Especialista aponta possíveis causas para a recorrência de enchentes na região
Larissa Martins
Basta começar a chover um pouco mais forte que os alarmes já começam a soar. Na tela do celular, um alerta de risco de inundação na Rua Coronel Veiga e o aviso de possível fechamento da via. A cena já se tornou comum para quem trabalha ou vive na região.
Quando a chuva cai, o Rio Quitandinha transborda e a rua acaba sendo interditada. Pouco tempo depois, com nível da água baixando, a via é liberada: um ciclo sem fim, que impacta a todos, inclusive o transporte público, que sofre alteração de rota e atrasos.
Segundo levantamento da Defesa Civil de Petrópolis, foram cinco acionamentos do Sistema de Alerta e Alarme por inundação na região em 2025. No ano de 2024, foram nove acionamentos.
Avanço da ocupação urbana
Para entender as causas dos alagamentos recorrentes, o Diário conversou com a professora de Engenharia Civil e Ambiental da Universidade Católica de Petrópolis (UCP), Fernanda Gonzales.
“Os rios naturais, antes de intervenção urbana, possuem duas calhas: calha menor onde ele passa a maior parte do tempo, e a calha maior, que é a área que ele ocupa durante as chuvas maiores, que ocorrem na época chuvosa do ano. O entorno do Rio Quitandinha na Rua Cel. Veiga era sua calha maior, portanto uma parte da ocupação que há em seu entorno é uma área naturalmente alagável”, explica a especialista.
Segundo ela, a ocupação urbana ao longo dos anos contribuiu para o aumento dos picos de vazões, pois ela impermeabiliza o ambiente.
“A água de chuva, que no terreno natural infiltra no solo e chega lentamente ao rio, após a urbanização, escoa pelo asfalto e concreto e chega mais rapidamente ao rio. Ao longo dos anos, com o aumento da urbanização na bacia do Rio Quitandinha a seção do rio foi ficando cada vez mais insuficiente para receber as vazões”, pontua Fernanda. “Além disso, o lançamento de esgoto contribui para o assoreamento do rio, diminuindo mais ainda a seção de escoamento. O lançamento indevido de lixo e entulho também contribui para ocupar a seção do rio e entupir a microdrenagem (caixas ralo ao longo da rua)”, acrescenta.
Sistema de drenagem
A especialista observa ainda que, a macrodrenagem do rio Quitandinha prova todos os anos que não é suficiente para a vazão de chuva que chega até ela hoje.
“Mas não acredito que um extravasor ou o alagamento do canal seja a melhor solução, pois isso aumentaria a velocidade com que a água chegaria mais adiante no curso do rio. Isso poderia piorar a situação de alagamentos em áreas a jusante que também sofrem com alagamentos, como o centro de Petrópolis e Corrêas. Acredito que a solução esteja mais em reter a água de chuva e ir devolvendo ao rio aos poucos, após o pico de chuva, imitando o comportamento natural da bacia que foi perdido”, destaca a engenheira.
Riscos ambientais e à saúde
Além dos prejuízos materiais, os alagamentos também podem gerar riscos ambientais e à saúde. “Proliferação de doenças como leptospirose, tétano e contaminação por espalhamento de esgoto e riscos de acidentes de trânsito, por exemplo. Além do risco enorme que é quando alguém caminha em áreas alagadas, pois não é possível identificar a presença de buracos (como caixas ralo sem tampa) ou de objetos que podem causar cortes, há risco de acidentes com rede elétrica solta, e com objetos maiores que podem ser arrastados pela força da água”, alerta.
A orientação da Defesa Civil para a população é não trafegar em áreas alagadas, procurar um local seguro e ficar atento aos comunicados. Mas, ainda há quem se arrisque.
Ações municipais
Questionada sobre as ações realizadas para tentar reduzir os impactos dos alagamentos, a Prefeitura informou que, a Rua Coronel Veiga conta com ilhas de segurança, que são faixas vermelhas sinalizadas no chão e placas criados para abrigar motoristas e pedestres durante inundações quando a via alaga devido ao transbordamento do Rio Quitandinha. O objetivo é preservar vidas e orientar o fluxo de pessoas em emergências.
“Quando há previsão de chuva forte, a Defesa Civil envia SMS para a população e em caso de possibilidade de risco de alagamentos, as sirenes, instaladas nas ruas Coronel Veiga e Imperador, são acionadas e são enviados alertas severos e extremos por meio da tecnologia Cellbroadcast Defesa Civil Alerta. No Instagram da Defesa Civil há diversas publicações e orientações sobre os cuidados em dia de forte chuva”, disse em nota.
A Prefeitura acrescentou ainda que, também, fará investimentos em infraestrutura na região este ano. Uma delas era a recomposição de margens em cinco pontos, que vai ajudar na passagem da água em dias de chuva.
“Outra é a macrodrenagem, para qual o município conseguiu captar R$ 100 milhões junto ao Governo Federal via PAC Seleções. O projeto está sendo elaborado por técnicos da Secretaria de Obras”, informou.
Investimento Inea
Já o Instituto Estadual do Ambiente (INEA) informou que, desde 2021, promoveu 13 frentes de trabalho do Programa Limpa Rio no Rio Quitandinha.
“Ao todo, por meio de maquinário e trabalho manual, as equipes retiraram cerca de 52.182 m³ de sedimentos, em uma extensão de 7.789 metros. Atualmente, o Inea também conta com 5 frentes de trabalho em outras regiões de Petrópolis. O órgão ambiental irá enviar uma equipe ao local mencionado para apurar a possível necessidade de uma nova intervenção”, explicou.
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