- Mario Donato D’Angelo
Quando eu era menino, o Diário de Petrópolis chegava todas as manhãs ao Hotel Dom Pedro, trazido pelo entregador do jornal. Eram vários exemplares. Um ficava na sala de visitas, outro perto da recepção, alguns eram distribuídos pelos ambientes onde os hóspedes costumavam conversar depois do café. O jornal passava de mão em mão, demorava-se no colo de alguém, era dobrado para facilitar a leitura e, às vezes, provocava um comentário dirigido à sala inteira.
Tudo o que estava impresso ali acontecia perto de nós. Antes de saber o que ocorria no mundo, queríamos saber o que havia acontecido em Petrópolis.
Petrópolis começou a se ler antes mesmo de ser oficialmente cidade. Em 3 de março de 1857, surgiu O Mercantil, primeiro jornal petropolitano, dirigido por Bartolomeu Pereira Sudré e impresso numa tipografia da Rua Teresa. Somente em 29 de setembro daquele ano Petrópolis seria elevada à categoria de cidade. Há algo de muito bonito nessa ordem dos acontecimentos: antes que a lei lhe desse o título, o jornal já lhe dava voz.
A vocação continuou. Em 1902, circulavam aqui, entre outros periódicos, o Cidade de Petrópolis e O Povo, cujos exemplares estão hoje preservados pela Biblioteca Nacional. Os nomes parecem completar uma frase. De um lado, a cidade. Do outro, o povo. Entre os dois, o jornal, fazendo com que um pudesse reconhecer o outro.
Em 1954 nasceu o Diário de Petrópolis, por iniciativa de Antônio Carlos Noronha Portella. Sua origem teve alguma coisa do acaso de que são feitas certas histórias duradouras. Portella encontrou o jornalista João Rodrigues de Oliveira no Palácio Tiradentes, no Rio de Janeiro, e o acompanhou até a Gráfica Pimenta Mello, que estava sendo desativada. Ali foram adquiridos linotipos e uma impressora. Mais tarde, durante um almoço com amigos ligados à política, escolheu-se o nome do novo jornal. Assim começou o Diário, entre máquinas usadas, conversas e o desejo de oferecer a Petrópolis mais uma voz.
Mas foi em agosto de 1972 que essa história ganhou outra dimensão. José Carneiro Dias e seu filho, Paulo Antônio, tornaram-se os principais acionistas. O jornal não mudou apenas de proprietários. Mudou de estatura.
José Carneiro Dias, o Carneirão, como era conhecido por todos, tinha a energia dos homens que não se limitam a ocupar um lugar na cidade: ajudam a construí-lo. Empresário, jornalista e homem público, compreendeu que um jornal não é apenas uma empresa nem uma coleção diária de notícias. É uma responsabilidade diante da comunidade. Ao assumir o Diário, deu-lhe solidez e abriu caminho para que se tornasse uma instituição respeitada dentro e fora de Petrópolis.
Paulo Antônio tinha apenas 27 anos quando assumiu a presidência do jornal. O Brasil vivia sob a ditadura militar, e comprar um periódico naquele momento, para fazer dele uma voz de oposição e de defesa da democracia, não era um gesto neutro. Era uma escolha política e, sobretudo, uma escolha de coragem.
José Carneiro e Paulo Antônio não escolheram o silêncio confortável. Profissionalizaram a redação, reuniram jornalistas de grande qualidade e fizeram da informação dos fatos o compromisso central do jornal. Paulo Antônio trouxe do Rio de Janeiro profissionais como Douglas Prado, Mário Valle e Diógenes Dagoberto da Costa Filho. O Diário passou a defender abertamente a redemocratização, a liberdade de imprensa, a convocação de uma Assembleia Constituinte e a volta das eleições diretas.
Essa posição teve consequências. A direção e os profissionais da redação foram chamados diversas vezes a prestar depoimentos em inquéritos militares no 32º Batalhão de Infantaria. As reportagens políticas do Diário começaram a ser citadas por veículos de circulação nacional. Um jornal de uma cidade serrana mostrava que a força da imprensa não depende do tamanho do lugar onde é publicada, mas da coragem com que cumpre sua missão.
Esse foi o grande salto dado pelos Carneiro Dias. O Diário de Petrópolis tornou-se uma voz pública, atenta aos acontecimentos da cidade e consciente de que Petrópolis também fazia parte da história do país. Acompanhou mudanças políticas, registrou transformações urbanas, abriu espaço para a cultura, acolheu opiniões diferentes e deu visibilidade às pessoas que ajudavam a construir a cidade.
