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sábado, 10 de janeiro de 2026


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A excelência adormecida

- Mario Donato D’Angelo

Arquivo Pessoal
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Em Petrópolis conta-se uma história que sempre volta, dessas que atravessam o tempo e insistem em reaparecer. O nome do político que a protagonizou eu já não saberia dizer. Mesmo quando garoto, nunca soube ao certo. O episódio, porém, foi repetido tantas vezes, em tantas mesas e esquinas, que acabou sobrevivendo ao próprio homem. O fato permaneceu. O nome, não.

Dizia respeito a um vereador muito estimado na cidade. Era querido sobretudo entre os mais pobres. Não porque tivesse projetos ambiciosos ou ideias de longo alcance, mas porque resolvia problemas pequenos com uma eficiência quase comovente. Um buraco aqui, um favor ali, e assim se construía uma carreira sólida. Ideias não rendem votos. Soluções rendem.

Não era burro. Isso é importante dizer. Era inteligente no sentido prático, aquele tipo de inteligência que percebe cedo que transformar a sociedade exige esforço, enquanto administrar carências individuais produz resultados imediatos. Sua política era de manutenção. Nada melhorava muito, mas nada piorava demais. E isso tranquiliza.

Certo dia anunciou-se que iria à capital, do outro lado da baía, encontrar-se com o governador. O bairro, seu reduto eleitoral, entrou em expectativa. Não se aguardava um plano, apenas algum retorno concreto. O dia passou sustentado por boatos e esperanças modestas, dessas que se alimentam sozinhas.

No fim da tarde, o vereador voltou. Foi recebido por seus eleitores na rua principal, que pediram um discurso. Qualquer palavra serviria. Ele desceu do carro visivelmente cansado e avisou que não falaria. Estava exausto. Limitou-se a dizer:

“Só quero me entregar aos braços de Orfeu.”

A frase saiu segura demais para ser corrigida em público. Ainda assim, um assessor aproximou-se, com zelo discreto, e advertiu:

“Faltou o M, vereador.”

O político acolheu a observação com serenidade e tratou logo de sanar o equívoco:

“O Orfeu de que falo é o Orfeão.”

Foi quanto bastou. A multidão assentiu, satisfeita. O cansaço era verdadeiro, a correção parecia plausível e o dia já tinha sido longo demais para exigir precisão. O homem queria dormir. Dormiu. E foi reeleito.

O episódio produziu efeitos colaterais. O político percebeu que a cultura poderia ser útil, ainda que como ornamento. Decidiu se ilustrar. Passou a usar palavras mais rebuscadas, quase sempre fora de lugar, como quem herda móveis solenes demais para a sala decorada em outra escala de sonhos. As frases ganharam peso, não sentido. Mas eram ditas com firmeza, e firmeza costuma substituir conteúdo.

Até que um dia, na Câmara, um colega iniciou uma discussão agressiva, dessas em que o volume tenta compensar a ausência de argumento. O nosso vereador tentou impor ordem, apelou à liturgia do cargo, mas foi ignorado. Restava-lhe a retórica recém-adquirida. Levantou-se e disse:

“Assim não. Assim não! Nesses termos, vossa excelência ofende a minha excelência.”

A frase foi dita com veemência e convicção suficientes para atingir não o debate, mas algo bem mais precioso. Tocava diretamente no ego do vereador, esse território sensível onde o mandato costuma ser tratado como extensão da pessoa.

Instalou-se no plenário um silêncio pesado. Não o da inteligência, mas aquele que anuncia o nascimento de uma epifania. Cada um ali percebeu que estava diante de uma inovação política relevante. Se antes era preciso que alguém reconhecesse o cargo, agora bastava proclamá-lo. Resolvia-se assim, com notável economia de pensamento, a proteção do mandato, da gravata e da livre circulação de palavras.

Depois disso, a sessão seguiu. Seguiu como costumam seguir as sessões, por inércia, por hábito, por ausência de assunto melhor. O essencial já havia sido dito. O restante serviu apenas para ocupar o tempo até que todos pudessem ir embora com a sensação tranquila de dever cumprido.

Como eu era menino, apenas guardei a cena. Ela ficou comigo como ficam certos ruídos da infância, sons que não se explicam, mas insistem em permanecer, à espera de um vocabulário que ainda não existe.

Foi mais tarde, já com alguma paciência para observar o mundo, que entendi que quem governa a vida pública, muitas vezes, é Morfeu, que induz à sonolência cívica, sob cuja influência palavras se confundem, ideias se acomodam e até deuses trocam de nome sem causar incômodo, desde que tudo seja dito com convicção suficiente. Nesse clima, o erro não pesa, a ignorância não constrange e a excelência, bem instalada, proclama-se sozinha, em voz alta, sem risco algum de ser despertada pela razão.

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