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  Colunistas
Gastão Reis
COLUNISTA

FUTEBOL E POLÍTICA

            Nelson Rodrigues, com pompa e circunstância, dizia que a Seleção era a pátria de chuteiras. É este, de fato, o sentimento que nos inspira quando os canarinhos entram em campo. Nosso fervor futebolístico funciona como uma válvula de escape quadrienal por tantas mazelas que nos impedem de ser o país que todos almejamos. Que lições podem nos ser úteis ao compararmos  o nosso comportamento em matéria de futebol face ao mundo da política com sua infinita capacidade de nos atazanar a vida e criar problemas?

           A primeira coisa que nos salta aos olhos é o nosso elevadíssimo grau de exigência quando se trata de futebol. O técnico que não tem desempenho adequado é substituído sem dó nem piedade por outro. E, se for preciso, não titubeamos em fazer substituições em série nos times. Em futebol, somos um serial killer (assassino serial) de técnicos até encontrarmos um que funcione a contento. Mas não é só isso. A paixão pelo futebol é de tal ordem que, desde pequenos, aproveitamos qualquer pedaço de terra disponível para usar como um campinho de futebol. E a garotada vai para lá, sempre que pode, e joga horas a fio, muito além dos dois tempos regulamentares de 45 minutos dos jogos profissionais. Temos pelo esporte bretão o desvelo de mães extremosas.

           Nada nos feriu tanto quanto o 7 a 1 naquele fatídico jogo contra a Alemanha em 2014. Foi um terremoto que, parodiando Nelson Rodrigues, nos fez contemplar o triste espetáculo da pátria de joelhos. O clima era semelhante ao da Copa de 1950 quando  fomos derrotados por 2 a 1 pelo Uruguai, um placar nada tão vergonhoso quanto o 7 a 1 germânico. Nosso comportamento em matéria de futebol reflete uma vigilância implacável. Estamos sempre atentos e dispostos a punir os responsáveis pelos nossos reveses em campeonatos aqui e lá fora. Não admitimos desempenho medíocre. E, por isso mesmo, somos o país que mais copas conquistou, e que voltou a ser o primeiro no ranking da FIFA após o trabalho excepcional desenvolvido pelo nosso técnico cinco estrelas em busca da sexta Tite.

           Todo esse sistema de pesos e contrapesos, que funciona bem em termos de resultados no futebol, entra em colapso quando se trata de política. Temos hoje um sistema de representação proporcional avaliado como um dos piores do mundo. Não obstante, os analistas da cena política brasileira nos informam que as instituições estão funcionando bem e aguentando o tranco. O fato, por exemplo, de os militares se manterem dentro do espírito de ordem e disciplina sem querer passar por cima da autoridade civil foi, sem dúvida, um avanço que demoramos mais de um século para reconquistar desde 1889.       

          Entretanto, a rigor, o bom funcionamento das instituições não pode ser avaliado por esse indicador da disciplina militar por mais importante que seja. Um arcabouço político institucional precisa ir além. Não basta que o lado formal de respeito à constituição seja observado. O ex-ministro Ayres Britto, do STJ, bate na tecla de que a constituição de 1988 tem todas as receitas de que precisamos para manter o Pais em ordem num sentido amplo.  Com o devido respeito ao conhecimento jurídico do ministro, é evidente que o texto de 1988 não tem regras claras – e ágeis – para lidar com situações de conflito. A despeito de dois (lerdíssimos) processos recentes de impeachment, Collor e Dilma, a verdade é que pagamos um preço absurdamente elevado para abreviar-lhes o mandato. Roberto Campos, por sua vez, logo após a promulgação da constituição dita cidadã, fez uma análise arrasadora dos capítulos referentes à ordem econômica e política. Qual dos dois teria razão?

           Um bom tira teima é a palavra de Douglas North, Nobel em Economia de 1993. Ele nos diz que “instituições são as regras do jogo numa sociedade ou, mais formalmente, são as restrições que nós, humanos, estabelecemos para moldar a interação humana”. Elas “definem a estrutura de incentivos das sociedades e, especificamente, das economias”. Sua teoria institucional busca mostrar que a evolução político-institucional de um país pode até ser mais importante do que as inovações tecnológicas. 

           Essa ferramenta de análise que Douglas North coloca à nossa disposição – a estrutura de incentivos das sociedades e, especificamente, das economias – é poderosa para saber com quem está a razão.

           Existe um ponto forte na defesa que o ministro Ayres Britto faz da referida carta: a independência operacional do Ministério Público e da Polícia Federal, que impede o Ministro da Justiça de simplesmente engavetar um processo de apuração, como ocorria antes, em especial nos crimes cometidos pelo andar de cima da sociedade. Isso não deve nos impedir de detectar um buraco negro que tudo suga para si: a corrupção. Ou seja, quais as razões de ela ter se tornado sistêmica com a efetiva ajuda, sem dúvida, do PT.

           É aqui que entra a análise Roberto Campos apoiada por Douglas North. O sistema de incentivos que preside a vida política brasileira não poderia ser pior. A ausência do voto distrital puro com recall impede que nossos parla-mentares prestem contas mensais de seus atos e que possam ser substituídos por outros numa eleição realizada no distrito pelos eleitores insatisfeitos com o desempenho de seu representante. A isso se soma um custo cinco vezes maior de uma campanha eleitoral no chamado sistema proporcional que adotamos já faz quase um século, o que favorece a corrupção.

           Diferentemente do que ocorre no futebol, não dispomos de instrumentos que nos permitam monitorar e cobrar os desmandos de nossa vida política. A mesma esquizofrenia observada entre o ótimo desempenho do agronegócio e o medíocre da indústria no Brasil ocorre entre futebol e política. No primeiro, com o técnico Tite, mostramos que temos talento e capacidade de nos afirmar como potência futebolística. Na política, nos transformamos no que os americanos chamam de pato manco. A solução existe e é conhecida e aplicada com sucesso pelos países bem resolvidos na área política como o Brasil já foi em outras eras. O segredo de Polichinelo é a eterna vigilância que exercemos no futebol, mas não na política. A hora é chegada e não há como tardar mais.

 

   Minha identificação: Gastão Reis Rodrigues Pereira             

   Empresário e economista                                                     .                                 .            

  E-mail: gastaoreis@smart30.com.br// Cel. (24) 9-8872-8269

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