Minha ligação com José Carneiro também passa pela Casa Xavier. O prédio onde funcionava a tradicional loja pertencia à minha prima Antonieta, casada com Mário Mesquita, grande educador e homem profundamente ligado a Petrópolis. Como a Casa Xavier estava ligada às famílias Carneiro e Fiani, nossas histórias acabaram se encontrando.
Guardo de Carneirão a lembrança de uma época em que os homens públicos ainda se confundiam com a paisagem humana da cidade. Eram encontrados na rua, conhecidos pelo nome e reconhecidos por aquilo que haviam construído. José Carneiro pertencia a Petrópolis dessa maneira. Não apenas porque nela viveu e trabalhou, mas porque deixou uma instituição capaz de atravessar gerações.
Paulo Antônio recebeu essa herança e não permitiu que ela se transformasse numa peça de museu. Há mais de meio século à frente do Diário, atravessou a ditadura, a redemocratização, crises econômicas, mudanças de governo, transformações tecnológicas e uma profunda alteração nos hábitos de leitura. Preservou o espírito recebido do pai sem deixar que o jornal permanecesse parado no tempo.
Manteve o Diário ligado a Petrópolis, independente e atento à vida da cidade. Conduziu a passagem para o mundo digital sem abandonar a edição impressa. Poderia ter se rendido inteiramente à velocidade das telas, mas preservou o papel, o objeto que se dobra, se recorta, se guarda e passa de uma pessoa para outra. Tenho verdadeiro orgulho de ser seu amigo e de acompanhar a dedicação com que conduz o jornal.
Um jornal local não serve apenas para anunciar o que aconteceu. Ele ajuda uma comunidade a compreender o que está acontecendo consigo mesma. Cabe-lhe acompanhar os atos do poder público, fazer perguntas e cobrar explicações. Mas existe outra função, menos ruidosa e igualmente importante: reconhecer aqueles que trabalham, criam, ensinam, cuidam e deixam alguma marca no lugar onde vivem.
Lembro-me, nesse aspecto, da tradicional coluna social criada por Célio Thomaz e continuada por seu filho, o Celinho. Uma fotografia, uma nota ou algumas linhas impressas podem parecer pouco. Para quem as recebe, não são. O recorte é guardado dentro de um livro, mostrado aos filhos e, muitos anos depois, encontrado por um neto que reconhece ali uma parte de sua própria história. O jornal registra pessoas que dificilmente apareceriam na imprensa nacional, mas sem as quais a cidade não seria a mesma.
Por falar em generosidade, guardo uma lembrança que jamais esquecerei. Durante muitos anos, o Diário de Petrópolis foi entregue na casa de meus pais, sem que lhes cobrassem pelos exemplares. A entrega era uma forma silenciosa de consideração, um reconhecimento por sua história e pelo lugar que ocupavam na vida da cidade.
Isso diz muito sobre um jornal e sobre os homens que o dirigem. As instituições revelam o que são não apenas nas manchetes que publicam ou nas posições que defendem, mas também na maneira como tratam as pessoas. Ao chegar diariamente à casa de meus pais, o Diário lhes dizia, sem precisar escrever, que Petrópolis ainda se lembrava deles.
Cumprimentar José Carneiro e Paulo Antônio nesta celebração é também cumprimentar os jornalistas, fotógrafos, revisores, colunistas, impressores, funcionários e entregadores que fizeram e continuam fazendo o jornal chegar aos leitores. Há muitas mãos, quase sempre anônimas, trabalhando todos os dias para que uma cidade possa se encontrar impressa.
Ainda consigo ver os exemplares do Diário de Petrópolis espalhados pelas salas do Hotel Dom Pedro. Vejo Manuel Bandeira acomodando os óculos para ler uma notícia. Mais adiante, Carlos Machado, o grande empresário da noite, dobra cuidadosamente uma página. Alguém chama o vizinho para comentar uma nota. Outro hóspede espera sua vez de pegar o jornal.
Hoje compreendo que liam a própria cidade. Se isso continuou sendo possível por tantas décadas, foi porque homens como José Carneiro compreenderam essa missão e porque Paulo Antônio soube honrá-la, preservá-la e conduzi-la até o nosso tempo.
É isso que um verdadeiro jornal local faz: imprime as notícias de um dia e, sem perceber, preserva a memória de uma cidade.
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