Edição: sábado, 12/05/2018
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  Colunistas
Gastão Reis
COLUNISTA

 

 

EXPLICANDO O MECANISMO
                                                                                  
           Descrever uma dada situação é muito diferente de explicá-la. Sem dúvida que essa primeira etapa é da maior importância para entendermos o que está acontecendo, seus benefícios e malefícios. Em entrevista a Pedro Bial, o cineasta José Padilha, diretor de Tropa de Elite I e II,  conseguiu fazer um  resumo competente do que denominou o mecanismo. Antes de rodar para o Netflix o seriado de mesmo nome, já tinha escrito artigo nos jornais sobre esse animal que mais parece um tiranossauro rex, o rei dos dinossauros carnívoros, em sua imbatível voracidade para devorar recursos públicos, engolidos avidamente pela turma especializada em assaltar os cofres do país numa transa adúltera entre o setor público e o privado.

          Segundo a descrição de Padilha, a mecânica de seu funcionamento envolve os grande partidos e as grandes empresas, em especial construtoras e bancos, que são detentores de megacontratos com o governo federal e estados, sem esquecer municípios de maior porte como Rio de Janeiro e São Paulo. O dinheiro para o financiamento das caríssimas campanhas eleitorais do sistema proporcional brasileiro, que chegam a multiplicar por cinco o seu custo, provem de um sobrepreço cobrado nos contratos e depois repassado pelos grandes grupos nacionais, como Odebrecht, OAS, dentre outros, aos políticos que controlam as grandes agremiações partidárias. Podem ser via caixa 2, os que são ilícitos; e os supostamente lícitos, difíceis mas não impossíveis de rastrear como foi o caso do apartamento tríplex do Lula.

         Esse processo de apropriação indébita, envolvendo bilhões de reais, perpassa todos os grande partidos excluindo alguns menores, explica Padilha, por razões ideológicas ou de baixa capacidade de interferir na aprovação dos projetos de interesse de grandes grupos empresariais. Ele cita o Marcelo Freixo, do PSol, que é seu amigo, como um político honesto. E bate na tecla de que o mecanismo não tem ideologia, fato este que teríamos demorado a perceber. O bolso dos envolvidos comanda o espetáculo. Diz ainda que a corrupção está na lógica da política. Gente honesta se horroriza e se afasta da vida pública. A coisa teria chegado a tal ponto que um cargo público é quase uma certidão de corrupção, que se tornou sistêmica. Até o orçamento para a compra de lápis de pequenos municípios está inflado. E arremata afirmando que seria melhor o vácuo do que ver o espaço político, vale dizer, o poder se degradar a tal ponto.

          As constatações de Padilha, ainda que corretas, nos dizem pouco sobre as causas que vêm alimentando esse teatro de horrores em que subornos de todo tipo estão sempre na ordem do dia. Analisemos suas colocações iniciando pelas últimas.

          Ao afirmar que o vácuo seria melhor, Padilha se esquece que poder não admite vácuo. Os breves interregnos em que aflora são logo preenchidos pelo político ou partido da vez. A visão de que os orçamentos municipais estão contaminados por preços inflados, de fato, não está longe da verdade. E que cargos públicos estão manchados pela corrupção também não desmente o que se observa no dia a dia, ainda que sejam levadas em conta as exceções. A questão de que a corrupção não tem ideologia não é novidade. Isso sempre se deu quer no capitalismo, quer no comunismo, mas neste ainda pior do que naquele por não haver espaço para quem discorde da “verdade” oficial. O comentário dele sobre o Freixo, do PSol, deixa de fora a desonestidade intelectual do próprio Freixo e de seu partido à prova de evidência explícita, reafirmando sempre que o impeachment da Dilma foi golpe e que continua a defender o companheiro Maduro (de podre) da Venezuela.                  

          A questão que se impõe é investigar a fundo as fraquezas institucionais que nos levaram à degradação política em que nos encontramos. E aqui Padilha explica muito pouco por cometer o velho vício de ver apenas uma piora e tanto no “foi sempre assim” sem se dar conta do que ocorreu com a implantação do regime republicano no Brasil, suas distorções, e o apagão da memória histórica nacional que nos impede de ver o quadro em sua totalidade.

              Um sistema político bem resolvido atende a dois princípios básicos. O primeiro deles é que as classes dirigentes aceitem com naturalidade a alternância no poder. E o segundo diz respeito à prestação de contas regulares de seus atos de governo no dia a dia da administração da coisa pública. A república no Brasil sempre teve dificuldade de pôr em prática estes dois princípios da vida política civilizada. Examinemos cada um deles.

             A questão da alternância no poder, mesmo após 1985, quando o poder retorna aos civis, revela um quadro de baixa rotatividade em que os atores permanecem basicamente os mesmos, ainda que os rótulos ideológicos aparentem diferenças que não são de substância. O PMDB, agora novamente MBD, por exemplo, revela uma férrea vocação para ser sempre governo. E uma disposição a toda prova de participar da pilhagem à coisa pública no que foi acompanhado pelo PT que, com a desculpa esfarrapada de financiar o partido, tornou a coisa sistêmica. Nem mesmo o PSDB saiu incólume do processo. A visão de mundo de centro-esquerda, depois esquerdoida, prevaleceu, e com ânimo redobrado de manter as rédeas do poder. Em linhas gerais, é sempre de mais Estado via tributação. Mais Brasília e menos Brasil. De quebra, a direita foi demonizada.

           Quanto à prestação de contas regulares dos atos de governo é onde está a raiz do problema da corrupção, e que explica o que Padilha deixou escapar em sua análise. A república no Brasil, diferentemente do parlamentarismo vigente no Império, desde seus primórdios, desativou e emperrou os mecanismos de eterna vigilância que o bom uso dos recursos públicos exige. A ausência do voto distrital puro com recall, que permite ao eleitor saber a quantas anda a gestão dos impostos que paga, inclusive substituir seu representante parlamentar nos três níveis de governo, fez com que os políticos nadassem de braçada em sua irresponsabilidade ampla, geral e irrestrita. E a corrupção se alastrasse como nunca dantes no Patropi.  Deu no que está aí!

  Minha identificação: Gastão Reis Rodrigues Pereira             

 Empresário e economista                                                     .                                 .            

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