- Mario Donato D’Angelo
O Rio de Janeiro já viveu dias em que até os pombos da Avenida Primeiro de Março pareciam seguir um regulamento implícito. Voavam alinhados, pousavam discretos nas marquises, caminhavam com aquela compostura típica de quem entende a importância do centro da cidade. E ali, na porta do Jockey Club Brasileiro, edifício imponente com porteiro solene, engraxate cativo e movimento constante, a cidade comportava-se como se tudo tivesse um protocolo invisível.
Era uma tarde luminosa, daquelas em que o calor brilha nas fachadas e a pressa convive com a elegância antiga do centro. Dois advogados amigos conversavam na calçada, trocando histórias do dia, rindo de amenidades e observando o entra e saí do prédio. Nada extraordinário: apenas a vida correndo no seu ritmo de sempre.
Foi então que,
Lá no fundo da rua, apareceu uma figura que, à distância, parecia usar um vestido cor da pele. Mas, à medida que ela se aproximava, a cidade percebeu que não havia vestido algum. Nem sandália. Nem bolsa. Nem sombra de tecido. Era uma mulher completamente nua, caminhando pela calçada como quem vai comprar pão.
Passava tranquila, sem olhar para os lados, sem alarde, sem pressa. Um passo após o outro, como se fosse a coisa mais natural do mundo atravessar o centro do Rio em estado original de fábrica.
A reação foi instantânea, mas silenciosa.
A senhora que saía de uma loja segurou o colar como se segurasse o ar.
O porteiro do Jockey, acostumado a qualquer tipo de elegância, ficou com o crachá suspenso no ar, sem saber o que fazer com ele.
O engraxate, sentado em seu banquinho, deixou a escova cair no chão.
Os pombos, especialistas em observar o extraordinário sem se comprometer, interromperam o voo com um freio brusco, reorganizando as penas como quem pensa: “A cidade está inovando hoje.”
E a mulher seguia.
Passou pela faixa de pedestres com serena precisão.
Um senhor com pasta de couro desviou-se dela com a elegância de um toureiro.
A mulher abriu espaço entre as pessoas apenas com o próprio corpo.
Até que se aproximou da portaria do Jockey com o gesto natural de quem vai entrar.
E aí, meus amigos, foi como se o tempo tivesse dado uma pequena tropeçada.
Os dois advogados olharam um para o outro.
O porteiro não respirou por um segundo inteiro.
O engraxate parou no meio do suspiro.
Até os pombos ficaram imóveis no parapeito, como figurantes atentos ao desfecho.
Um dos advogados, aquele com a coragem involuntária dos homens gentis, deu um passo à frente. Não para censurar, nem para interromper, mas porque sentiu que precisava dizer algo para devolver a naturalidade ao mundo.
E, com a mais espontânea seriedade já registrada no centro do Rio, apontou para a portaria do Clube e declarou:
Minha senhora, aqui só é permitido entrar de gravata!
A mulher ouviu.
Sorriu um sorriso simples, quase tímido.
Mudou de direção com a mesma suavidade com que caminhava.
E continuou descendo pela rua Primeiro de Março, abrindo espaço entre as pessoas, carregando consigo a naturalidade da nudez e a leveza de quem não deve explicações a ninguém.
E o Jockey, imponente como sempre, permaneceu ali.
Firme, elegante.
Com suas portas, seu porteiro, seu ritual.
E sua única regra inabalável:
Ali, só era permitido entrar de gravata!
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