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  Colunistas
José Luiz Alquéres
COLUNISTA

POLÍTICA CANSA?

A pergunta no título acima pode dar a entender que é dirigida a um político sendo indagado se sua atividade ‘profissional’ é cansativa. Na verdade, queremos dizer justo o oposto: Dirigimos esta pergunta para os eleitores. Gostaríamos de saber se estão cansados de ouvir falar de política. Cansados de ouvir promessas. Cansados de serem surpreendidos com escândalos. Cansados de verem coisas essenciais não acontecerem. Cansados de assistir discussões estéreis, não apenas entre os políticos, mas também entre os seus seguidores.

Não precisamos ser brilhantes para adivinhar a resposta. Percebe-se – e pesquisas comprovam – um grande desânimo no eleitorado e, pior, um descrédito geral na atividade política. Isto é muito pernicioso pois, se este terreno é visto como “pantanoso” demais para se trafegar, a tendência é deixar o caminho livre (mesmo tendo a importância que tem!) para aqueles que muitas vezes não possuem um compromisso com o bem-estar geral – visando, sobretudo, vantagens pessoais e para seu grupo de apaniguados. Este enfado geral também abre espaço para outra atitude perigosa: a entrega do voto para aqueles que sugerem medidas ultrarradicais, soluções violentas e milagrosas para resolver o problema. A História é farta de exemplos de tiranias se sucedendo a períodos anárquicos e onde houve uma percepção geral de desordem.

Na antiga Roma, quando Julio Cesar – representante de interesses políticos autoritários, centralizadores, militaristas e idolatrado pela plebe – foi assassinado (pelos que se diziam defensores da volta aos ideais puros da República Romana) poderia se imaginar que a política romana voltaria ao que era anteriormente. Seria o retorno da política “clássica”, pois ao lado dos assassinos estavam grandes figuras republicanas, Cícero, Brutus e outros.

As discussões no Senado se sucediam. Qualquer medida a ser tomada em nome da democracia era precedida de intermináveis discussões. Assim, o máximo que os conspiradores conseguiram foi adiar aquilo que nos tempos de Cesar já se desenhava como um caminho sem volta: a ascensão do Império. Cicero, considerado o maior jurista e orador de Roma, acabou também assassinado por ter se alinhado ao discurso democrático e republicano do Senado romano. A História nos mostra que foi em vão todo o esforço daqueles que assassinaram Cesar. Viu-se, por fim, a coroação de Otaviano como Cônsul Imperial, adotando o título de “Augusto”, que incorporou ao seu nome.

Assim, uma antiga república de mais de 500 anos transformou-se em um Império, inicialmente dinástico, mas depois com a sucessão de governantes escolhidos entre generais. Roma era um Estado que vivia de guerras. Um caso típico de troca de liberdade por ordem discricionária e autoridade repressiva. Desde então, governava aquele que tivesse a força do exército ao seu lado. O que importava era a liderança frente ao exército, conseguida pela quantidade de butins oriundos das guerras e distribuídos entre soldados e o povo. Era importante também o programa de obras públicas – estradas, pontes, aquedutos, edifícios para eventos públicos – que davam emprego em geral para escravos e artífices e melhoravam as condições de vida nas cidades. Em outras palavras, 500 anos de vida democrática não preveniram a volta de um regime fechado.

Mutatis mutandi, seria em 2018 sermos todos governados no estilo imposto por diferentes milícias (que já governam algumas áreas em nossas cidades, diga-se).

Assim, certos acontecimentos dramáticos na vida de um país não levam necessariamente ao progresso. Na história não existe uma evolução contínua para o melhor. Acontecimentos não só podem ocasionar a manutenção do estado das coisas ou até mesmo provocar retrocesso.

A História conhece muitos retrocessos e nem sempre suas lições são lembradas. No Brasil em particular, a nossa vida democrática vive aos sobressaltos, em crise quase permanente. Em tal contexto, observamos que o clamor geral por “Ordem” parece até mais forte do que o desejo por “Democracia”. Há um sentimento majoritário pelo fim da “bagunça”, pela necessidade de um mundo mais previsível. Este tipo de mundo, porém, fiquemos atentos, a História mostra que frequentemente descamba para regimes ditatoriais, de poucas liberdades, apatia do povo e pouca inovação. Preço caro a se pagar.

A vida democrática tem se mostrado a única via possível para assegurar liberdade criativa, com alternância do poder entre os partidos e, portanto, com alternância nos enfoques para proporcionar o bem comum. Processos revolucionários causam traumas e retardam, por vezes inibindo toda uma geração de progredir no conhecimento da política, algo que só se ganha na experiência, ou seja, votando, observando erros dos eleitos e mudando o voto na próxima eleição. Enfim, aprendendo com a experiência a votar melhor. Isto requer educação, cultura cívica e participação na vida comunitária. Assim são criadas instituições fortes – em vez de esperança em chefes populistas e carismáticos.

O Império Romano nascido na queda da República o que significou para seus cidadãos? Um regime de poucas liberdades civis e, depois, com a ascensão do Cristianismo como religião do Estado, um regime de grande obscurantismo intelectual. Nele observam-se, dentre outras as características: um regime autoritário; o exército forte controlando fronteiras e revoluções internas; e pouquíssimo grau de evolução do pensamento humano nas ciências e na filosofia com desestímulo aos estudos clássicos.

A ordem celeste e a existência de um Deus todo poderoso encontravam um paralelo na Terra e servia como uma espécie de “modelo” que os homens tentavam aqui copiar: tinha-se a ordem vinda da figura de um Imperador, legitimado “pela graça de Deus”, e seus assistentes diretos civis e militares, que impunham sobre o povo a força de uma justiça tirânica.

Estes 1.400 anos imperiais que se seguiram não foram anos férteis para o progresso da política no Ocidente. Poucos escritos relevantes foram produzidos, mas dois se destacam: os escritos de Santo Agostinho – especialmente a Cidade de Deus, em 410 DC e, oito séculos depois, os de Santo Tomás de Aquino, na Suma Teológica. Poucas obras literárias e filosóficas de vulto, poucas contribuições e reflexões sobre a condição do homem. Havia um pesado conformismo à ordem terrena, como algo que expressava a vontade direta de Deus.

O Império Romano Bizantino caiu de podre, com governantes cada vez mais corruptos e povo cada vez mais ignorante, artes e ciências cada vez menos prestigiadas.

Não podemos deixar que esse tipo de opressão volte a governar os homens – o que exige deles compromisso de participação política, estudo e compartilhamento de informações. Exige, especialmente, intolerância às mazelas que assolam a nossa vida política – como a corrupção mesquinha que invade as mais insuspeitas atividades públicas e tanto desalento traz aos habitantes da nossa cidade. 



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