as mais adequadas resultantes da educação pública de má qualidade a que foi submetido por mais de um século.

           O senador Cristovam Buarque, num artigo intitulado “Assassinos de Marielle”, publicado em O Globo, de 31.3.2018, põe o dedo na ferida ao reconhecer o que foi dito no parágrafo anterior. Pena que não citou especifica-mente o plano de reforma agrária do último gabinete do Império, do Visconde Ouro Preto. Ou seja, a proposta de assentar  os ex-escravos ao longo da malha ferroviária, de 10 mil Km, uma das maiores do mundo, que o País já dispunha na época. Tinha o total apoio da princesa Isabel. A ideia era dar-lhes acesso tanto a um bem de raiz como a uma atividade produtiva permanente, ou seja, ocupação em terra própria e renda daí auferida.

          As favelas nascem com a república. Na verdade, foi – e é – um sistema de apartação social que nos caracteriza até hoje, como afirma Cristovam Buarque. Diz textualmente que “Marielle e Anderson foram mortos por sete tiros de fuzil e por cinco séculos de injustiças e ineficiências da sociedade brasileira.” Esta elite, segundo ele, pouco se importou com a sorte da população brasileira. Ela comporia o que ele denominou de assassinos históricos de Marielle e seu motorista. Entretanto, ele comete dois equívocos, um histórico e outro de imprecisão vocabular.  O primeiro ao falar em cinco séculos, quando deveria se referir a mais de um século de injustiças e ineficiências das classes dirigentes do regime republicano brasileiro, aqui instalado desde 1889. O segundo se refere ao uso do termo elite, que é o que há de melhor numa sociedade. Evidentemente, essa acepção correta do termo não se aplica às classes ditas republicanas que tocam os destinos da Nação com tamanha falta de classe.            

          Qualquer estudo internacional abalizado nos informa que a educação básica de qualidade é fundamental para dar sustentação a um processo de crescimento continuado. Cristovam Buarque bate nessa tecla há décadas. E com razão! Mas, a rigor, o processo de desenvolvimento exige mais que isso. É preciso dar acesso a recursos para investimento. Criar um clima em que o Espírito Empreendedor (sim, em maiúsculas!) se fortaleça. A propriedade da terra, como propunha o plano da princesa e do visconde para os ex-escravos, engavetado pela república, era também essencial como fonte de capital e geração de renda. Ou seja, educação e meios de dispor de recursos financeiros. Os ex-escravos ficaram literalmente sem pai nem mãe numa sociedade em que era impossível extinguir o paternalismo da noite para o dia.

          Aos poucos a sociedade brasileira está percebendo que caiu numa armadilha de baixo crescimento ou de crescimento defasado em relação às demais economias do planeta. E não é porque está escrito nas estrelas, o Maktub, de Paulo Coelho. O atraso foi obra conseguida com muita disciplina, década após década, em que o interesse público foi relegado a segundo plano de modo sistemático. Aquela ideia em que prefeitos do interior por vezes ainda cultivam de deixar a burrice florescer para dispor de mão de obra barata.                      

            Mas isso só é possível quando um povo deixa de estar no comando de seu próprio futuro. E aqui vai um exemplo vivenciado por mim à época em que estudava na Universidade da Pensilvânia, nos EUA. Certa feita, tive a oportunidade de ver na televisão, por volta de 1980, um eleitor do estado da Califórnia no exato momento em que estava votando. Surpreendeu-me o fato de a cédula ter algumas páginas em que ele ia marcando uma série de itens. Seriam tantos os candidatos a serem votados? E, curioso, fui me informar o porquê de uma cédula tamanho família.

           Um colega americano me informou que nas eleições eram comuns consultas aos eleitores sobre uma série de questões que envolviam sua cidade, e, por vezes, seu estado e até mesmo outras matérias de caráter nacional. Essa explicação me trouxe à mente a democracia grega direta em que os cidadãos livres se reuniam em praça pública para tomar decisões sobre os destinos de sua cidade. Confesso meu espanto, como brasileiro, que uma prática tão genuinamente democrática continue sendo mantida, ainda hoje, nos EUA. Isso tem nome e se chama poder vindo de baixo para cima.

           Adicionalmente, os americanos ainda dispõem do voto distrital puro (que existia no Império!) e do recall. Ou seja, seus parlamentares (vereadores, deputados estaduais e federais) prestam contas mensais de suas atividades e ainda podem ser substituídos, via recall, por uma eleição no distrito por outro representante que esteja realmente alinhado com as posições de seus representados. Nas terras tupiniquins, nada disso acontece, menos ainda com regularidade. Levando em conta esses fatores, não espanta que o brasileiro se sinta excluído dos processos decisórios em que ele paga a conta sem ser consultado. Quer uma prova? Pare por um momento e reflita apenas sobre os salários de nossos parlamentares, nos três níveis de governo, e do judiciário brasileiros e a mecânica de aprovação dos aumentos que eles se concedem sem jamais consultar o distinto cidadão, que é quem paga a conta. Certamente, é possível cortar pela raiz esses males. Mas não vai ser nada fácil.

Minha identificação: Gastão Reis Rodrigues Pereira             

Empresário e economista                                                     .                                 .             

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