Edição anterior (4198):
sábado, 07 de março de 2026


Capa 4198

A convivência com o medo do invisível sem perder a alegria do visível

- Mario Donato D’Angelo

Arquivo Pessoal
Arquivo Pessoal


Vivemos numa época curiosa: o que mais nos aflige não é o que vemos, mas o que não conseguimos ver. O medo do invisível tem mil rostos, nenhum deles fotografável. Ele pode morar numa mensagem não respondida, num exame que ainda não chegou, num projeto que depende de aprovações ou no coração de alguém que jura estar tudo bem, mas não convence nem o próprio espelho. Ninguém escapa: amor, trabalho, política, espiritualidade, tudo o que realmente importa já nasce invisível.

O visível, ao contrário, publica boletins. Está ali no extrato bancário, no barulho do trânsito, na rigidez das leis e nas promoções de supermercado. O visível é quantificável, guiado por tabelas, carimbos e gráficos. Se o invisível tem filosofia, o visível tem nota fiscal. E, por algum mistério do destino, é exatamente nessa mistura entre o palpável e o imponderável que se revela o funcionamento secreto da vida, aquilo que só compreendemos quando estamos atentos.

O grande equívoco moderno talvez seja imaginar que o invisível é exclusivamente o território da ameaça. Também é, mas não só. O invisível abriga o medo, mas também o amor, o sonho, a transformação e a esperança. O mal atua em silêncio, mas quase sempre o bem também. Ninguém viu a semente nascer; apenas a árvore. Ninguém viu o instante exato em que nasce a coragem; apenas o gesto que a torna visível.

O problema é que o invisível exige trabalho. Muito trabalho. Requer confiança, preparo e uma espécie de musculatura emocional: a capacidade de conviver com o que ainda não tem rosto. É por isso que tantos preferem a segurança do visível, ainda que, às vezes, ele seja medíocre. Existe uma paz curiosa no concreto: o número já definido, a rotina que se repete, o relatório pronto, o amor acomodado em convivência pacífica. É visível, portanto, tangível. Mas será suficiente?

Talvez por isso os filósofos antigos insistissem que uma vida boa se apoia em fundamentos que não aparecem: virtudes, intenções, afetos, ideias. Tudo isso flutua até encontrar um gesto, uma palavra, um olhar. Só então se torna matéria. O mundo, no entanto, tenta inverter a ordem: primeiro a imagem, depois o sentido. Primeiro a exposição, depois o pensamento. Assim, o invisível vai ficando cada vez mais frágil, como um músculo que se esqueceu de ser usado.

Há quem diga que a ansiedade é apenas a impaciência diante do invisível. Queremos ver antes de sentir, saber antes de viver, concluir antes de começar. O humano pós-moderno deseja respostas rápidas a perguntas profundas; deseja mapas nítidos para territórios que ainda não existem. O invisível virou inimigo, como se fosse perigoso por natureza. Esquece-se de que também existe um luminoso invisível: a intuição, a arte, o afeto sincero, o instante anterior ao abraço.

O visível, por sua vez, oferece algo indispensável: um chão provisório. Sem ele, não caminhamos. Mas sem o invisível, não sonhamos. A vida se parece com essa equação: medir com um olho e imaginar com o outro. Quem usa os dois ao mesmo tempo inaugura uma forma secreta de sabedoria, aquela que toca o real, mas é impulsionada por algo que ainda não se vê.

Talvez a verdadeira coragem esteja em aceitar essa convivência. O medo do invisível continuará presente, porque é natural temer o que não conhecemos. Mas ele não precisa ser nosso inimigo. Pode ser apenas um sinal de que o caminho não terminou. O que paralisa não é o medo: é a ausência de alegria no terreno visível. Por isso, é tão importante reparar nos detalhes que nos sustentam: uma conversa trivial,  o vento batendo na cortina, a gargalhada repentina de alguém que já tinha esquecido de sorrir.

O visível é a lembrança de que estamos aqui. O invisível é o convite para descobrir por quê. Um sem o outro torna-se desespero ou rotina. Juntos, produzem algo raro: entendimento.

A esperança, afinal, é também uma habilidade de conviver com o invisível sem permitir que ele apague a luz. Não é otimismo ingênuo, é discernimento. É saber que a noite existe, mas que a lâmpada também.

E, como lembrou Espinosa, com a simplicidade dos que enxergam longe:

“Não rir, não lamentar, mas compreender.”



Curso de prevenção de quedas.

Proteja quem você ama !

drmariodonato.com

Edição anterior (4198):
sábado, 07 de março de 2026


Capa 4198

Veja também:




• Home
• Expediente
• Contato
 (24) 99993-1390
redacao@diariodepetropolis.com.br
Rua Joaquim Moreira, 106
Centro - Petrópolis
Cep: 25600-000

 Telefones:
(24) 98864-0574 - Administração
(24) 98865-1296 - Comercial
(24) 98864-0573 - Financeiro
(24) 99993-1390 - Redação
(24) 2235-7165 - Geral