Ataualpa A. P. Filho professor
Meninos e meninas, eu vi. Podem acreditar. Eu vi e vibrei com a fascinação de uma criança em uma livraria. Parecia que estava em um parque de diversão, com os olhos brilhando diante dos livros. O fascinante ocorreu quando ela chegou perto de uma estante e exclamou:
Aqui! Monteiro Lobato! Olha!
Um garoto com dez anos de idade, desatado do celular, vibrar ao encontrar com um livro de Monteiro Lobato não é comum em nossos dias...
Isso aconteceu no sábado passado (04/10) na Livraria Nobel da rua 16 de Março. Fui ao bate-papo, que estava marcado para iniciar às 17:00 horas, com o autor do livro “Entre Capangas, Chicletes e Travessias”, João Ricardo Ayres da Motta. Cheguei alguns minutos antes. Peguei um pouco da arrumação do espaço. Aquele movimento da colocação da mesa, das cadeiras, do afastamento das estantes, chamou a atenção do fascinante garoto:
O que vai ter aqui?
O lançamento de um livro?
De quem?
Dele apontei para o João Ricardo ele é o autor.
Que legal! O autor do livro!
Estava ali, na frente dele, um livro com o seu autor. Ele saiu em direção ao João Ricardo e perguntou:
O seu livro é pra criança?!
Vieram os segundos reflexivos. Ele balançou o corpo para um lado e para o outro e respondeu com a timidez contida:
Não é pra criança. Mas fala também de criança. Tem alguns contos que falam de criança...
No embalo da pergunta, o autor fez outra para dar início à prosa:
Você gosta de ler?
Adoro! Tenho vários livros em casa...
Quantos livros você já leu?
Mais de trinta!
Eu, que estava ao lado, ouvindo a conversa dos dois, vibrei novamente. Somei aos trinta os livros que a mãe e/ou o pai devem ter lido para ele, os livros lidos na escola. Percebendo a desenvoltura da linguagem dele, o vocabulário que usava, exclamei novamente: “essa criança está recebendo uma educação de excelência...”
Vi que o autor fez valer a experiência paterna que narra em seu livro. A interação com a criança o fez andar pelas estantes da livraria. Pegavam livros. Comentavam sobre algumas obras. Falavam de aventuras...
Em determinado momento, o garoto se colocou em pé de igualdade:
Eu também já comecei a escrever um livro...
Como é o nome do seu livro?
“Encontro e Partida”. Eu encontrei uma garota linda ali na Praça da Águia. Ela mora no Rio. Ficamos conversando, brincamos juntos. Gostei muito dela. Por isso que o livro vai ter esse nome. Houve um encontro e uma partida. Ela foi embora. A gente não se viu mais. Ela veio aqui na Bauernfest...
Ele fez essa breve narrativa do encontro e da partida com uma saudade latente no peito. As palavras saiam carregadas de um sentimento alimentado por uma esperança de revê-la em breve. E mais uma vez, a reflexão introspectiva bateu: “é do amor que nascem os escritores...”
O amor é a força motriz. Seja o amor correspondido, ou não correspondido, seja pelas dores, seja pelas alegrias que ele possa causar. O amor é a fonte onde os desejos bebem...
O livro do João Ricardo está repleto do amor paterno. E o primeiro bate-papo no lançamento do seu primeiro livro foi com uma criança em um fim de tarde. Vi a prática e a teoria. Vi o acaso impondo as suas verdades. Não se pode perder a oportunidade de colher as lições do simples. Ler os encontros e as partidas é um processo contínuo...
Vi, no coração da criança que dialogou com João Ricardo, os versos da canção de Milton Nascimento e Fernando Brant, “Encontros e Despedidas”: “São só dois lados da mesma viagem/ O trem que chega é o mesmo trem da partida/ A hora do encontro é também despedida...”
A mãe do garoto se aproximou quando os dois conversavam. Pelo olhar, pelo sorriso, pela descontração, pelo papo que levavam, era possível deduzir: “tenho que ir, mas quero ficar”...
Eu parabenizei a mãe pela educação do filho dela. Era visível a alegria daquela criança que encontrava, nos livros, um mundo mágico. Parafraseando o pessoal da gastronomia, é possível dizer: criança com leitura é tudo de bom.
Ainda acredito na Arte como forma de transformação do mundo. A ternura também brota dos livros.
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