- Mario Donato D´Angelo
“Não choremos à falta de água, choremos antes por não termos sede.” Fernando Pessoa
Há frases que parecem ter se esvaziado de tanto repetidas. “Beba água” é uma delas. De tanto ecoar em academias, consultórios e propagandas de verão, tornou-se quase um refrão banal. Mas como todo refrão, esconde uma verdade fundamental: é no gesto simples de beber água que se desenrola uma parte silenciosa da vida.
O corpo humano não grita de imediato quando lhe falta esse líquido essencial. Ao contrário, a sede é um aviso tardio, uma campainha que toca depois do incêndio começar. E à medida que envelhecemos, essa campainha fica ainda mais preguiçosa: o idoso pode estar perigosamente desidratado sem sentir sede alguma. É como se o relógio interno tivesse parado de dar o alarme.
A desidratação não chega com estardalhaço. É discreta, traiçoeira. Aparece em um tropeço sem explicação, numa tontura ao levantar, numa frase interrompida pela confusão mental. O sangue engrossa, o cérebro recebe menos oxigênio, os músculos perdem eletrólitos, a pressão despenca. De repente, um simples copo d’água esquecido pode resultar numa queda grave, numa fratura que muda a trajetória de meses.
A ciência descreve tudo com frieza. A redução do volume plasmático provoca hipotensão postural. O fluxo cerebral diminuído gera lentidão cognitiva e reflexos prejudicados. A carência de sódio e potássio causa fadiga e instabilidade muscular. É uma equação quase matemática. Mas a vida não se reduz a equações: ela pulsa também em símbolos e metáforas.
E aqui entra a poesia. Fernando Pessoa, que escrevia como quem tem sede da própria alma, intuiu que a falta não é apenas de água, mas do desejo dela. É preciso sentir sede da vida, do cuidado, da atenção. Drummond também tocou nesse mistério em seu jeito mineiro e melancólico: “Tenho sede, é sede de tudo”. Não é apenas a sede física que nos visita; é uma fome de sentido, uma carência de atenção ao essencial.
Espinosa, por sua vez, lembrava que tudo na natureza tende a perseverar em seu ser (conatos). Beber água, nesse sentido, não é só hidratar o corpo: é afirmar a existência, prolongar a permanência, insistir na vida. Cada gole é um ato humilde de resistência contra a dissolução.
Quem já cuidou de um idoso conhece bem a cena: o copo de água intacto ao lado da cama, a garrafa esquecida na cozinha. E a desculpa repetida: “não tenho sede”. Mas justamente aí está o perigo: esperar a sede é esperar tarde demais. Por isso, o conselho não deve ser “beba quando sentir”, mas “beba antes que o corpo peça”. A sede é tardia, e o corpo, com o tempo, aprende a silenciar o próprio pedido.
Nas nossas rotinas apressadas, não são apenas os idosos que esquecem. Nós também trocamos a água por café, refrigerantes, álcool. O corpo, resiliente, ainda assim segue. Mas um dia ele cobra, e cobra caro: com uma queda, uma tontura, um mal súbito.
E, no entanto, beber água não é apenas um mecanismo biológico, é também um gesto simbólico. É dizer ao corpo: eu não te abandono. É como regar uma planta que não fala, mas que seca aos poucos. É como manter viva a fonte interior de onde brotam os pensamentos, os passos, os afetos.
Heráclito dizia que ninguém se banha duas vezes no mesmo rio. O mesmo vale para a hidratação: nenhum gole substitui o de ontem, nenhum antecipa o de amanhã. É uma fidelidade diária, uma disciplina silenciosa. Hidratar-se é manter os rios internos a correr, mesmo quando esquecemos que somos, em grande parte, feitos de água.
E há beleza até na simplicidade desse cuidado. A urina clara, sinal discreto de equilíbrio, é como uma assinatura invisível da saúde. O copo d’água fresco em um dia de calor é uma epifania cotidiana, quase espiritual. O corpo, ao agradecer com mais energia, mais firmeza no passo, mais clareza de pensamento, nos mostra que o extraordinário pode morar no ordinário.
Drummond tinha razão: a sede é de tudo. É sede de clareza, de equilíbrio, de lucidez, de permanência. Pessoa nos lembrava da falta de sede como a verdadeira tragédia. E Espinosa, com sua filosofia serena, apontava que beber é insistir em viver.
Por isso, quando ouvir mais uma vez o conselho banal, beba água, não o receba como um clichê. Receba-o como um bilhete secreto, quase uma oração: não se deixe secar por dentro. Não é apenas sobre matar a sede. É sobre preservar a memória, sustentar o equilíbrio, prolongar a lucidez. É sobre não tropeçar na própria negligência.
A sede não avisa cedo. Mas o cuidado pode ser agora.
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