- Mario Donato D’Angelo
Há um verso da poeta americana Emily Dickinson que parece simples à primeira vista, mas que guarda uma intuição profunda sobre o modo como os seres humanos lidam com a verdade.
Tell all the truth but tell it slant.
Diga toda a verdade, mas diga-a em diagonal.
Emily Dickinson viveu quase toda a sua vida em uma casa em Amherst, nos Estados Unidos, no século XIX. Publicou pouquíssimos poemas em vida. Escrevia em silêncio, quase como quem conversa consigo mesma. Quando morreu, encontraram centenas de poemas cuidadosamente guardados em gavetas e cadernos. Era como se tivesse construído um universo inteiro sem levantar a voz.
Seus poemas têm algo de científico e algo de misterioso ao mesmo tempo. Ela observava o mundo com uma precisão extraordinária, mas sabia que certas verdades não podem ser ditas de forma direta. A verdade, quando chega frontalmente, pode cegar. Como a luz do sol quando alguém olha para ela sem proteção.
Por isso, dizia ela, a verdade precisa chegar por circuito. Por inclinação. Por desvio.
Em diagonal.
É curioso perceber que, no mesmo século, em outro continente, Machado de Assis parecia ter descoberto exatamente o mesmo princípio literário.
Machado não explica o mundo. Ele o revela por ironia. Não acusa diretamente as fraquezas humanas. Ele as coloca em cena. E quando o leitor percebe, já foi conduzido até uma verdade que talvez não aceitaria se fosse apresentada de maneira frontal.
Nenhum texto mostra isso com tanta clareza quanto O Alienista.
A história começa de maneira perfeitamente razoável. Um médico respeitado, Simão Bacamarte, decide estudar a loucura humana. Para isso constrói um hospital, a famosa Casa Verde, onde pretende observar e classificar os doentes mentais.
Nada poderia parecer mais científico.
No início são poucos pacientes. Depois surgem mais. O método se aperfeiçoa. Os critérios se refinam. E quanto mais Bacamarte investiga a loucura, mais ela parece espalhar-se pela cidade de Itaguaí. Em pouco tempo metade da população está internada.
Mais tarde, quase toda a cidade.
É impossível ler essas páginas sem rir. Machado tem uma elegância devastadora quando faz humor. Mas o riso logo vem acompanhado de um leve desconforto. Há algo naquela história que nos diz respeito de maneira inquietante. Machado não faz discursos. Não escreve um tratado contra a ciência. Não acusa médicos nem instituições.
Ele apenas narra.
E a verdade chega em diagonal.
O Alienista é provavelmente uma das primeiras grandes sátiras da mecanização da sociedade, esse impulso humano de transformar a complexidade da vida em classificações rígidas, diagnósticos e sistemas. A tentativa de organizar a experiência humana como se fosse uma coleção de peças perfeitamente identificáveis.
Machado percebeu muito cedo que existe um perigo nessa ambição de organizar tudo.
Quando tentamos reduzir o comportamento humano a categorias demasiado precisas, algo escapa. A vida não cabe completamente em tabelas. O espírito humano não se deixa classificar com a mesma facilidade com que se classificam plantas ou minerais.
Emily Dickinson também parecia compreender isso.
Seus poemas são curtos, muitas vezes quase enigmáticos, porque ela sabia que certas verdades não sobrevivem ao excesso de explicação. Elas precisam permanecer um pouco inclinadas, um pouco misteriosas.
Machado e Dickinson nunca se encontraram, nunca se leram, viveram em mundos culturais muito diferentes. Ainda assim, ambos parecem ter percebido algo essencial sobre a natureza humana.
A verdade direta pode ser insuportável.
A verdade precisa de arte.
Precisa de história.
Precisa de ironia.
Precisa chegar por um pequeno desvio.
Talvez por isso continuemos voltando a esses escritores tantos anos depois. Eles não pretendem resolver o enigma humano. Eles apenas o iluminam por um instante, como um relâmpago distante. O suficiente para percebermos que compreender o homem exige mais do que classificações, diagnósticos e teorias.
Exige também a delicadeza de quem sabe olhar o mundo de lado.
Em diagonal.
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