Jamis Gomes Jr. - especial para o Diário
A expectativa pela chegada de versões mais acessíveis de medicamentos como Ozempic e Wegovy ganhou um novo obstáculo nesta semana. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) negou os pedidos de registro de três medicamentos à base de semaglutida e liraglutida, substâncias utilizadas no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. As informações foram divulgadas no Diário Oficial da União e envolvem solicitações das farmacêuticas indianas Cipla e Dr. Reddy’s.
Segundo a Anvisa, os medicamentos não atenderam aos critérios técnicos mínimos exigidos para comprovação de eficácia, segurança e qualidade. Os produtos foram analisados pela chamada “via de desenvolvimento abreviado”, mecanismo que utiliza dados e estudos já existentes para acelerar o processo de aprovação regulatória.
Mesmo com o vencimento da patente da semaglutida no Brasil em março deste ano, ainda não existem concorrentes aprovados para comercialização no país. Atualmente, há pelo menos 16 pedidos de registro em análise na agência reguladora.
A semaglutida e a liraglutida pertencem à classe dos agonistas do receptor de GLP-1, medicamentos que atuam no controle da glicose e também promovem sensação de saciedade. Inicialmente desenvolvidos para o tratamento do diabetes tipo 2, os remédios ganharam notoriedade pelo efeito associado ao emagrecimento, aumentando significativamente a procura nos últimos anos.
O médico cooperado da Unimed Petrópolis, Dr. José Antonio Santos e Frois de Almeida de Pinna Cabral, especialista em Cirurgia Geral, Cirurgia do Aparelho Digestivo e Gastroenterologia, afirma que a mudança no perfil dos pacientes que procuram esses medicamentos já é percebida na prática clínica.
“Estes medicamentos foram lançados para o tratamento de diabetes tipo 2 na Dinamarca. Mas um dos efeitos era o de emagrecer e com isso a demanda subiu muito. O perfil que era de diabéticos passou para o tratamento de obesidade e suas comorbidades”, explicou.
Uso sem orientação médica preocupa especialistas
Com a alta procura e os preços elevados dos medicamentos originais, especialistas alertam para os riscos da automedicação e da compra irregular de substâncias semelhantes sem aprovação sanitária.
Segundo Dr. José Antonio, o uso dessas medicações exige acompanhamento médico rigoroso, principalmente pelos possíveis efeitos colaterais e complicações associadas ao tratamento.
“Para comprar esta medicação torna-se necessária receita controlada e armazenamento em refrigerador. Por isso deva ser prescrito sempre por um médico, se possível especialista. Complicações como alterações digestivas, pancreatite, sarcopenia, broncoaspiração pulmonar em caso de cirurgia ou apneia do sono podem ocorrer. Reganho de peso também pode existir, por isso tem que ser mantido a dieta”, destacou.
O especialista também chama atenção para o crescimento do comércio irregular desses medicamentos, cenário que pode se intensificar diante da dificuldade de acesso e da ausência de versões genéricas aprovadas no país.
Em cidades como Petrópolis, onde a busca por tratamentos para obesidade vem crescendo nos últimos anos, o risco de pacientes recorrerem a produtos sem procedência preocupa profissionais da área da saúde.
“A agência nacional de saúde ainda não autorizou outros, portanto fazer uso de medicamentos sem garantias é muito arriscado. Temos que aguardar o uso prolongado. Quais serão as consequências de seu contínuo. Por isso cuidado com o comércio irregular deste medicamento. A obesidade é uma doença crônica”, alertou.
Além da preocupação com medicamentos falsificados ou sem aprovação da Anvisa, médicos reforçam que o tratamento da obesidade não deve ser baseado apenas no uso de remédios. Mudanças de hábitos alimentares, acompanhamento nutricional, prática de atividade física e controle de doenças associadas continuam sendo fundamentais para resultados duradouros.
A negativa da Anvisa deve manter, pelo menos por enquanto, o mercado brasileiro dependente das versões já disponíveis e com preços considerados altos para grande parte da população. Enquanto isso, especialistas defendem cautela e reforçam a importância do acompanhamento médico antes de iniciar qualquer tratamento voltado ao emagrecimento.
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