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  Colunistas
José Luiz Alquéres
COLUNISTA

ENTRE O PROGRESSO DAS IDEIAS E O DAS PRÁTICAS POLÍTICAS

Na história do mundo nem sempre o avanço no campo das ideias, o aumento da sabedoria, correspondeu ao avanço na sua aplicação. Algumas vezes vemos a passagem de mais de séculos entre as duas coisas (e algumas ideias nunca saem do plano abstrato).

Devemos a propósito lembrar dois notáveis formuladores de sabedoria no século XVII cuja influencia se fez sentir aos poucos, mas perdura desde então. Montaigne, que já citamos em outro artigo, ressalta em seus “Ensaios” a importância do autoconhecimento, da reflexão sobre si mesmo e da resignação ao vai-e-vem das injunções do destino. Spinoza, que entre inúmeras contribuições contidas em sua “Ética” está a valorização da alegria no existir como fonte da potência do homem e a expulsão da tristeza que corrói sua capacidade criativa. Isso exige um trabalho mental fundado no Amor, aqui em seu sentido mais amplo, no repúdio à Cólera, no arrependimento, etc.

São aspectos da sabedoria associados à mente do homem moderno e, ressalto, a serem desenvolvidos por algo definido como uma “ética do interesse próprio” – não aquela que existe só para agradar a Deus ou ao soberano do momento – mas sim como regra de vida que traz recompensas diretas na qualidade do viver.

Outro grande pensador daquele século que, assim como os citados acima, ganhou importância perene foi Francis Bacon. Ele estabeleceu as bases que viriam a amparar a evolução do modo de pensar da revolução científica: o conhecimento baseada na experiência. Num famoso aforismo – onde ele estabelece as características de formigas, aranhas e abelhas – Bacon compara os homens que meramente acumulam informações e conhecimentos (associando-os às formigas) com aqueles que tentam apenas pela razão especulativa retirar verdades de suas elucubrações (que Bacon equipara às aranhas, a tecer a sua teia com base no que tem dentro de si). O caminho estaria em ser como abelhas que fazem uma coisa e outra. Tanto colhem o pólen das flores (os conhecimentos) como o transformam em mel, por meio da sua capacidade de produzirem coisas úteis. Esta seria a finalidade do estudo e da pesquisa combinados com a experimentação.

Na Inglaterra, porém, o século XVII foi cena efervescente não só do surgimento de ideias políticas como também de sua implementação prática. Neste país, onde a influência da religião católica e do poder divino dos reis havia perdido o peso que ainda possuía na Europa continental, vimos dois pensadores de destaque: Hobbes e Locke.

Hobbes pensou a sociedade a partir de uma visão egoísta e individualista do homem. Em sua concepção, o homem vive no que ele chama de “estado da natureza”, onde cada um pensa sobretudo em si e que, seja de maneira mais selvagem ou mais civilizada, este homem vai empregar todos os meios de que dispõe para auto satisfação. Sendo assim, Hobbes defende a existência de um poder político absoluto e forte para manter estas paixões dentro de limites possíveis. Na época da guerra civil inglesa, cerca de 1640, começou apoiando o Rei (que acabou decapitado) mas também manifestou seu apoio quando Cromwell e o Parlamento assumiram o poder as prerrogativas de seu exercício. Sua obra mais famosa é o “Leviatã”, termo que definia um monstro bíblico fortíssimo utilizado aqui como uma metáfora para o Estado - que a todos deve controlar em prol de manter a vida em sociedade possível.

Cerca de 50 anos depois, ao tempo em que a chamada Revolução Gloriosa na Inglaterra coloca um limite claro ao poder do soberano subordinando-o ao do Parlamento, vemos surgir John Locke, que recupera de Aristóteles o conceito do homem como animal cooperativo e que, para viver plenamente, deve faze-lo em sociedade, na Pólis. Assim, Locke propõe como papel do Estado assegurar a máxima liberdade para os cidadãos conciliando a visão de liberdade dentro de uma possível Ordem. Sua influência é perene – tanto quanto a de Hobbes que tem visão do homem, como vimos, contrária.

Uma das coisas que se destacam nos dois é terem formulados suas ideias ao tempo em que grandes revoluções ocorriam na prática, embora restritas à Inglaterra. A de Cromwell, contemporânea de Hobbes – e a Revolução Gloriosa, contemporânea de Locke. Ressalte-se que a Revolução Gloriosa antecedeu cerca de 100 anos a Revolução Francesa e de maneira menos cruenta propagou ideias políticas revolucionárias como a submissão do poder real ao do Parlamento.

Hoje temos que entender como diferentes conceitos podem conviver na política. O Amor que fala Spinoza e o Conhecimento sobre o qual reflete Montaigne reforçam o respeito que devemos ter à diversidade de opiniões, de tolerância e da inevitabilidade e desejabilidade da alternância no poder, nos moldes do respeito à instituição democrática.

O problema da democracia, como já apontado na obra “A República”, de Platão, é que ela é vulnerável a muitos inimigos totalitários que acabam levando a sociedade à desordem e d’ela para a Tirania. A manutenção desta “frágil planta” – a Democracia – é, desde então, de forma crescente um dos muitos desafios das instituições da sociedade moderna.



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