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15 anos do Massacre de Realengo

Especialista explica o que Petrópolis pode aprender com uma das maiores tragédias já registradas em ambiente escolar

Foto: Freepik
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Jamis Gomes Jr. - especial para o Diário

No dia 7 de abril de 2011, o Brasil foi marcado por uma das maiores tragédias já registradas em ambiente escolar. Um ex-aluno invadiu a Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, na zona norte do Rio de Janeiro, e matou 12 estudantes, sendo 10 meninas e 2 meninos, além de deixar outros feridos antes de tirar a própria vida. Quinze anos depois, o episódio segue levantando discussões profundas sobre as causas da violência extrema entre jovens.

À época, o caso ficou amplamente associado ao bullying, já que o autor do crime relatou, em vídeos e cartas, ter sofrido humilhações durante o período escolar. A repercussão contribuiu, inclusive, para a criação do Dia Nacional de Combate ao Bullying, celebrado em 7 de abril. No entanto, especialistas apontam que essa explicação, isoladamente, não dá conta da complexidade do caso.

Pesquisas e análises desenvolvidas ao longo dos anos indicam que outros fatores também tiveram papel importante, como a misoginia, caracterizada pelo ódio ou desprezo às mulheres. A diferença no número de vítimas e relatos de testemunhas reforçam essa hipótese, que passou a ser mais debatida recentemente, especialmente diante do crescimento de crimes semelhantes.

Levantamentos sobre violência em escolas brasileiras mostram um aumento expressivo de ataques nos últimos anos, todos cometidos por homens. Esses episódios costumam estar ligados a sentimentos de frustração, isolamento e a ideologias extremistas, muitas vezes reforçadas em ambientes virtuais.

Para a psicóloga clínica Regina Nascimento Resende, a compreensão desses casos exige olhar atento para múltiplos aspectos emocionais e comportamentais.

“As questões mentais que podem estar por trás da violência nas escolas podem estar ligadas a uma personalidade antissocial, em que o indivíduo não teme consequências e não tem empatia pelo outro. Existem também casos de transtornos como o opositor desafiador e, em situações mais graves, a esquizofrenia. Mas nem sempre é um transtorno específico. Um jovem pode desenvolver um ódio muito grande a partir de experiências negativas e chegar a esse ponto extremo, inclusive com pensamentos de autoextermínio”, explica.

Segundo a especialista, situações como bullying, isolamento social e frustrações constantes podem impactar profundamente a formação emocional de crianças e adolescentes.

“O bullying, o isolamento e a frustração vão destruindo a autoestima do jovem. Ele se sente invalidado, excluído, e começa a desenvolver uma visão negativa de si e dos outros. Em alguns casos, isso pode gerar revolta e levar a atitudes extremas, especialmente quando esse jovem não encontra apoio ou acolhimento”, afirma.

Outro ponto de atenção destacado por especialistas é o papel da internet na amplificação desses comportamentos. Comunidades online podem reforçar discursos de ódio, intolerância e até incentivar ações violentas.

“A internet agravou um cenário que já era preocupante. Existem grupos que começam com discursos de incentivo, mas evoluem para conteúdos misóginos e de ódio. Isso influencia diretamente jovens em formação, que passam a encontrar nesses espaços um sentimento de pertencimento, ainda que baseado em ideias perigosas”, alerta Regina.

Diante desse cenário, a prevenção passa a ser uma responsabilidade compartilhada entre famílias, escolas e toda a sociedade. Identificar sinais de alerta é um passo fundamental para evitar que situações cheguem a extremos.

“O isolamento é um dos principais sinais. Quando o jovem se afasta, fica muito tempo sozinho, apresenta queda no rendimento escolar ou descuido com a aparência, é preciso atenção. Monitorar o que ele consome na internet e manter o diálogo são atitudes essenciais. Isso não é controle excessivo, é cuidado. Estamos falando da saúde e da segurança desses jovens”, orienta.

Quinze anos após o Massacre de Realengo, o episódio segue como um alerta sobre a necessidade de discutir saúde mental, convivência social e os mecanismos da cultura digital. Em cidades como Petrópolis, onde o ambiente escolar também faz parte da formação social dos jovens, o debate ganha ainda mais relevância, reforçando a importância de ações preventivas e do acompanhamento próximo de crianças e adolescentes.

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