Edição: sábado, 10/02/2018
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  Colunistas
Gastão Reis
COLUNISTA

A REAÇÃO DO BRASIL PROFUNDO                                                                                         

            Existem situações em que você se vê ouvindo conversa alheia sem estar escondido por trás da porta. Tomei um ônibus e fui me sentar no lugar vago no banco dos fundos. Ao meu lado, já estava acomodada uma senhora negra que, pouco depois, pegou o celular e ligou para a filha. Seu tom de voz era claro e audível. Depois do “Como vai? Tudo bem?”, ela começou a fazer um relato para a filha de que a PM, num município vizinho de Petrópolis, havia feito uma batida em pontos estratégicos da cidade buscando drogas e traficantes atuantes na área. Lamentou pelas mães cujos filhos tinham sido presos por envolvimento com drogas. Tive que descer, e não ouvi mais nada. Mas levei comigo o lamento dela em relação à amplitude desse problema que nos atinge a todos independentemente de classe social. Daí sua gravidade. Uma daquelas notícias que nos deixam perplexos diante do quadro ladeira abaixo percorrido pelo país.  A autoestima de brasileiro desce ao nível do tornozelo.

           Ato contínuo, chego no escritório,  e abro o computador. Logo de cara, sou exposto a uma bela notícia enviada via WhatsApp por um amigo. A TV Bandeirantes, em seu jornal em horário nobre, noticiou o verdadeiro exercício de cidadania posto em prática pelos munícipes de Oliveira, em Minas Gerais. Eles simplesmente abortaram o aumento que os vereadores queriam se dar de três mil e quinhentos para cinco mil reais. Melhor ainda: conseguiram aprovar um projeto de lei em plenário que cortava pela metade os salários do prefeito, do vice e dos secretários. Quanto aos vereadores, impuseram a redução para um salário mínimo. Até mesmo porque a Câmara Municipal só se reúne uma vez por semana. A matemática é simples: qualquer mortal que ganhe quase mil reais para trabalhar um dia por semana estaria ganhando o equivalente a cinco mil reais por mês, se embolsasse o mesmo nos demais dias da semana.

           Mais alvissareiro ainda foi a parte final da reportagem sobre iniciativa semelhante ocorrida no interior do Paraná, no município de Jacarezinho, e outros circunvizinhos indo na mesma direção. É o que se denomina efeito dominó: caída a primeira peça as demais vão no embalo. Trata-se do tipo de reação popular vindo do Brasil profundo mostrando que o povo brasileiro tem brios e está resolvido a ter um setor público a serviço da população, e não esta a serviço daqueles que deveriam ser seus servidores. A inversão de valores que tomou conta do país está entrando em ritmo de reversão aos velhos e sadios valores que foram regra durante séculos e décadas no Brasil.

           Vereadores, de um modo geral, até meados do século XX, não eram remunerados. Em Petrópolis, por exemplo, até a década de 1960, não recebiam nada. Reuniam-se três dias por semana à noite e davam conta do recado sem precisar da penca de assessores batendo cabeça nos gabinetes sem ter mesa onde sentar. No Rio de Janeiro, um único vereador, eleito em 2016, reduziu seus assessores de 20 para 6 sem perda alguma de eficiência. Reações como essa da população nos levam a fazer as pazes com nossa autoestimava de brasileiros que estava lá no tornozelo indo em direção à sola do pé.

        Compararemos agora esse belo exemplo de cidadania dado por brasileiros simples do interior com o espetáculo deprimente de juízes engravatados e juízas – literalmente – de salto alto fazendo manifestação em frente ao STJ para pedir aumento de seus proventos e protestar contra a reforma da previdência. (Eles ainda ganham auxílio moradia, entre outras várias mordomias, de 4.300 reais todo mês.) Bom lembrar que a remuneração de juiz oscila em torno de 48 mil reais mensais ou mais, dependendo do caso. Eles vão integrar no futuro aquele grupo seleto de um milhão de funcionários públicos aposentados que consomem  cerca de 80% dos recursos destinados ao pagamento de aposenta-dorias. Os restantes 20% desses recursos são destinados a pagar 19 milhões de aposentados pelo INSS com salários diminutos diante dos de suas exce-lências.  Diante desse quadro, nossa autoestima viaja de volta ao tornozelo.

                                                Nessa linha do mal a pior, o ministro Humberto Martins, do STJ, produziu a seguinte pérola em relação ao auxílio moradia: “Estou recebendo por força da decisão do Supremo e da resolução do Conselho Nacional de  Justiça. Não tenho opinião.” Ao que a sociedade brasileira vem respondendo em uníssono: “Pois nós temos: é imoral e inaceitável!” Por sua vez, o juiz Marcelo Bretas e sua esposa, também juíza, que têm imóvel próprio no Rio de Janeiro, também estão recebendo o infame auxílio, ou melhor, a mordomia moradia em dobro. Um “pequeno” acréscimo de seus nada magros proventos mensais!

         O sem dúvida respeitável (e aqui não vai nenhuma ironia) juiz Sérgio Moro, que é proprietário de imóvel próprio em Curitiba, também está recebendo “auxílio” (permitam-me as aspas) moradia. Justificou dizendo que esses penduricalhos são uma compensação pelos reajustes que não teriam ocorrido nos últimos anos. É hora do ilustre juiz Sergio Moro e seus pares copiarem o exemplo da Suécia em que salários muito altos têm reajuste percentual menor do que os salários de menor poder aquisitivo de modo a melhorar a distribuição da renda. No Brasil, reajuste zero, por algum tempo, certamente não vai deixar os senhores juízes de pires na mão. O exemplo contaria, e muito. 

           Um país em que as pessoas que têm mais gordura a perder se negam a se desfazer de alguns gramas não prenuncia um futuro promissor. O exemplo que não está vindo de cima provoca estragos éticos e morais desagregadores de nossa sociedade. O justo combate à corrupção levada adiante por juízes, magistrados e policiais federais não os exime de se irmanarem aos brasileiros menos favorecidos nessa hora difícil por que todos passamos. Hora de um mea culpa, e de revogar decisões imorais como a do auxílio moradia dentre outras. Mais que hora de não ignorar a reação em andamento do Brasil profundo.     

 Autor: Gastão Reis Rodrigues Pereira

Empresário e economista.

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