Edição: domingo, 04/02/2018
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José Luiz Alquéres
COLUNISTA

QUANDO NÃO HAVIA A GLOBALIZAÇÃO

Quando não havia a globalização aquilo que ocorresse em um lado do mundo pouco repercutia no outro. Se isso ainda era verdade até o século XIX, que dirá na remota antiguidade, quando na Europa mal se sabia do Oriente, seja do ponto de vista físico e geográfico, seja sob o aspecto humano e cultural. Assim, a história do desenvolvimento político da humanidade frequentemente é abordada apenas pelo que ocorreu em uma parte do mundo.

Verificaremos, todavia, que a despeito desta separação cultural e geográfica, a evolução do pensamento político desde a remota antiguidade guarda surpreendentes paralelismos entre áreas extremamente distantes e das quais não temos registro de maiores intercâmbios.

Na China do século VI a.C., Confúcio sistematiza as bases filosóficas de um pensamento que até hoje lá prevalece com grande respeito à tradição, à hereditariedade e à hierarquia. Seu continuador é o filósofo Mozi, nascido 9 anos após a morte de Confúcio.

Embora tenha passado dificuldades econômicas na juventude, Confúcio vinha de uma família bem situada do ponto de vista hierárquico numa sociedade onde a hereditariedade e um certo sentido de casta eram fortes. Já Mozi, carpinteiro de origem humilde, evoluiu de forma bem mais difícil e sempre através do aprendizado. Desta forma, diferentemente de Confúcio, ele defende a elevação dos mais aptos para a administração do Estado, sendo a conquista da aptidão aberta a todos que estudassem e praticassem a virtude. Estas seriam as pessoas que poderiam aspirar a exercer a autoridade – e não as que a avocassem um direito em virtude de nascimento. “A exaltação do virtuoso é a base do governo” – pregava ele.

Mozi lança, portanto, as bases de um pensamento de valorização da meritocracia – tendo em sua própria história o melhor exemplo daquilo que pregava.

Na linha do tempo, ao nos deslocarmos para o outro lado do mundo, na Grécia Antiga, vemos o nascimento de Aristóteles se dar apenas 6 anos após a morte de Mozi. Aos 17 anos ele vai estudar na Academia de Platão em Atenas, onde se destaca.

Com a morte de Platão, ele, contrariamente ao esperado, não foi apontado para suceder o mentor. Pouco depois, resolve viajar e se afastar da cidade, tendo sido contratado por Felipe II da Macedônia como tutor do seu filho e herdeiro, Alexandre (que viria a figurar em nossos livros de História no futuro como “Alexandre, o Grande”). Quando se libera, volta para Atenas onde funda o Liceu, instituição rival da Academia de Platão.

Alexandre, demonstrando quão forte foi a influência do mestre em sua formação, ao longo de suas inúmeras conquistas que alcançam Grécia, Egito, norte da África, Afeganistão, Pérsia e Índia, vai semeando focos de cultura grega por todo este Oriente.

Com efeito, é Aristóteles quem escreve mais compreensivamente sobre história natural, filosofia e todos os grandes temas da antiguidade. Aqui nos interessa sua obra política onde ele identifica seis tipos de governo. Os governos ditos verdadeiros – que governam para o coletivo – são a Monarquia (governo de uma pessoa), a Aristocracia (governo de um grupo representativo de pessoas), e a Politeia (governo de muitas pessoas). Os governos ditos corruptos – que governam em interesse próprio dos seus membros – são a Tirania, governo de uma pessoa que governa para seus interesses; a Oligarquia, governo de um grupo de pessoas com interesses específicos e, por fim, a Democracia, governo que considera exacerbar o conceito de liberdade individual, esvaziando o sentido da importância do bem da coletividade.

É interessante observar que ele considera a Politeia – o governo de muitos em favor do todo – ser superior à Democracia, pois o benefício coletivo é a sua tônica. Os instrumentos para isso, segundo ele, são as “boas leis” porque elas promovem uma “boa ordem”. Ele reconhece, porém, que a Democracia, ainda que falha, é superior à Monarquia e à Aristocracia.

Aristóteles, em virtude de seus estudos de ciências naturais, considerava que a Polis, a cidade, era o espaço natural do homem, um animal político por natureza em seu modo de ver. Somente nesta Polis, vivendo em vizinhança com seus semelhantes, o homem poderia se realizar em plenitude. Isso requeria uma “Constituição”, conjunto de leis voltadas a favorecer a realização de ideais de justiça, bondade e beleza.

Nesta rápida pincelada entre as culturas políticas do Ocidente e do Oriente é interessante notar que há semelhanças e diferenças. No Oriente, terra que politicamente já se havia organizado sob a forma de um grande império, assim com era o Egito, o pensamento político se volta para uma função educacional de formação dos dirigentes orientada para as necessidades da organização burocrática de um estado vasto. É fácil entender que, até para a lealdade e a segurança do Imperador, os conceitos de estabilidade, mérito, carreira, progressão, reconhecimento simbólico tenham adquirido grande importância. Mozi ensinava que com estudo e dedicação virtuosa haveria progressão para o indivíduo em seu serviço à ordem do Estado.

Na Grécia, por outro lado, a ênfase é no desenvolvimento conceitual do pensar político no nível individual, do debate de ideias, da discussão do que é teoricamente melhor. Dizem que a decisão de Felipe I de invadir a Grécia foi tomada durante o período em que ele passou vivendo como refém em Tebas. Ele teria observado que uma cidade que elege o seu general dirigente, seu strategos, a cada dois anos – geralmente em meio de grandes rivalidades e discussões entre filósofos e seus partidários – não estaria habilitada a resistir a um exército profissional, bem organizado e insuflado para viver do saque e da pilhagem. Dito e feito. Após resgatado, foi para Macedonia, herdou o trono do seu pai e conquistou parte da Grécia legando para Alexandre a continuidade da sua tarefa. No jogo do poder, um pensamento objetivo voltado para a sua conquista e para a sua manutenção certamente parece produzir mais resultados que a discussão e a reflexão exaustivas, com pouca ação – o que parece ocorrer neste momento aqui no Brasil. O ideal é combinar estudo, reflexão, valores e ação! 



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