Edição: segunda-feira, 14/05/2018
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Gilberto Pinheiro
COLUNISTA

A NOVELA DAS CHARRETES EM PETRÓPOLIS ARRASTANDO-SE NO TEMPO

capítulos longos, cansativos e desnecessários arrastando-se no tempo.  Até quando?  

O problema das charretes na cidade imperial se arrasta no tempo, lembrando novelas televisivas com muitos capítulos intensos e cansativos,  apenas para reter a atenção de telespectadores nada exigentes, uma história surreal e de inequívoca fuga da realidade contextualizada nos maus-tratos aos equinos.   Infelizmente, a questão tomou corpo, cresceu, tornou-se robusta e sai governo, entra governo e nada se resolve.  Lembro-me bem que há três anos, quando eu era consultor da Comissão de Proteção e Defesa dos Animais da OAB-RJ, juntamente, com o presidente da mesma, o amigo e advogado defensor da causa animal, Reynaldo Velloso, estivemos com a assessoria do prefeito na gestão anterior, pedindo solução ou o fim da desse tipo de veículo nessa bela cidade, haja vista que é inadmissível, nos dias de hoje, a exploração animal.   Alegaram que tinham que construir um curral para abrigar os cavalos que trabalhavam nessas precárias condições. 

O tempo passou, construiu-se o curral e a promessa não foi cumprida.  Há uma certa condescendência e concordância com o pensamento de minorias que acreditam ser as charretes tradição cultural e, portanto, devem prevalecer. Ora, tradição se modifica a todo instante.  Por exemplo, palavras que eram pronunciadas há 30 anos, hoje estão em desuso, tendo sido substituídas por outras da atualidade;  a forma de o ser humano se vestir há cinquenta anos é diferente de como nos vestimos nos tempos atuais e assim sucessivamente. Portanto, ratifico e reitero que cultura se modifica ao passar dos tempos e isso é incontestável.

Por que manter equinos puxando charretes se podem ser substituídos por carrinhos elétricos?  O ser humano precisa evoluir, entender que os animais são seres sencientes como todos nós e que mantê-los nas condições degradantes, ou seja, debaixo de sol escaldante, sob chuva  contínua ou até intermitente, trabalhando em média seis horas por dia, apenas para satisfazer o egoísmo e a falta de sabedoria humana não vale a pena;  não é condição digna de entendermos a vida desses infelizes equinos.  Inclusive, já abordei a questão em artigos diversas vezes.  Tenho que ser insistente, caso contrário, tudo será em vão.

Agora, um  insólito e oportunista  impedimento, postergando a decisão - sugeriu-se um plebiscito que foi aprovado na Câmara Municipal  e será realizado em outubro próximo, junto às eleições majoritárias, tendo sido sugestão  do vereador Meirelles. Ora, tira-se o corpo fora, defenestra-se a responsabilidade para contornar a situação temporariamente,  dando satisfação a gregos e troianos.  Isso é inaceitável, uma vez que há legislação protetiva aos animais que precisa ser respeitada.    Ciente que há diversas cidades interioranas em nosso país e até capitais que abriram mão das charretes, além de leis que amparam os animais, inclusive, jurisprudências, não há por que postergar-se a decisão. Não há necessidade de plebiscito, mas de boa vontade para escrever os capítulos finais ou epílogo dessa cansativa novela.

  Temos que pensar grande, tomar decisões compatíveis com a ética e bom senso, lembrando que  os animais merecem respeito como todos nós gostamos de ser respeitados.  Gosta de cultura da tração animal?  Visite o Museu Imperial e deleite-se ao visualizar as charretes (vitórias)  e carruagens dos tempos do império e sonhe como se estivesse numa delas, evitando, assim, o sofrimento dos equinos, pois eles sentem como todos nós.   É lamentável que essa novela não tenha chegado ao fim, por causa de um "autor" que não sabe preparar o desfecho da mesma, um diretor inexperiente e falta de protagonista que se emocione, interpretando o texto.   A impressão que dá é que alguns políticos desejam apenas votos nas próximas eleições e  os capítulos se arrastam, com promessas de um epílo go satisfatório, alimentando a esperança em corações desejosos de justiça pelo bem-estar dos animais.
 
Isso é uma das faces do  Brasil com problemas mergulhados no tempo por inoperância e descaso de algumas autoridades que postergam soluções,  verdadeiro atraso cultural sem precedentes.  Fica uma pergunta no ar:  até quando viveremos este retrocesso histórico? até quando iremos conviver com a realidade dos velhos tempos do Brasil imperial?
 
Gilberto Pinheiro
jornalista, palestrante em escolas, universidades
sobre a senciência e direitos dos animais

e-mail: pinheiro.gilberto@bol.com.br



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