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Afonso Arinos e o peso das palavras

Henrique Pinheiro - Economista e produtor executivo do documentário Terra Revolta-João Pinheiro Neto, autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor

Foto: Divulgação
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Para marcar os 120 anos do jurista, politico e imortal,  Afonso Arinos ( 1905-1990), a  Academia Brasileira de Letras lançou, recentemente, o livro " Nos 120 anos de Afonso Arinos de Melo Franco ", organizado pelo acadêmico e historiador Arno Wehling e pelo jornalista Rogério Faria Tavares, com ensaios escritos pelo neto do ex-senador, o advogado Cesário Melo Franco,  e por amigos que conheceram o jurista, como, por exemplo, José Sarney, Bernardo Cabral e Rubens Ricupero.

Ao tratar de Afonso Arinos em seu livro “Bons e Maus Mineiros”, Mauad 1996, meu pai, João Pinheiro Neto não fez,  somente, um retrato de homenagem e sim algo mais interessante. Reconhece a grandeza, dele, mas não abriu  mão da crítica.

Afonso Arinos de Melo Franco (19051990) foi um dos homens mais brilhantes de sua geração. Jurista, diplomata, escritor, tribuno.

Inteligência afiada, presença forte, dono da palavra.
Mas o texto de " Bons e Maus Mineiros " não fica no currículo. Vai para o convívio. E é aí que ganha vida.
João Pinheiro Neto e Afonsinho (  embaixador e ex-deputado federal) , filho de Afonso Arinos de Melo Franco, estudaram juntos no Ginásio Mello e Souza, na Zona Sul do Rio de Janeiro. A amizade começou ali e seguiu ao longo do tempo.
Afonsinho passava férias em Ouro Preto, na casa do primo Rodrigo Melo Franco de Andrade, e de lá escrevia para o amigo.
João Pinheiro Neto conta,em seu livro, que guardou  essas cartas, durante toda a sua vida.
Eram cartas simples, de juventude, sem formalidade, que mostravam uma relação próxima. Essa troca revelava a confiança e a  convivência real, longe da política.
No Rio, a proximidade continuava. João Pinheiro Neto frequentava com assiduidade a casa do Dr. Afonso Arinos, na Rua Anita Garibaldi, em Copacabana.  Não era visita ocasional. Era presença constante. Entrava, ficava, conversava, observava.
E é aí que aparece um dos melhores retratos do livro.
O velho Afonso, já consagrado, sentado em sua poltrona, olhos semicerrados. Ouvia mais do que falava.
De vez em quando interrompia, corrigia uma palavra, ajustava um detalhe.
Bem ao estilo Melo Franco, atento à precisão. E então vinha a frase, quase um ritual.
Vamos lá, menino, conte alguma coisa, preciso descansar o espírito.
A cena é simples, mas diz muito.
Mostra um homem culto, seguro, que não precisava se impor.
Sabia ouvir e observar.
Mas é na política que o texto muda de tom.

Afonso Arinos foi um dos grandes nomes da UDN.
Orador respeitado, figura central da oposição a Getúlio Vargas.
Tinha peso, tinha voz, tinha influência.
E, segundo João Pinheiro Neto, em algum momento passou do ponto.
Ele não contestou o papel de oposição.

O que critica, em sua obra sobre os mineiros, é o excesso.
Fala de uma oposição dura, que em certo momento se tornou injusta. E, aí veio o trecho mais forte.

João Pinheiro Neto disse ter a impressão de que o próprio Afonso Arinos se arrependeu.
Referiu-se ao discurso feito pouco antes do suicídio de Vargas.
Um discurso que, na visão dele, ajudou a acelerar o desfecho.
Não  foi uma acusação leve.
Foi uma leitura política e humana ao mesmo tempo. João Pinheiro Neto disse, em seu livro,  que palavra tem consequência.
E que, na política, isso pesa.
Ao mesmo tempo, ele não desmontou o personagem. Reconheceu a  sua inteligência e a sua importância.
Mostrou que mesmo os grandes erram.
Esse é o valor do texto. Não idealiza. Não simplifica.
Afonso Arinos aparece com grandeza e contradições. Como todo personagem real. No fim, o retrato é mais atual do que parece.
Em tempos de discursos duros, a lição permanece. Palavras têm peso. E,  podem empurrar a história.

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