Conheça o perfil das vítimas
Larissa Martins
Os acidentes com animais peçonhentos têm se tornado cada vez mais comuns em Petrópolis, é o que apontam os dados do Painel Epidemiológico do Ministério da Saúde. Das 126 notificações e um óbito de 2025, a maior parte aconteceu em áreas urbanas (80,95%), seguida pela rural (12,70%), periurbana (3,17%) e outras 3,17% sem informação.
Janeiro foi o mês que teve mais ocorrências no ano, confirmando que com o aumento da umidade, cresce também os riscos de aparecimento de animais peçonhentos. O clima quente favorece a reprodução, podendo aumentar em até 80% os acidentes com escorpiões, cobras, aranhas e abelhas, por exemplo, segundo o Instituto Butantan.
Tipos de animais
Em relação aos animais causadores das picadas e mordidas, os escorpiões foram responsáveis por 35 ocorrências, seguidos pelos diferentes tipos de aranhas (26), armadeiras (foneutrismo, 23), aranhas-marrons (loxoscelismo, 13) e viúvas negras (latrodectismo, 1). Também foram registrados acidentes com lagartas (11), serpentes (7) e situações sem identificação do animal.
Perfil das vítimas
Os homens representam 58% das vítimas, enquanto as mulheres correspondem a 42%. Em relação à cor, 62% das vítimas se consideram brancas, 29% pardas, 9% pretas e 1% amarelas. A idade média é de 42 anos.
Local da picada
Sobre o local da picada, em 26,98% das vezes ocorre no dedo da mão, 14,29% no pé, 13,49% na mão, 11,90% dedo do pé, 9,52% perna, 7,14% no ante-braço, 5,56% no braço, 5,56% no tronco, 2,38% na cabeça, 2,38% na coxa e 0,79% não há informação.
Cerca 123 caos evoluíram para cura, um para óbito e dois não há informação. Cerca de 88,89% das ocorrências foram leves, 10,32% moderadas e 0,79% graves. Em relação ao tempo de demora da picada até o atendimento, 26,19% levaram de 0 a 1 hora e 19% levaram 24h ou mais.
De acordo com Luciana Virgili Pedroso Garcia, Bioquímica e professora do curso de Medicina da Uniderp, alguns grupos devem ter atenção redobrada.
“Crianças e idosos são mais vulneráveis em virtude da situação imunológica e metabólica que variam nos extremos de idade. As medidas de prevenção são: não acumular lixo, limpar terrenos e quintais, manter os ralos da casa com telas, usar sapatos fechados”, destaca.
Nem os pets estão imunes. Polyana Mayume Pereira da Silva Sarmento, Médica Veterinária e professora do curso de Medicina Veterinária da Uniderp, confirma os dados de que os acidentes domésticos acontecem, na maioria dos casos, por picada de escorpião o gênero (Tityus serrulatus), que é o responsável pela maior parte dos acidentes no país, em animais e humanos.
“Em segundo lugar, as picadas de aranhas, com destaque para a aranha-marrom. A prevenção para evitar a presença indesejada destes insetos é simples. Manter ambiente limpo e organizado evitar acúmulo de entulho, madeira, lixo. Importante vedar frestas em paredes e principalmente os ralos (usar telas). Ah, importante dizer que quando for picado por algum destes animais precisa lavar com água e sabão e procurar uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA). E, não pode colocar nada sobre a ferida”, ensina a especialista.
Muitas vezes, a vítima só percebe o ferimento minutos ou horas depois de ele acontecer, ao sentir coceira, vermelhidão, dor ou inchaço em algum ponto da pele. Quando não é possível ver o que nos picou, o primeiro impulso é imaginar que foi um inseto qualquer e que não tem maiores problemas. Mas como diferenciar uma picada comum da picada de um animal peçonhento e que representa perigo à saúde, como uma aranha-marrom ou armadeira?
O principal sinal de alerta é quando a lesão não melhora com tratamento sintomático, segundo a médica do Hospital Vital Brazil Roberta de Oliveira Piorelli. “De modo geral, quando ocorre inchaço ou dor persistente que só progride, o ideal é buscar atendimento médico, especialmente se começar a ter sintomas sistêmicos, como mal-estar, náuseas, vômitos e manchas na pele”, explica. “Se o paciente não tem alergia conhecida e não costuma ter reações a picadas, e notou que a lesão está diferente do habitual, o quadro merece atenção”, acrescenta.
