Edição anterior (4303):
sábado, 20 de junho de 2026


Capa 4303

A Academia da imaginação

- Mario Donato D’Angelo

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação


Outro dia me ocorreu uma comparação curiosa. Há quarenta ou cinquenta anos, ninguém falava em academia de ginástica. O sujeito caminhava para o trabalho, carregava compras, subia escadas, lavava o carro no fim de semana e passava a vida inteira sem imaginar que um dia pagaria para andar numa esteira sem sair do lugar. O corpo fazia exercício porque a própria vida exigia.

Depois vieram as máquinas, os elevadores se multiplicaram, os automóveis ocuparam as ruas e o movimento desapareceu aos poucos. Foi então que descobrimos uma verdade simples: o organismo precisa ser exercitado. O coração precisa de esforço, os músculos precisam de carga, as articulações precisam de movimento. Aquilo que antes acontecia naturalmente passou a exigir intenção e disciplina.

Tenho a impressão de que algo semelhante está acontecendo com a mente.

Vivemos uma época que confunde informação com pensamento. Há uma sensação de abundância intelectual que muitas vezes esconde uma pobreza de elaboração. Nunca recebemos tantas informações e nunca tivemos tão pouco tempo para conversar com elas.

Durante séculos o ser humano foi obrigado a imaginar. Não havia alternativa. Quem lia um romance construía sozinho os rostos, as paisagens, as vozes e os cenários. Quem ouvia uma história completava mentalmente aquilo que não estava sendo dito. Quem aguardava um ônibus, um trem ou simplesmente o cair da tarde passava longos minutos entregue aos próprios pensamentos. A imaginação não era uma atividade especial. Era uma função cotidiana.

Hoje quase não existem intervalos. A qualquer momento tiramos do bolso um aparelho capaz de nos fornecer notícias, vídeos, músicas, opiniões, fotografias, debates, receitas, escândalos, piadas e tragédias. O mundo inteiro se oferece à nossa atenção sem pedir licença. Estamos permanentemente ocupados consumindo alguma coisa criada por outras pessoas.

Nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento e, ao mesmo tempo, tão poucas oportunidades de permanecer a sós com uma ideia.

Antigamente havia uma ida ao cinema. Hoje carregamos um cinema no bolso. Antigamente a informação chegava em doses. Hoje ela nos encontra em cada esquina digital. A impressão é de enriquecimento intelectual, mas informação não é pensamento.

Pensar exige permanência. Exige demora. Exige que uma ideia encontre outra, que uma lembrança converse com uma experiência e que uma pergunta permaneça aberta durante algum tempo. A imaginação trabalha justamente nesse espaço silencioso. Ela não surge quando tudo já está pronto. Surge quando alguma coisa está faltando.

Arthur Schopenhauer escreveu que “ler demais sem refletir é como comer sem digerir”. A frase foi escrita muito antes da internet, mas parece destinada ao nosso tempo. Consumimos conteúdos numa velocidade que o cérebro não consegue acompanhar. As informações entram, permanecem por instantes e logo são substituídas pelas seguintes. É como receber hóspedes que entram pela porta da frente e saem pela dos fundos antes mesmo de sabermos seus nomes. Poucas encontram o caminho necessário para se transformar em reflexão, memória ou conhecimento.

A consequência aparece em algo que muita gente percebe sem compreender direito: a dificuldade crescente de concentração. Ler um livro tornou-se uma tarefa árdua para pessoas perfeitamente inteligentes. Não por falta de capacidade, mas por falta de treino. A atenção foi fragmentada em centenas de pequenas interrupções diárias. O cérebro acostumou-se à novidade constante. Um parágrafo já parece longo. Dez páginas parecem um esforço excessivo. Cinquenta páginas adquirem a aparência de uma maratona.

E, no entanto, a leitura continua sendo uma das formas mais completas de exercício mental. Quando lemos, somos obrigados a sustentar uma ideia por mais tempo, exercitamos a memória, construímos imagens, organizamos raciocínios, relacionamos acontecimentos, acompanhamos personagens e antecipamos consequências. Nenhuma tela faz esse trabalho por nós.

A leitura não entrega tudo pronto. Ela exige participação. E justamente por isso produz algo cada vez mais raro em nossos dias: profundidade.

Suspeito que, em algum momento, a leitura passará a ser vista da mesma forma que hoje enxergamos a atividade física. Não como um luxo reservado aos amantes dos livros, mas como uma necessidade básica de manutenção da mente. Assim como reservamos uma hora para caminhar, pedalar ou fortalecer os músculos, precisaremos reservar um tempo para fortalecer a atenção.

Não para acumular informação. Informação já existe em excesso. Lemos para preservar uma capacidade humana muito mais antiga e muito mais valiosa: a de pensar por conta própria.

O problema não é o celular. O problema é que a imaginação deixou de ser exercitada da mesma forma que o corpo deixou de ser quando a vida se tornou confortável demais.

Edição anterior (4303):
sábado, 20 de junho de 2026


Capa 4303

Veja também:




• Home
• Expediente
• Contato
 (24) 99993-1390
redacao@diariodepetropolis.com.br
Rua Joaquim Moreira, 106
Centro - Petrópolis
Cep: 25600-000

 Telefones:
(24) 98864-0574 - Administração
(24) 98865-1296 - Comercial
(24) 98864-0573 - Financeiro
(24) 99993-1390 - Redação
(24) 2235-7165 - Geral