- Mario Donato D’Angelo
Naquela noite, havia uma palestra marcada para as sete horas. Sete em ponto. Assim estava escrito no convite, com uma convicção quase científica.
Logo veio, porém, a orientação prática dos organizadores, dita com a naturalidade de quem ensina a ferver água: que se começasse às sete e quinze, ou sete e vinte, para dar tempo de os atrasados chegarem.
A explicação lhe pareceu profundamente filosófica.
Ali se revelava um traço curioso da vida nacional: no Brasil, o horário funciona como previsão do tempo. Indica uma tendência geral, mas ninguém se compromete com a realidade.
Sete horas pode significar algo entre sete e vinte, sete e meia, oito menos dez, dependendo da densidade atmosférica do trânsito, da novela, da busca pelas chaves ou de uma súbita reflexão existencial diante do espelho.
O mais notável é que tudo isso ocorre com uma impressionante naturalidade.
Em outros países, quando um espetáculo começa às sete, às sete e um já começou. O atrasado entra na ponta dos pés, pede desculpas com os olhos e ocupa um lugar discreto, com a humildade de quem sabe que perdeu alguma coisa da vida.
Aqui ocorre o inverso.
O atrasado entra com majestade.
Abre a porta com energia, cumprimenta a plateia inteira, pergunta se ainda está no começo e se acomoda com a serenidade de quem acaba de fazer uma entrada triunfal na história nacional.
E ninguém se surpreende.
A razão é simples: o atraso, no Brasil, não é um defeito. É uma instituição.
Possui raízes profundas na cultura. É quase um patrimônio imaterial. Há quem se atrase com tal talento que o gesto se transforma em estilo de vida.
Existem pessoas capazes de chegar atrasadas até ao próprio aniversário de casamento.
O drama verdadeiro, porém, é o dos pontuais.
O pontual é um ser trágico.
Chega às seis e cinquenta e cinco, porque ainda acredita em coisas antigas como relógios, compromissos e civilização. Senta-se na primeira fila. Olha o relógio. Confere o celular. Volta a olhar o relógio, como quem consulta um oráculo que já perdeu a fé na humanidade.
Passam-se dez minutos.
Passam-se quinze.
E o pontual começa a perceber que foi enganado pela própria virtude.
Enquanto isso, os atrasados surgem aos poucos, como personagens de um romance russo. Um entra pedindo desculpa. Outro chega rindo. Um terceiro declara que
o trânsito estava impossível, frase que, no Brasil, funciona como salvo-conduto universal.
A plateia vai se formando lentamente, como uma panela que demora a ferver.
Então alguém diz, com aquele tom conciliador de quem resolve um conflito internacional, que se espere apenas mais cinco minutos.
Esses cinco minutos são a unidade básica da eternidade brasileira.
São sempre cinco.
Cinco que se transformam em dez.
Dez que se alongam em quinze.
E quinze que produzem a revelação final.
Os pontuais compreendem, enfim, que sua pontualidade foi um erro estratégico.
Na próxima ocasião, chegarão atrasados também.
É assim que o sistema se perpetua, não pela força, mas pela pedagogia da frustração.
No fundo, há uma lógica curiosamente admirável nisso tudo.
No Brasil, pratica-se uma espécie de democracia do atraso.
Os atrasados são contemplados.
Os pontuais são reeducados.
E o horário, pobre horário, permanece ali no convite, escrito com uma inocência comovente.
Sete horas.
Um número bonito.
Quase literário.
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