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  Colunistas
Reinaldo Paes Barreto
COLUNISTA

 

 

Rio, 4 de outubro de 2018. Dois casos divertidos

E verdadeiras. Primeiro: eu estava começando a minha vida profissional na Esso Brasileira de Petróleo, aonde fiquei de 1979-74, no Departamento de Relações Públicas e uma das minhas funções era lidar com estrangeiros. Fornecedores, colegas de outras afiliadas das “7 irmãs” pelo mundo, etc.

 

Certa vez, chegou o Giovanni, um milanês da Esso Mobil Italiana e eu fui encarregado da “pajelança” carioca.  Almoço pra cá, visitas aos nossos postos pra lá e o cara — que era bonitão, mas metido que só ele, acho que “se tomava” pelo Marcello Mastroiani (e o pior é que parecia com ele, mesmo).


  (foto de Alain Elkann Interviews)

Mas o verdadeiro, que eu conheci através do Danio Braga, uma noite que entrou sozinho, de jeans, para jantar,  no Enotria ( Rua Constante Ramos, em Copacabana) e eu estava lá (mas mal o cumprimentei, o Danio e maîtres foram fazer as honras da Casa) era na dele, sem presepas.

O Giovanni, não. fazia bocas e bicos, demorava para responder… Um dia estávamos visitando um revendedor no Alto da Boa Vista (a quem ele tratou como Luis XIV trataria um camponês) e, depois, fomos almoçar numa trattoria lá na Muda.

 
 

Detalhe: eu já andava me iniciando no mundo do vinho, dava uns pitacos aqui e acolá — mas ele dizia entender tudo e mais 10. Adiante: sentamos e eu resolvi tirar a prova dos 9. Enquanto ele foi ao banheiro, combinei com o tal revendedor pregar uma peça no “carcamano”. Pedi o pior vinho tinto que encontrei (se não me engano, um São Roque, paulista!!!) mas pedi também pra colocá-lo numa jarra tipo de sangria (claro que não havia decanter), porque se ele visse a “ordinarez” do rótulo sacaria imediatamente.

 
 

Quando ele chegou e sentou-se, comecei o teatro. “Giovanni, você vai provar um vinho brasileiro “eccezionale”; mas eu não vou dizer nem a casta nem a safra, você vai ter que adivinhar, etc…” Nisso, o gerente do restaurante, o revendedor e até o garçom já estava sacando o jogo e acompanhando o lance. Ele mesmo encheu meia taça, olhou, aspirou, rodopiou (o vinho parado!) e serviu-se de um gole (a boca ficou roxa!). Sorveu estalando a língua e passeou o olhar em volta, antes de me fulminar com a sentença: “buono, molto buono,  il meglio che si può fare SENZA UVA!”) Para facilitar: bom, muito bom, o melhor que se pode fazer – sem uva!

Ou seja, bingo! Ganhou ele! Foi aplaudido pelos fdps que até há pouco eram meus cúmplices!

Segundo (e esse me foi contada pelo JA Dias Lopes, mestre das histórias de vinhos, comidas e “causos” gastronômicos). No sofisticado restaurante Zafferano, no centro de Londres (Belgravia), chegou um elegante senhor – como era português, vamos batizá-lo de Dr. Manoel —  para jantar na mesa que reservara para dois.

 
 

Chamou o sommelier e pediu a carta de vinhos, comentando: fiz um bom negócio com um cliente e quero proporcionar-lhe uma jantar inesquecível!  O profissional há de ter pensado (ótimo) e ficou aguardando o comando. Nisso o Dr. Manoel apontou o dedo para um Château Lafite Rosthschild (Premier Cru – 1982). Nesse ínterim, chega o cliente do Dr. Manoel, um irlandês. E o sommelier vai até a adega (muito boa e variada) e vem, então, com a garrafa do precioso néctar e obviamente com a rolha na bandejinha de prata. O Dr. Manoel pega a garrafa, examina o rótulo, o lettering e passa a examinar a rolha.

 
 

Pega a cortiça com a mão direita, entre o polegar e o indicador, aperta um pouco, gira, olha de cima e exclama (obviamente em inglês): “esse vinho é falso”. Silêncio. O sommelier (também inglês) mantém-se impávido com um almirante inglês vendo surgir uma sereia, em pleno oceano.

O convidado do Dr. Manoel,  idem. E como convém em restaurantes de classe, nada de bate-boca. O sommelier simplesmente disse: well, o senhor quer escolher outro? Ao que o nosso personagem respondeu que sim. Dito o que,  voltou a examinar a carta (que tinha ficado sobre a mesa) e escolheu um Château Margaux 1970. Veio a garrafa, do mesmo modo que a primeira. O Dr. Manoel repetiu o mesmo tipo de investigação e proclamou, após prova-lo: “excelente!”

Beberam duas garrafas, jantaram como duques e eles, o anfitrião, pagou algo como 10 mil libras em dinheiro, deixando generoso “tip = gorjeta = to insure promptitude). E foram embora á 1h da manhã.

However! a garrafa do caríssimo Château Lafite 82 ficou lá, aberta e… no dia seguinte bem cedo o gerente do Zafferano ligou para o sommelier-chefe da vinícola, em Pauillac, (M. Eric Kohler?) e contou o ocorrido. O francês não pensou duas vezes: “estou pegando o avião em Bordeaux ao meio-dia e estaremos juntos à tarde”. E por volta das 18h entrou no Zafferano, sentou-se, ouviu de novo e com detalhes a descrição da cena e pediu para ver a garrafa e a rolha. Examinou-a como um cirurgião examina imagens de uma ressonância/angiotomografia antes de iniciar uma cirurgia cardíaca, colocou um gole numa taça, aspirou o vinho, girou a taça, provou uma vez, duas vezes e murmurou claramente: “sim, esse vinho é falso”. É Lafite, mas não é, em hipótese alguma, da safra 82. Longe disso…” E antes de pedir o jantar informou que “Maison” iria enviar mais 2 garrafas do verdadeiro, mas que ele precisava levar aquela garrafa e rolha para o laboratório da empresa.

Feito o quê e dois dias mais tarde, veio a curiosidade: como é que o português descobriu que o vinho era falso sem prová-lo? Só pela rolha!  E passaram a caçar o homem. Enfim o localizaram e o convidaram para ir lá e dar uma entrevista. Chamaram as revistas Wine Spectator, Restaurant, colunistas especializados: todo mundo.

Na tarde marcada o Dr. Manoel entrou, solene, sentou-se, aceitou uma flute de Paul Roger e indagado sobre COMO, COMO tinha descoberto que era falso só pela rolha?

— Sou fabricante de rolhas no Alentejo, meus amigos. E nunca vendi uma rolha para a Maison Lafite Rosthschild. E a rolha daquele vinho era de sobreiros(*) meus — reutilizada!!!

 

Esse fato, rigorosamente verídico, serviu para desbaratar uma máfia do vinho caro, composta por garçons, sommeliers, etc, que vendiam garrafas desse vinhos de milhares de dólares para “alquimistas” que os reengarrafavam,  às vezes com o mesmo vinho mas de safras muito menos valorizadas, ou de vinhos similares, mas da segunda e terceira linha da mesma vinícola, na certeza que é muito raro alguém não profissional (enólogo/sommelier) pedir um vinho-cardeal desses em um restaurante e contestar a safra indicada na garrafa.

Mas ‘as vezes dá zebra!

 

(*) sobreiro é a árvore da qual se corta a cortiça

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