Ataualpa A. P. Filho
O vocábulo “parassocial” (parasocial na língua inglesa) foi eleito como a Palavra do Ano de 2025 pelo Dicionário de Cambridge, em razão da sua significação, pois se refere à unilateralidade de relações que proliferam nas redes sociais. A busca desenfreada por seguidores aflorou um tipo de relação de mão única. Isso ocorre, porque pessoas demonstram um vínculo de afinidade com uma figura midiática que se destaca como celebridade no mundo das
artes ou em outras áreas com projeções públicas.
A “relação parassocial” se concretiza, porque a pessoa tida como “influenciadora” expõe a privacidade dela, a vida íntima em canais midiáticos. Diante do consumo desse conteúdo, o “seguidor” alimenta uma espécie de “amizade” pela ilusória intimidade com quem o influencia, embora não mantenha contato algum. O que existe, portanto, é uma etérea relação em um plano unilateral, sem a reciprocidade inerente a uma verdadeira amizade.
A palavra “parassocial” não é nova. Já existia antes do surgimento das redes sociais. Emergiu na década de cinquenta, por meio dos sociólogos Donald Horton e Richard Wohl, quando publicaram um artigo acadêmico, na revista Psychiatry, com o título “Mass Communication and Para-Social Interaction: Observations on Intimacy at a Distance” (“Comunicação de Massa e Interação Parassocial: Observações sobre Intimidade a Distância”). Na época, o cinema, o rádio, a televisão, jornais, revistas exerciam fortes influências, pois tinham uma grande aceitação popular. Nesse período, era comum a existência de fã-clube em torno de um determinado artista ou de um conjunto musical. O desejo de estar ao lado de um ídolo era sufocante. Para mencionar alguns exemplos, basta olhar o comportamento das fãs diante dos componentes da banda “The Beatles” e do cantor Elvis Presley. E aqui, no Brasil, tornou-se histórica a rivalidade entre os fã-clubes das cantoras Marlene e Emilinha Borba.
Hoje há influenciadores com milhões de seguidores que, com os quais não têm nenhum contato. Pedem curtidas (likes), mas não dão retorno algum a seus fãs, mesmo sendo monetizados por plataformas digitais (You Tube, TikTok, Instagram, Facebook) em função das visualizações que recebem.
A parassocialidade ganhou espaço, porque o mundo virtual expandiu-se por meio da telefonia móvel. Com um celular na mão, é possível filmar, fotografar, editar e lançar, nas redes sociais, conteúdos sem nenhum controle de qualidade, sem nenhum compromisso com a verdade. Fato este que favoreceu a produção de conteúdos fúteis, tóxicos. O consumo de futilidade tem atrofiado as reflexões sobre o viver. O tempo que os seguidores dedicam aos
influenciadores é o tempo que estes vendem às plataformas. Por isso, é comum, no meio de uma visualização, entrar anúncios publicitários.
O entretenimento infrutífero é alienante, principalmente, quando conduzem ao entorpecimento social. Pessoas mergulham no mundo virtual e isolam-se, evitam as interações presenciais, distanciam-se de parentes e amigos. As mensagens seguem por aplicativos e as manifestações de afeto são expressas por emojis. Apesar do avanço tecnológico nos meios de comunicação, a solidão ainda é um problema crônico no mundo moderno. Há uma epidemia global. A meu ver, trata-se de um problema relacionado à saúde pública.
Paradoxalmente, vivemos um momento em que o fluxo de mensagens permite uma conexão rápida em diversas situações, contudo o número de pessoas desconectadas emocionalmente e isoladas socialmente é imenso.
Repito: a solidão deve ser tratada como um caso de saúde pública. Está cientificamente comprovado que ela atinge o sistema imunológico, afeta o corpo e a mente. Aumenta o risco de doenças cardiovasculares, contribui para o surgimento de Alzheimer, está relacionada à ansiedade, à depressão. É um dos fatores que leva ao suicídio. Portanto, ter um milhão de seguidores não corresponde a ter um milhão de amigos.
Muitos influenciadores empenham-se, somente, na formação de um público consumidor. Olham para os seguidores como uma plateia disposta a aplaudi-los sem contestações. Inquestionavelmente, o homem é um animal social. Contudo, o questionamento que se faz está voltado para a forma como se relaciona com o seu semelhante no meio em que vive. O problema é que, atualmente, existe uma máquina de produzir vazios para encher as pessoas. Quando vazias de afeto, sentem-se anestesiadas. Encontram dificuldades para expressar o amor, o carinho. O abraço hoje é gênero de primeira necessidade.
Convém, portanto, diferenciar solitude de solidão. Esta é cheia de vazio, espaço propício para as angústias provocadas pelo desencontro consigo. A solitude consiste na opção pelo recolhimento para abrir janelas e olhar
para dentro de si, sem medo da própria consciência.
O prazer de estar bem consigo leva a momentos de partilha, porque a paz interior faz estender a mão ao próximo sem perder a chance de doar-se em um ato fraterno. Para dessozinhar-se, é preciso amar a si e ao
próximo.
Ataualpa A. P. Filho
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