Ataualpa A. P. Filho - professor
Com a devida manutenção do decoro, venho posicionar-me em defesa do silêncio. Acredito que você também já percebeu que ele tem sido quebrado desnecessariamente. Respeitá-lo, hoje, tornou-se raridade.
Mas, antes de dar continuidade a esta prosa, confesso que, na minha juventude, fui muito imprudente, perdia a oportunidade de ficar calado por não saber controlar os impulsos da rebeldia. Contudo, o tempo me ensinou a depurar as minhas convicções e a economizar energia. “Malhar em ferro frio”, às vezes, é apenas uma questão de teimosia. Precisamos canalizar os nossos esforços prudentemente para não haver desgastes infrutíferos.
Com o advento da internet, com a expansão das redes sociais, o silêncio ficou mais vulnerável e, com frequência, é quebrado pela força do ódio. A amabilidade tem sido outra raridade. O desequilíbrio emocional tem encontrado válvulas de escape nas plataformas digitais. E, por essa via, as agressões são constantes.
Com a polarização política entre esquerda e direita, o discurso centrado no equilíbrio da racionalidade entrou no campo das exceções. As ofensas se multiplicaram pela intolerância. Quebra-se o silêncio somente para agredir, xingar, caluniar, difamar. As injúrias, as mentiras navegam pelo mundo digital sem escrúpulos. Lamentavelmente os debates ingressaram no ringue do vale tudo.
A linguagem em nível de respeitabilidade também se encontra em um estágio lastimável. As concepções ideológicas andam adormecidas. Os discursos estão mais focados na difamação dos oponentes. Isso demonstra que os princípios éticos estão escassos.
Hoje vejo poucos adeptos da “Metamorfose Ambulante” do Raul Seixas. Muitos se apresentam como influenciadores, porém “com aquela velha opinião formada sobre tudo”. Estes se postam com uma câmera na mão, com um fone na lapela e nenhuma ideia na cabeça. O que diria Glauber Rocha diante dessa venda de monotonia? Filma-se o cotidiano apenas para expor a privacidade. Os equipamentos são modernos, mas as ideias são retrógadas. Criatividade zero. Apelam para a Inteligência Artificial que não sabe conjugar o verbo amar. Há um desperdício de tecnologia para expor o óbvio.
O sedentarismo mental ganhou uma obesidade que atrofia o raciocínio lógico. A conduta dialética exige um processo reflexivo movido pelo senso crítico. O supérfluo ganhou importância, porque enche os vazios.
O consumo exagerado de vídeos curtos e fúteis estão entre as causas do que se convencionou chamar “Brain rot” (deterioração cerebral). Tais vídeos no feed de plataformas como TikToK, Instagram, YouTube desencadeiam repentinamente o sistema de recompensa cerebral com dopamina, proporcionando estímulos rápidos que prejudicam a capacidade mental, por isso que o termo citado faz referência ao apodrecimento do cérebro.
Por uma questão de saúde mental e bem-estar diário, é necessário evitar a exposição a esse tipo de conteúdo que acrescenta nada ao desenvolvimento cognitivo, pois está sedimentado em repetições que não estimulam a criatividade. Isso provoca uma lesão mental, uma vez que reduz o foco da atenção diante de leituras longas, que exigem um esforço mais prolongado.
O vício em mídias sociais, as informações fragmentadas provocam um cansaço cognitivo que conduz à letargia. Em síntese, o uso excessivo das telas causa uma passividade que não favorece o pensamento crítico, nem promove a interatividade social no ambiente em que se vive. É válido enfatizar que esse problema é deflagrado pela “overdose” de informações tóxicas provenientes do uso excessivo das telas. Fato este que exige autorregulação e discernimento para priorizar conteúdos educativos.
A vida off-line torna-se mais lúdica, porque a interação tem calor humano. Desenvolve habilidades motoras. A recíproca escuta se faz necessária. O abraço, o aperto de mão, o carinho, a palavra amiga, a empatia estão presentes nos laços fraternos.
Para ouvir o outro e a si, é preciso silenciar. O silêncio é a porta da introspecção. O autoconhecimento só é possível por meio do diálogo interior. Hoje quantas pessoas não se conhecem?...
A falsa imagem exposta nas redes sociais desestabiliza, porque é difícil encontrar paz na incoerência. O “eu” centrado em si encontra mais força para defender as suas convicções ideológicas. Os que tentam provar o que não são estão sendo ridicularizados pelas explícitas contradições. Eles precisam parar e ouvir a própria consciência. Se alguns políticos soubessem valorizar o silêncio, talvez tivessem mais eleitores, pois ouviriam a voz do povo e evitariam expor as próprias incoerências.
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