Tratamento
O principal tratamento para a picada é o soro antiveneno produzido pelo Instituto Butantan e distribuído, exclusivamente, pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A cada ano, são encaminhados cerca de 450 mil frascos ao Ministério da Saúde, que repassa aos estados após avaliação epidemiológica. Os estados, por sua vez, transferem aos municípios para hospitais públicos, filantrópicos ou privados, desde que seja garantido o tratamento sem custo ao paciente.
O Butantan é o maior produtor de soros antiveneno do país. Ele produz 8 tipos de soros contra picadas de cobras, escorpiões e lagartas, além de soros para tratamento do botulismo, raiva, tétano e difteria, totalizando 12 tipos diferentes.
A linha de produção dos soros antiveneno do Instituto é certificada em Boas Práticas de Fabricação (BPF) pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). É o décimo maior fabricante mundial de vacinas em doses distribuídas e em valor, segundo a OMS, é o maior produtor da América Latina.
Primeiro socorros
Algumas dicas práticas essências de prevenção, fornecidas pelo Butantan são:
Serpentes: Usar calçados fechado, de preferência de cano alto, ao andar ou trabalhar no mato. Usar luvas grossas para manipular folhas secas, lixo, lenha, palhas, etc. Não colocar as mãos em buracos e tomar cuidado ao revirar cupinzeiros. Evitar acúmulo de lixo e entulho.
Aranhas, escorpiões e lacraias: Manter jardins e quintais limpos. Evitar folhagens densas junto a paredes e muros das casas e manter a grama aparada. Não colocar as mãos em buracos, sob pedras e em troncos podres. Usar calçados e luvas grossas nas atividades de jardinagem. Vedar ralos, frestas, buracos e soleiras de portas e janelas. Afastar as camas e berços das paredes, evitar que roupas de cama e mosquiteiros encostem no chão. Sacudir e verificar roupas e sapatos antes de usá-los. Preservar os predadores naturais: coruja, joão-bobo, lagartos, sapos, galinhas, gansos e quatis.
Taturana (lagarta): Tomar cuidado ao tocar em troncos de árvores e plantas no jardim.Verificar se existem folhas roídas nos galhos das árvores, casulos e fezes de lagarta no solo. Usar luvas de borracha ao manusear plantas.
Projeto de lei
Um projeto de lei aprovado na Câmara Municipal de Petrópolis, de autoria da vereadora Gilda Beatriz, propõe a criação da Campanha Permanente de Orientação sobre Prevenção e Atendimento em Acidentes com Animais Peçonhentos no município. A iniciativa tem como objetivo informar, conscientizar e orientar a população sobre medidas preventivas, primeiros socorros e os locais adequados para atendimento em casos de acidentes com escorpiões, serpentes, aranhas e outros animais peçonhentos.
A proposta prevê a realização de ações educativas em unidades de saúde, escolas, associações de moradores e demais espaços públicos, além da divulgação de informações por meio de cartazes, banners, redes sociais oficiais, palestras e distribuição de folhetos em áreas urbanas e rurais. Também está prevista a intensificação das campanhas em períodos de maior incidência desses acidentes.
Outro ponto importante do projeto é a obrigatoriedade de afixação, em locais visíveis de todas as unidades de saúde do município, de informações atualizadas sobre os polos de referência para atendimento e soroterapia, além de orientações básicas para encaminhamento imediato.
“Os acidentes com animais peçonhentos representam um problema de saúde pública e exigem resposta rápida e adequada. A rapidez no atendimento e a orientação correta nos primeiros minutos fazem toda a diferença em casos de acidentes com animais peçonhentos. Esse projeto garante que a população saiba como prevenir, como agir e, principalmente, para onde deve se dirigir imediatamente em busca do atendimento adequado”, destacou a vereadora Gilda Beatriz.
A proposta destaca ainda que o município já conta com unidades habilitadas para atendimento especializado, como a UPA Cascatinha e a UPH Pedro do Rio, sendo fundamental ampliar a divulgação dessas referências para a população.
O projeto segue para análise do Poder Executivo.
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