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Antes da escrita, não havia degraus. Apenas chão

- Mario Donato D’Angelo

Arquivo Pessoal
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O grande passo da humanidade realmente começou quando o humano segurou uma pedra e riscou a primeira letra. Não era poesia, era neurologia em estado bruto. Aqueles traços tortos, acompanhados da língua para fora, não eram erros: eram eletricidade cerebral.

Falar é natural. Surge quase junto com o andar. A fala brota do instinto e parece vir no pacote da espécie, como respirar ou chorar. Mas escrever escrever é outra coisa. Para escrever, o cérebro precisa capturar um som invisível, desmontá-lo, convertê-lo em símbolos e, depois, alinhá-los na ordem correta. É uma invenção, não um instinto. Um salto que nenhuma outra espécie realizou.

E é nesse ponto que a história muda: a escrita foi uma epifania na trajetória da humanidade. Antes dela, quase nada existia além da memória frágil, e a memória, como sabemos, desaparece junto com quem a carrega. A letra, por sua vez, permaneceu. A escrita não foi apenas um passo; foi o primeiro degrau. Um portal silencioso pelo qual o pensamento pôde se repetir ao longo do tempo.

Isaac Newton, laureado pela Lei da Gravidade Universal, disse: “Cheguei até aqui porque me apoiei nos ombros de gigantes.” Tinha razão. Cada descoberta nasce da anterior; cada pergunta prepara a próxima. Mas, antes da escrita, não havia gigantes, nem ombros. Havia apenas chão.

Os professores antigos, talvez sem saber disso, ensinavam caligrafia não como arte, mas como civilização. “Capriche”, diziam. “Letra bonita.” Mandavam repetir vinte vezes o mesmo A, o mesmo T, o mesmo S, até que o traço se encaixasse no padrão. Parecia um castigo, mas era arquitetura neuronal. Ao padronizar a letra, treinava-se a mente para alinhar, coordenar, pensar com vagar. A caligrafia era um tipo de musculação cognitiva. Quem treinou demais escreveu quase igual ao vizinho. Quem treinou menos ganhou algo mais raro: personalidade gráfica. A letra como impressão digital do cérebro. Nenhuma igual à outra, como as pessoas.

Estudos com neuroimagem mostram que o ato de escrever à mão ativa áreas do cérebro ligadas à visão, ao movimento, à linguagem e à memória simultaneamente, muito mais do que simplesmente digitar. É como se o cérebro, diante do traço feito pela própria mão, dissesse: “isso é meu, fui eu que fiz”. E grava com mais carinho. Quando uma criança aprende a escrever cedo, não está apenas adiantada na escola; está expandindo territórios cerebrais que talvez nunca fossem ativados de outra forma.

Os professores antigos sabiam disso sem precisar de ressonância magnética. Mandavam copiar textos, treinar caligrafia, fazer ditado. Parecia castigo, mas era construção: ali se alinhavam neurônios, paciência e ritmo interno. Copiar um parágrafo era aprender a respirar sem perceber. Havia uma moral silenciosa naquele gesto: “Vá mais devagar, pense no que está escrevendo.”

Nos primórdios, a escrita levou o pensamento aonde o corpo não podia ir. Um símbolo romântico disso permanece vivo: a garrafa lançada ao mar, com um bilhete dentro. A correnteza decidia o destino da garrafa, mas a mensagem era o pensamento que navegava sozinho. Sem caligrafia, jamais haveria garrafa, mensagem ou memória. A escrita deu ao cérebro uma perna extra, talvez até uma asa.

Do barro às tabuletas, dos pergaminhos ao e-mail, permanece a mesma operação: dar corpo ao invisível. Traduzir em símbolos o que só vivia na mente. De certa maneira, inventar a escrita foi mais difícil do que criar a inteligência artificial. A IA, hoje, apenas brinca com esse patrimônio ancestral. A escrita, não: ela nasceu do nada, contra o silêncio, contra o esquecimento. A máquina raciocina porque o homem, antes de tudo, rabiscou.

E, no entanto, seguimos querendo acelerar. O polegar virou celebridade: resolve brigas, pede comida, declara paixões e encerra casamentos em 12 caracteres. Mas pensar, pensar de verdade, exige hesitação. Exige caligrafia. A digitação alimenta a pressa; o lápis pede silêncio. As palavras digitadas nascem prontas, como comida processada da alma. O cérebro apenas aperta “aceitar”.

Talvez um dia, quando os arqueólogos do futuro vasculharem nossa civilização, encontrem muito menos pedras e muito mais nuvens. Não as de chuva, as de servidores. Terabytes de mensagens anônimas, todas com a mesma letra digital. Mas se descobrirem por acaso uma caixa velha de cadernos escritos, tortos, manchados, rasurados, saberão imediatamente: aqui houve vida. Aqui, alguém pensou.

Até lá, ainda há tempo. Uma frase, uma memória, uma nota de rodapé de si mesmo, tanto faz. O gesto é o mesmo: o pensamento desce pelo braço e encontra um lugar para existir. Quando a tinta encosta no papel, o córtex, esse velho maestro, volta a reger a orquestra. E a mente cansada, enfim, respira.

Agora, proponho um pequeno ato clandestino: apenas cinco minutos diários de papel e caneta. Sem notificações. Sem pressa. Cinco minutos de silêncio cerebral, esse luxo moderno. Pode ser uma frase, um sonho ou uma dúvida. Não importa. Escrever à mão é perguntar ao cérebro: “Você ainda está aí?” E ele responde.

Porque escrever não é apenas registrar pensamentos; é não deixar que morram.

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