Maio Laranja reforça impactos do abuso na vida adulta: traumas que persistem
Jaqueline Gomes
O abuso e exploração sexual na infância geram traumas para a vida toda. O próximo dia 18 de maio é marcado pelo Maio Laranja, que chama atenção para os efeitos duradouros da violência, que frequentemente ultrapassa a infância e se manifesta na vida adulta em forma de traumas psicológicos, dificuldades de relacionamento, baixa autoestima e transtornos emocionais. Especialistas apontam que essas experiências podem influenciar padrões de comportamento, percepção de segurança e saúde mental ao longo de toda a vida, muitas vezes de maneira silenciosa.
De acordo com Claudia Melo, psicóloga especialista em crianças e adolescentes, o abuso e a exploração sexual na infância deixam marcas profundas porque atingem justamente uma fase em que a criança ainda está formando sua percepção de si mesma, do outro e do mundo. “Como psicóloga e perita em crimes de pedofilia, observo que muitas vítimas crescem carregando sentimentos de medo, culpa, vergonha e desvalorização pessoal, mesmo quando o abuso aconteceu há muitos anos. A criança precisa de vínculos seguros para desenvolver confiança, pertencimento e autoestima. Quando essa violência acontece, principalmente dentro do ambiente familiar ou por alguém de confiança, ocorre uma ruptura emocional muito séria. A criança passa a entender o mundo como um lugar inseguro”, explica a psicóloga.
Ainda segundo a especialista, o trauma também pode gerar crenças negativas que acompanham a pessoa na vida adulta, como “eu não tenho valor”, “não posso confiar em ninguém”, “a culpa foi minha” ou “não estou segura”. Essas crenças influenciam relacionamentos afetivos, escolhas, comportamento emocional e até a forma como a pessoa se posiciona diante da vida.
Claudia Melo explica que, muitas vezes, o trauma aparece de forma silenciosa. “ansiedade, depressão, dificuldade de estabelecer limites, dependência emocional, hipervigilância, crises de pânico, alterações no sono, uso abusivo de substâncias e até dificuldade em reconhecer situações de violência podem ser sintomas”, avalia.
No entanto, nem toda vítima consegue falar sobre o que viveu. Algumas passam anos sem conseguir nomear a violência sofrida. “Por isso, é importante observar sinais emocionais e comportamentais que podem indicar consequências tardias do trauma”, orienta a psicóloga.
Entre os sinais mais frequentes estão:
· dificuldade de confiar nas pessoas;
· medo excessivo de abandono;
· baixa autoestima;
· sentimento constante de culpa ou vergonha;
· ansiedade intensa;
· depressão;
· dificuldade em manter relacionamentos saudáveis;
· isolamento emocional;
· comportamento autodestrutivo;
· transtornos alimentares;
· automutilação;
· dificuldade com a própria sexualidade;
· crises de pânico e sintomas físicos sem causa aparente.
“Também é comum encontrarmos adultos extremamente funcionais socialmente, mas emocionalmente fragilizados. O trauma nem sempre aparece de forma explícita. Às vezes ele se manifesta no silêncio, na dificuldade de se sentir amado, no excesso de controle ou na incapacidade de se sentir seguro. Como perita, vejo o quanto o acolhimento adequado faz diferença. Quando a vítima é desacreditada ou silenciada, o sofrimento tende a se aprofundar ainda mais”, diz Cláudia.
A psicóloga dá algumas orientações para superar o trauma:
· O primeiro passo é romper o silêncio. O enfrentamento da violência sexual infantil precisa ser uma responsabilidade coletiva. Família, escola, serviços de saúde, assistência social, justiça e sociedade precisam atuar de forma integrada.
· É fundamental investir em educação emocional e prevenção desde a infância, ensinando crianças sobre proteção do corpo, limites, respeito e canais seguros de ajuda. Criança que aprende que pode falar tem mais chance de pedir socorro.
· Também precisamos fortalecer os espaços de escuta qualificada. Muitas vítimas não precisam apenas de perguntas. Precisam de acolhimento, validação e segurança emocional. Uma escuta humanizada pode evitar anos de sofrimento.
· Outro ponto importante é capacitar profissionais para identificar sinais precoces da violência. Muitas vezes a criança comunica o trauma através do comportamento, do rendimento escolar, do corpo ou do silêncio.
· Além disso, ampliar o acesso à saúde mental é essencial. O tratamento psicológico ajuda a ressignificar a dor, reconstruir a autoestima e interromper ciclos de violência. O trauma não precisa definir a história de uma pessoa. Com apoio adequado, acolhimento e tratamento, é possível reconstruir vínculos, recuperar a confiança e desenvolver uma vida emocionalmente mais saudável.
“O Maio Laranja não é apenas uma campanha de conscientização. É um chamado para proteção, escuta e responsabilidade social”, conclui.
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