- Pe. Anderson Alves
Em De Trinitate, Livro IX, Capítulo V, Santo Agostinho explora a relação intrínseca entre as três faculdades da alma humana: mente (mens), conhecimento (notitia) e amor (amor). Ele utiliza a metáfora de três círculos que se sobrepõem para ilustrar a circum-incessão dessas faculdades, pois cada uma existe em si mesma e, ao mesmo tempo, está totalmente presente nas outras. Essa concepção reflete a imagem da Trindade divina na alma humana.
Agostinho afirma que a mente se conhece toda e se ama toda; a inteligência conhece a mente e o seu amor; o amor ama a mente e o seu conhecimento. Essas três faculdades são relativas entre si e possuem a mesma extensão, ou seja, cada uma está completamente inserida nas outras. Não há mistura ou confusão entre elas; cada uma dessas realidades está em si e, contudo, elas estão mutuamente umas nas outras de modo total.
A mente (mens) está em si mesma e se conhece e se ama. Ela se relaciona com o seu conhecimento (notitia) e o seu amor. Cada uma dessas três faculdades está em si mesma e, ao mesmo tempo, são uma substância ou essência, ainda que ditas relativamente umas às outras. Agostinho uniu a metafísica e a psicologia ao discutir substância, natureza e relação, aplicando a ideia de circum-incessão trinitária também às faculdades da alma humana.
Na concepção de Agostinho, cada pessoa da Trindade está totalmente presente na outra. O Pai não é maior do que o Filho e do que o Espírito Santo, e o Espírito Santo não é maior do que o Filho e do que o Pai. O Pai e o Filho juntos não são maiores do que o Espírito Santo, duas pessoas divinas não são maiores do que uma, e uma não é maior do que duas. Essa circum-incessão é aplicada às faculdades da alma humana: mente, conhecimento e amor. Os três elementos têm a mesma extensão e um está totalmente inserido no outro, diferenciando-se pela oposição de relação.
Agostinho quase personifica as três faculdades do homem, relacionando a Trindade com a psicologia. Em sua obra Peri Psyqué, Aristóteles também discute a alma humana, e Agostinho segue uma linha semelhante ao analisar a mente, a inteligência e a vontade do homem como imagens da Trindade. Essas faculdades se manifestam em seus atos, especialmente quando o homem conhece e ama a Deus. Assim, o homem vive perfeitamente como imagem e semelhança de Deus.
A teologia de Santo Agostinho é uma síntese entre os dados revelados e o conhecimento que ele tem de si mesmo e do homem, entre a via cosmológica (metafísica) e a via psicológica (antropológica). A sua teologia é fundada sobre a fé. Ele argumenta que cada faculdade está na outra; quanto mais conhecemos, mais amamos. Amar a Deus sobre todas as coisas (e sobre si mesmo) e amar a própria alma acima do corpo é a chave para a felicidade humana.
Nos livros VIII e IX de De Trinitate, Santo Agostinho atinge o ápice de sua antropologia teocêntrica. Ele utiliza todas as capacidades de sua alma (mente, inteligência e vontade) para estudar e refletir sobre o mistério de Deus. Agostinho acredita que a felicidade do homem é se recordar, pensar e amar a Deus. Em suas obras, ele busca conhecer-se à luz de Deus, fazendo uso da via psicológica para falar de Deus. Para Agostinho, conhecer a Deus, os outros e a si mesmo é um processo interconectado, é parte de uma única ciência teológica, filosófica e psicológica.
Em conclusão, no Livro IX de De Trinitate, Santo Agostinho oferece uma análise das faculdades da alma humana como imagem da Trindade. Ele mostra como mente, conhecimento e amor estão intrinsecamente ligados e refletem a unidade e a distinção das pessoas divinas. Sua teologia é uma síntese entre revelação e introspecção, proporcionando uma compreensão mais rica da natureza humana e divina.
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