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domingo, 17 de maio de 2026


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A viúva de Nogueira

- Mario Donato D’Angelo

Arquivo Pessoal
Arquivo Pessoal

Havia em Petrópolis uma senhora.

Morava em Nogueira, dirigia um Fusca e tinha noventa e tantos anos. A idade exata variava conforme o humor dela e a coragem de quem perguntasse. Fazia questão absoluta de preservar duas coisas: a independência e a direção do automóvel.

E dirigia.

Não dessas direções simbólicas de idoso moderno, que anda devagar com o pisca ligado desde 1987. Não. Dirigia como quem ainda tinha assuntos pendentes com a vida. Volta e meia alguém aparecia assustado:

“Vi aquela senhora passando pela estrada!”

“A mais de cem por hora!”

“E com o cotovelo fora da janela!”

A cena tinha certa grandeza. Um Fusca antigo cortando a serra como um pequeno míssil doméstico, enquanto dentro dele seguia aquela senhora miúda, viúva, perfumada, absolutamente decidida a não virar peça decorativa na casa de filho preocupado.

Ela fazia compras, resolvia problemas, frequentava cabeleireiro, implicava com médicos e ainda mantinha uma vida social perigosamente ativa para alguém que já colecionava mais exames do que fotografias antigas.

Porque existe um equívoco monumental sobre a velhice.

As pessoas imaginam que envelhecer seja um lento afastamento das paixões humanas. Mas ela era dessas criaturas em que acontece exatamente o contrário: o corpo vai desistindo aos poucos, enquanto a vida emocional continua perigosamente adolescente.

Talvez envelhecer não seja perder o desejo de viver. Talvez seja apenas ver o corpo negociar diariamente com esse desejo.

A alma continua fazendo suas imprudências.

Entre as suas resistências contra a velhice havia ainda esta: participava de um clube frequentado por idosos no Rio de Janeiro, onde florescia um universo paralelo que pouca gente jovem conhece. Havia aniversários, pequenas vaidades, telefonemas demorados, danças discretas, comentários venenosos e paixões tardias circulando tranquilamente entre aparelhos auditivos, taxas alteradas de colesterol e comprimidos organizados em caixinhas da semana.

Era curioso perceber como certas emoções sobrevivem ao próprio corpo.

Foi nesse ambiente que surgiu um senhor de noventa e seis anos. Viúvo elegante, cabelo cuidadosamente penteado para trás, proprietário de um carro infinitamente superior ao Fusca dela. Um homem que ainda abria portas, elogiava perfumes e carregava aquela educação perigosíssima dos homens antigos, hoje quase extintos e provavelmente já protegidos pelo patrimônio histórico.

A aproximação começou discretamente.

Conversas depois do almoço.

Risos demorados.

Telefonemas.

Uma gentileza aqui, outra ali.

Em pouco tempo já havia certa movimentação sentimental no ar, incompatível com a idade dos envolvidos, mas perfeitamente compatível com a natureza humana.

Até que um dia o grupo resolveu organizar uma excursão para São Lourenço. Hotel, águas minerais, passeio, fotografias e provavelmente algum bingo clandestino depois do jantar.

Na véspera da viagem ela telefonou para a sobrinha.

A voz vinha cautelosa.

A sobrinha estranhou imediatamente. Imaginou doença, tontura, pressão alta, labirintite, alguma tragédia ortopédica produzida pela antiga combinação entre idade e piso molhado.

Mas não.

“Preciso da sua opinião.”

A sobrinha sentou.

“Tem um companheiro meu aqui do grupo”

Silêncio.

“Ele vai pra São Lourenço também.”

Nova pausa.

“E me convidou pra ir no carro dele. Só nós dois”

A sobrinha já preparava recomendações sobre estrada, coluna, circulação, cansaço, essas fragilidades todas que a família imagina administrar quando os parentes envelhecem.

Mas a preocupação era outra.

Muito mais séria.

Muito mais humana.

Do outro lado da linha houve um pequeno silêncio. E então ela perguntou baixinho:

“Você acha que isso pode manchar a minha reputação?”

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