- Mario Donato D’Angelo
“No meio do inverno, descobri que havia em mim um verão invencível.”
Albert Camus
Há períodos em que a vida segue adiante, mas com outra temperatura. Nada muda de forma espetacular. O calendário vira, os dias continuam numerados, o mundo não faz alarde. Ainda assim, algo se ajusta por dentro. O corpo permanece em movimento, a rotina se mantém, mas a alma pede menos pressa e mais cuidado.
Esse frio interno aparece quando a experiência pesa um pouco mais do que o entusiasmo. Não é tristeza aberta, nem desalento. É o reconhecimento discreto de que viver exige fôlego.
Camus escreveu que, mesmo no meio do inverno, descobriu dentro de si um verão invencível. Essa frase não fala de euforia. Fala de permanência. De algo que não se apaga quando as expectativas se recolhem. O verão de que ele fala não ilumina tudo. Apenas aquece o suficiente para continuar.
Continuar, aliás, é um verbo pouco celebrado. Não rende discursos, não costuma ganhar brindes. Mas sustenta a vida. Levantar, atravessar o dia, cuidar do que ainda responde. Há uma dignidade discreta nesse gesto. Uma forma silenciosa de coragem.
Cada pessoa aprende a manter a própria temperatura. Uns encontram isso em hábitos simples. Um café tomado com atenção. Um livro aberto sem obrigação. Uma conversa que não precisa impressionar. Outros descobrem esse calor em lembranças que já não doem. O passado, quando se aquieta, pode aquecer.
Há também dias em que nada disso aparece. Mesmo assim, algo insiste. O corpo segue. O pensamento não desiste. A vida continua acontecendo, ainda que em tom menor.
Existe uma ideia persistente de que a virada do tempo deveria trazer brilho, promessas altas, resoluções impecáveis. Como se a existência precisasse começar de novo, limpa e triunfante. Mas a vida real não funciona assim. Ela não pede glória. Pede continuidade.
O que vem adiante não precisa ser grandioso. Precisa ser possível. A vida que se tem é a matéria-prima. Com seus limites, seus cansaços, seus pequenos alívios. Não é pouco. É o suficiente para atravessar a jornada.
Cada um guarda seu pequeno sol. Às vezes no olhar que ainda recorda. Às vezes numa fotografia que carrega o cheiro de um dia feliz. Às vezes no riso súbito de alguém que passa. Outras vezes, as mais singulares, o verão surge sem motivo, como uma respiração funda que devolve a coragem.
Há quem espere uma mudança completa para se permitir seguir. Há quem siga mesmo sem garantias. Esses últimos compreenderam algo essencial: a vida não se apresenta em estado ideal. Ela se oferece como é. Cabe a nós aceitá-la nessa forma imperfeita e, ainda assim, habitável.
O frio pode permanecer por um tempo. Pode atravessar semanas, meses, estações. Ainda assim, enquanto algo em nós não se apaga, existe caminho. A esperança, nesse caso, não é promessa de vitória. É sustentação. É manter aceso o que ainda responde.
Proteger esse ponto interno é um gesto de sabedoria. Não exigir demais do que está começando. Não romantizar o que simplesmente continua. Reconhecer que atravessar o tempo com algum calor já é uma forma de viver. E como!
É isso que eu desejo para a vida que segue adiante. Que ela não nos peça heroísmo, mas presença. Que não exija brilho, mas consistência. Que saibamos entrar nos próximos dias com cuidado, sem a obrigação de sermos melhores, que sejamos apenas atentos. Porque é nesse ponto, discreto e habitável, que a felicidade costuma morar. Que possamos encontrar esse ponto é o que desejo a todos neste ano que entra.
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