Edição: segunda-feira, 07/05/2018
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José Luiz Alquéres
COLUNISTA

 

 

OS REINOS DESTE MUNDO

No reino dos céus - A cidade de Deus - toda hierarquia está definida. Lá não há mobilidade social, nem guerra de fronteiras. Todos vivem em harmonia e sem pecados. O problema sempre foi como governar as “cidades dos homens”, seres maus por natureza, segundo Santo Agostinho. Homens nascem portadores do pecado original e suas cidades transbordam de pecados. E caberá aos homens governar os reinos deste mundo – pois para isso receberam o supremo dom do livre arbítrio. Os homens, no entanto, tendo em conta a sua falível capacidade e a total – e de certa forma imprevisível – dependência de serem contemplados pela graça de Deus, deveriam procurar sempre serem bons e justos. Deveriam, igualmente, obedecer a ordem secular vigente, ainda que iníqua por vezes. O mais importante era o ingresso no “Reino dos Céus” ao final da vida terrena.

Esta síntese do pensamento Agostiniano em sua contraposição entre a cidade de Deus e as cidades dos homens manteve-se pelos 800 anos seguintes ao seu enunciado. A queda do Império Romano do Ocidente, contemporânea do tratado de Agostinho, deu início a um longo período que chamamos Idade Média, ou “Idade das Trevas”, pelo pouco progresso que se observou nas mais variadas manifestações culturais e políticas.

Sem o antigo poder centralizador do Império, observou-se a fragilização de todos os ducados e principados resultantes da fragmentação deste poder. A consequência natural foi sua subjugação por tribos e povos que invadiram a antiga Europa Romana de então. Foi a época das ‘invasões bárbaras’. Os povos que viviam sob o jugo de Roma viram-se desta vez conquistados e mesclados com invasores oriundos da região do Báltico, no extremo norte da Europa, ou, vindos do flanco do este, os godos, visigodos e vândalos, empurrados pelos hunos e mongóis que expandiam seus domínios da Ásia central. Neste clima de guerras e apreensões permanentes, com um ou outro sábio perdido em um convento ou em uma corte mais culta, pouco progresso houve no pensamento político.

Estes conquistadores, por sua vez, foram se estabelecendo em seus novos domínios e progressivamente tomando contato com a religião cristã tendo sido observada a conversão da maioria à ela. O cristianismo era propagado a partir de Roma, de onde emanava a autoridade espiritual nesta parte do mundo. É preciso observar que tal autoridade já não seguia à risca o preceito de Jesus Cristo: “meu reino não é deste mundo” (João 18:36). Na realidade, desde que havia sido adotada como religião oficial do império, ela passou a se envolver com questões seculares da época, visando garantir e expandir não só seu domínio espiritual como sua riqueza terrena.

Com o latim e a religião como traço de união, o Papado em Roma passou a favorecer esta fragmentação do poder secular (desde que os alemães de Carlos Magno e seus descendentes segurassem os lombardos no norte da Itália para que não invadissem os Estados Papais). Mais para o fim da Idade Média, os papas promoveram as Cruzadas, uma sangrenta “guerra santa” aos árabes do norte da África – e no caminho aos cristãos ortodoxos – com marchas de cavaleiros e guerreiros europeus fundando vários Estados “europeus” na Ásia Menor. Atualmente, há quem considere “troco” o terrorismo islâmico, infelizmente comum nas manchetes.

Já no Oriente, com sua capital em Constantinopla, hoje Istambul, o Império Romano sobreviveria por mais mil anos, embora alcançasse o seu apogeu territorial em torno do século VI D.C., sempre mantendo a união do poder secular do Imperador com o poder espiritual do patriarca religioso (nomeado pelo Imperador e dependente dele, portanto). A igreja não tinha em si uma força política e militar. Embora houvesse o termo “Romano” no nome deste Império, a língua era o grego e, depois, as línguas nacionais de cada patriarcado (ditos ortodoxos). A cisão religiosa com o catolicismo ocidental neste sentido foi quase total, embora ambas religiões sejam cristãs. Ela persiste até hoje com patriarcados em Istambul, Moscou, Sérvia e ainda em outros países, todos com características de igrejas nacionais. O Premier russo Vladimir Putin trouxe de volta em anos recentes o patriarca para dentro do Kremlin como forma de reforçar este conceito de autoridade forte, centralizada, tão ao gosto de regimes totalitários.

Neste ambiente, quase nenhuma reflexão política inovadora ocorre e nenhum grande pensador político, desde Agostinho, irá aparecer até a chegada do século XIII, quando surge Tomás de Aquino com uma abordagem mais ampla da política. Tal abordagem resgatava conceitos dos escritos de Aristóteles, que estavam voltando a circular em traduções efetuadas de transcrições antigas do grego para o árabe. Assim, tais tratados (“Ética a Nicômaco” e “A Política”) voltariam a estar na ordem do dia cerca de 1.500 anos depois de terem sido escritos.

Neste longo interregno no progresso das ideias políticas, vale deixar registrado o “Corpus Juris Civilis”, uma exaustiva compilação de leis e jurisprudências antigas, elaborado em Constantinopla na época do Imperador Justiniano, século VI, e o “Policraticus” (também conhecido como “Livro do Estadista”), de John de Salisbury, já no século XII. Este último, menos conhecido, é uma coletânea de exemplos e histórias edificantes lembrando os deveres dos governantes de pequenos estados, sendo de se notar tanto pela forma (escrito na forma de pequenas fábulas, bem ao gosto da literatura da Idade Média) quanto pela singularidade e praticidade.

 



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