Edição anterior (1215):
sexta-feira, 09 de março de 2018
Ed. 1215:

Capa

Compartilhe:

Voltar:

HOJE

Edição anterior (1215): sexta-feira, 09 de março de 2018

Ed.1215:

Compartilhe:

Voltar:


  Colunistas
Reinaldo Paes Barreto
COLUNISTA

O Vinho e a Vinha (com trocadilho)

A presença da mulher no mundo do vinho é uma bela metáfora da evolução feminina. No início, lhes bastava uma folha de parreira (será?). Depois, no chamado Velho Mundo, no século XIX, entraram em cena as guerreiras do vinho.  Há quase 200 anos, por exemplo, três mulheres extraordinárias se destacaram: a viúva Clicquot, a Madame Pommery e a D. Antónia, brava fundadora da Casa Ferreirinha.


 Eva

A primeira, perdeu o marido aos 27 anos, bem no início do século 19, e assumiu sozinha o comando da vinícola da família. E transformou a produção e o comércio do champagne num império. Tanto que liderou pessoalmente sucessivas comitivas internacionais pela Europa, promovendo o néctar. E chegou a exportar para meio mundo.

 Veuve Clicquot

Curiosidade: em 1826, as primeiras garrafas de Veuve Clicquot chegaram ao Brasil encomendadas em carta escrita de próprio punho pelo imperador D. Pedro I.

Madame Clicquot morreu em 29 de Julho de 1866, aos 89 anos, deixando uma bem estabelecida marca de champanhe.

A segunda é a Mme. Pommery (1819-1890), pioneira do ramo a apostar nos rótulos desenhados por artistas e no design das garrafas. Uma tradição, como veremos na sequência.


 Madame Pommery

E a Casa Pommery foi a primeira a produzir um champagne brut, em 1834. Pommery Brut Royal

 

A terceira, e apenas cronologicamente, foi a emblemática Dona Antónia (1811-1896), que naufragou num rabelo (aquelas barcaças que singram o Rio Douro levando o vinho do Porto) junto com o marido. Só que ele morreu e ela sobreviveu graças às sete saias (repare na foto), que lhe serviram de boia. Mas não se salvou sozinha: salvou o vinho do Porto, o carro chefe da Casa Ferreirinha. (Bem haja)

 Antónia_Ferreira

Mas isso lá do outro lado do Atlântico.  Por aqui, e falando do Brasil, só a partir dos anos 60 as mulheres começaram a “repartir” o mundo do vinho (branco ou tinto) com os homens, sobretudo ao eixo Rio-SP. Mas devagarinho: bebiam pouco, raramente e sem critério ou escolha pessoal de safra (tipo de uva, origem ou função — aperitivo, harmonização, celebração). Bebiam mais por companheirismo (missão SER MULHER) do que pelo prazer de degustar um Chardonnay ou um Merlot. O champagne não entra nessa lista: era para as “Carmens e Dolores” do Café Soçaite. E a grande maioria nem sabia o que era um vinho espumante.

Lá pelo meio dos 80, no entanto, elas começaram a passar de figurantes a “artistas principais” no filme do vinho. Primeiro, como consumidoras quase passivas (alguém escolhia), depois enófilas, depois sommelières. Na minha turma da ABS-Rio, 1992, por exemplo, em cima do saudoso Enotria do Danio Braga, em Copacabana, tinha a Juarezita Santos, minha prima querida, pioneira das harmonizações no Quadrifoglio da Maria Angélica, no Jardim Botânico e, depois, na JJ Seabra, no mesmo bairro. Foi a primeira sommelière que me fez provar um vinho libanês, o Chatêau Musar.


 Juarezita Santos

A seguir ninguém segurou mais: passaram a colunistas especializadas, autoras de blogs, livros, dirigentes de vendas…  como a competente e elegante Yoná Adler, representante da Mistral-Rio — quando não elas mesmas proprietárias de vinícolas.

 

É o caso da Marly Galvão, minha amiga e colega do Conselho da Câmara Portuguesa do Rio, que comercializa os estupendos vinhos do Douro Dona Berta (Chico Carreiro) ou da Lorenza Sebasti, proprietária do Castello di Ama, no coração do Chianti (Siena, Itália), que produz néctares como o branco Al Poggio IGT Chardonnay di Toscana 2015 ou o LÁpparita Toscana IGT 2013,  dois vinhos estupendos.

Mas voltemos à metáfora da abertura deste texto. A Eva nua, com ou sem folha de parreira, explícita ou sugerida, sempre esteve presente no imaginário masculino, majoritariamente donos das mídias, como nessa campanha (mais francesa impossível) da Taittinger.


 lìnstant Taittinger

Sem esquecer a ousadia da Casa Ramos Pinto, que ainda no início do século XX criou anúncios de forte erotismo, sobretudo para a época, como este que sugere duas mulheres prestes a se beijarem. Ou, seria um andrógino na outra ponta?

 Ramos Pinto

Vida que segue.  Musa idealizada ou protagonista ativa, a mulher deixou de ser apenas rótulo ou ilustração e passou a apreciar vinho, conhecer vinho, discutir vinho e comprar vinho. E mais: provavelmente graças a elas, que ou pegavam leve, ou gostam de variar (!),  disseminou-se o hábito do vinho em taça (by the glass), como nessa saborosa montagem da Mona Lisa contemporânea …


 A Monalisa e o bordeaux

Finalmente e se pensarmos “lacanianamente” (significado x significante),  não é surpresa: todos os substantivos do vinho – menos o que o designa — são femininos: a vinha, a uva, a colheita, a rolha, a safra, a garrafa, a taça… por isso, parabéns “meninas” por mais este 8 de março!

E que Baco nunca as (nos) desampare!

 



Edição anterior (1215):
sexta-feira, 09 de março de 2018
Ed. 1215:

Capa

Compartilhe:

Voltar:

HOJE

Edição anterior (1215): sexta-feira, 09 de março de 2018

Ed.1215:

Compartilhe:

Voltar:


Casando com Estilo








Rua Joaquim Moreira, 106
Centro – Petrópolis – RJ
Cep: 25600-000

ABRAJORI – Associação Brasileira dos Jornais do Interior