Edição anterior (4138):
terça-feira, 06 de janeiro de 2026


Capa 4138

A quebra do silêncio

- Ataualpa A. P. Filho

Foto: Pixabay
Foto: Pixabay

Teque, teque, teque-teque, teque-teque, teque, teque.... Foi assim, usando uma máquina de escrever portátil, que iniciei a escrever, na década de oitenta, para um jornalzinho intitulado “A Semente”, editado pelo grupo jovem da Paróquia da Igreja de Nossa Senhora da Glória, que fica no Largo do Machado, no Rio de Janeiro. Depois, usando essa mesma ferramenta que guardo até hoje, comecei a escrever para o “Petrópolis Post”, jornal que circulava na Cidade das Hortênsias.

Essa familiaridade com a máquina de escrever teve início em Teresina. Frequentei um curso de datilografia que funcionava no Sesi, mas não cheguei a concluí-lo, pois tive que vir para o Rio em dezembro de 1974. Mas lembro das primeiras aulas: “asdfg asdfg asdfg...” tais letras eram acionadas com os dedos da mão esquerda. Na segunda lição, tínhamos que usar a mão direita: “çlkjh çlkjh çlkjh...”

Não podíamos olhar para as teclas. As mãos e os cotovelos precisavam ser posicionados adequadamente para que os dedos pudessem tocá-las corretamente. A velocidade datilográfica era aferida na relação de palavras por minutos (PPM). A referência básica era de, no mínimo, 40 por minuto.

Você já deve estar se perguntando por que eu trouxe este assunto para a nossa prosa de hoje, uma vez que estão praticamente extintos os cursos de datilografia. Eu lhe falo que essas reminiscências surgiram, porque tentei usar um dispositivo no Word da Microsoft, que nos possibilita ditar o texto, isto é, à medida que falamos, a voz se transforma em texto escrito. Em suma, trata-se de uma digitação por voz.

Confesso que tentei usar esse recurso, mas desisti por uma razão bastante simples: a quebra do silêncio da reflexão. Prefiro ouvir somente o barulho das teclas. Ainda tento usar as lições das aulas de datilografia, uma vez que a posição das letras no teclado não mudou tanto, ou seja, foi mantida a mesma base das máquinas de escrever.

Confesso também que me diverti nessa tentativa. Testando esse dispositivo, falei: “digitar palavras” apareceu na tela: “excitar palavras”. Assumi a culpa do erro:  vou “excitar” as palavras com as minhas próprias mãos, até quando isso for possível...

A chamada Inteligência Artificial (IA) não me assusta, porque ela não tem vísceras. O verdadeiro sentimento humano não se artificializa. As contradições humanas, na maioria dos casos, fogem do previsível. Os algoritmos não criam. A realidade supera a ficção até no trágico.

Na época em que usava a máquina de escrever, eu levava a lauda datilografada para a redação do jornal. Conversava com o editor, com os jornalistas. Às vezes, até dava tempo de tomar um cafezinho. Aprendi muito com eles... Saudades...

Depois surgiram os computadores. Fiz um empréstimo na Caixa para comprar um com impressora e scanner. Na época, estavam concedendo empréstimos a profissionais da educação para aquisição de equipamento de informativa.

Comecei a digitar as crônicas e a gravá-las em disquete. Já não as levava datilografadas para os jornais. Passei a deixá-las gravadas. Com o uso do correio eletrônico, não era mais necessário ir à redação. O envio da crônica passou a ser efetuado por e-mail. No tempo da internet discada, que dependia de uma linha telefônica, a espera era um teste de paciência. A madrugada tornou-se horário de trabalho. A Rede Mundial de Computadores (World Wide Web www) ficava menos congestionada. A comunicação digital evoluiu muito...

No jornal impresso, havia uma limitação de espaço. O texto precisava ter uma média de três mil caracteres com espaço. Hoje com o jornal digital, não há mais essa exigência tão rígida.

Você há de convir que o tempo passou velozmente. As mudanças foram profundas. O processo de adaptação se faz necessário para acompanhá-las.

Inquestionavelmente, a mudança dos meios de produção leva a uma mudança no modo de produzir. O aprimoramento da tecnologia impõe uma mudança de comportamento. Contudo, as máquinas não carregam o discernimento entre o bem e o mal. No coração e na mente humana, é que o bem e o mal residem. O uso nocivo da Ciência da Computação provém da índole dos seres humanos.  É inegável o processo evolutivo da Tecnologia da Informação (TI). Mas sofremos com as falcatruas, com as agressões morais que circulam nas redes sociais.

Para finalizar esta nossa prosa, digo que a crônica não é cantiga de grilo. Precisa ser reflexiva, envolve, revolve o cotidiano pelo senso crítico. Pensa o dia a dia sem a pretensão de doutrinar. Para mim, o mais precioso é este nosso diálogo, marcado pelo respeito mútuo, mesmo nas divergências das nossas ideias.

Edição anterior (4138):
terça-feira, 06 de janeiro de 2026


Capa 4138

Veja também:




• Home
• Expediente
• Contato
 (24) 99993-1390
redacao@diariodepetropolis.com.br
Rua Joaquim Moreira, 106
Centro - Petrópolis
Cep: 25600-000

 Telefones:
(24) 98864-0574 - Administração
(24) 98865-1296 - Comercial
(24) 98864-0573 - Financeiro
(24) 99993-1390 - Redação
(24) 2235-7165 - Geral