Edição: segunda-feira, 06/11/2017
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José Luiz Alquéres
COLUNISTA

 VER DO ALTO PARA VER MELHOR

 Havia já algum tempo que eu não tinha a oportunidade de sobrevoar de helicóptero as cidades do Rio do Janeiro e Petrópolis. É interessante pensar neste tipo de oportunidade como uma ferramenta de trabalho. Algo com aquele fascínio que Galileu dirigiu seu telescópio rudimentar para o Universo ou um cientista que pode com um microscópio ver microrganismos e bactérias.

 O estudioso de problemas urbanos frequentemente está limitado a correr de automóvel e outros meios terrestres a cidade, anotar mapas, levantar pesquisas e elaborar conclusões que embasem suas propostas depois. Nada, porém, se compara à perspectiva obtida com a visão de cima, aquela que nos impacta e nos dá a verdadeira grandeza do problema urbano. Eu tive esta experiência no último fim de semana.

 Não pude deixar de refletir amargamente sobre quão distante da realidade ficaram os versos do poeta referindo-se à Mangueira: “...vista assim do alto, mais parece o céu no chão”.

 O helicóptero decolou de Jacarepaguá. Aquilo que vi é estarrecedor: Quadras e quadras sem uma única árvore. Nenhum centro cívico, nenhuma praça em muitos bairros. Mais para inferno do que para céu...

 As construções invadiram os morros em áreas de alto risco de deslizamento, provocando desmatamento e comprometimento de inúmeras nascentes e rebaixamento de lençóis freáticos. São enormes extensões de construções de crescimento espontâneo, que não pagam imposto, não obedecem a qualquer licenciamento e fruto, em muitos casos, de loteamentos clandestinos.

 Esperava algo melhor em Petrópolis. Lamentei constatar a extensão do problema em nossa cidade. Com um agravante: o enorme risco de deslizamento de encostas ameaçando uma parte substancial – 30 a 40 por cento segundo um estudo – da nossa população.

 Tal situação fica mais preocupante ainda mais com a perspectiva do aumento da frequência de eventos extremos: chuvas, temporais, enchentes, tempestades típicas do nosso Verão. E também algo que está associado às mudanças climáticas que estão ocorrendo, causadas por fatores que estão fora da nossa alçada controlar. O que podemos é prevenir desastres maiores, mitigar seus efeitos e salvar vidas.

 O poder público que poderia ter controlado este processo através de oferta de lotes populares em locais adequados nada fez. Pior, tem deixado áreas enormes sem equipamentos urbanos e não tem favorecido uma cultura de participação popular na vida da cidade.

 Agora em todo Brasil parece que a lição apreendida com os jogos olímpicos foi uma só: o povo gosta mesmo é de circo. Perdeu-se a oportunidade única de se valorizar conquistas por mérito para incentivar as cidades se empenharem numa competição por megaeventos de duvidosas contribuições para a cultura ou para economia urbana.

 A verdadeira prioridade é outra coisa: a educação. E dentro dela a educação pré-escolar é fundamental. Dou um exemplo. Há cerca de 7 anos, em conjunto com a Mitra e uma entidade chamada Cruzada do Menor, participei da implantação de uma creche para 80 crianças no Morro da Glória. O CEI Nossa Senhora da Glória - in memoriam de Tico Alquéres Wright (meu neto). A única participação da Prefeitura Municipal foi no dia da inauguração mandar uma pipa d’água lavar a rua...e, naturalmente, através do então Prefeito e do Secretário Municipal de Educação, nos brindar com os habituais discursos na inauguração.

 Na ocasião, um estudo realizado apontava a necessidade de 500 vagas em creche no local. Hoje o CEI N. Sra. da Glória já expandiu seu atendimento para 170 crianças. A Mitra, principalmente, e doações particulares sustentam a creche. Em outro momento, eu, na ocasião Presidente da Light, em parceria com o Vice-Prefeito Oswaldo Costa Frias, consegui uma cessão em termos bem favoráveis ao município de um edifício na Posse para abrigar uma creche, esta apoiada decisivamente pela Prefeitura. Um mau exemplo e um bom exemplo.

 Ao ver vários bairros com enorme profusão de casas e sem equipamento algum, tais como escolas, centros sociais, praças, parques, creches, centros comerciais e de lazer,... chego a conclusão que não é mesmo de admirar que eles estejam se tornando territórios do Comando Vermelho, PCC e outras organizações criminosas. A natureza repele o vácuo. Se o Estado não entra, alguém há de entrar. Crime organizado ou milícia.

 Assim, embora eu valorize muito o planejamento, acho que ao lado de orientarmos o nosso futuro temos que cuidar imediatamente do presente – e não é tarefa complexa ver o que deveria ser feito em boa parte destes bairros populares e comunidades de Petrópolis antes que eles se consolidem como verdadeiras usinas de formação de frustração e revolta. Uma voltinha de helicóptero e uma consulta às lideranças locais poderiam identificar o que deve ser feito com os recursos que a Prefeitura dispõe – que não são muitos certamente. Mas não creio que possam ter melhor destinação do que esta.

 Outros problemas no campo da mobilidade, cultura, etc. podem e devem ser objeto de mobilização de parcerias público-privadas. Diga-se, entretanto, que este projeto (de pequenos centros cívicos) para bairros abandonados é básico, urgente e imediato.



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