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  Geral


 

Carta de Carlos Drummond de Andrade a Alceu Amoroso Lima

“Belo Horizonte, 1º de junho de 1931

Caro Alceu

Tenho aqui o telegrama em que V., com extrema simpatia humana, se interessa pela minha atitude pessoal, em face dos caminhos propostos à gente de hoje. Para fixar essa atitude, eu devo contar a V. o que foi e é a minha vida, e vou fazê-lo com a sinceridade não de um depoimento, mas de uma confissão. A confiança, a amizade e o respeito que eu consagro ao seu alto espírito autorizam a intimidade dessa confissão que é de algum modo, para mim, um desabafo.

Minha infância não tem nada de particularmente notável, a não ser a educação, que considero má: que me deram pais católicos muito amorosos ambos, porém uma rude e outro fraco. Entre a severidade de um pai e a doçura de minha mãe, eu estraguei a minha sensibilidade. Infância de recalques, sofrimentos, correntes subterrâneas. Aprendi desde cedo a viver para dentro, construindo o meu mundo porque não me adaptava ao de fora.  Sentia-me fraco, ridículo, incapaz de ação. Estudos mal feitos: logo depois do curso primário, interrupção por doença. Uma primeira experiência em colégio de padres – seis meses, com boas notas  – e voltei à minha cidadezinha natal, onde o médico recomendou novo repouso. Passei assim dois anos lendo jornais, revistas, um ou outro livro.  Sem orientação. A esse tempo, já o problema sexual tomara em mim um rumo errado. Outra vez um colégio de padres. Nesse, fui por dois anos o aluno que trabalha, conquista prêmios, mas... qualquer coisa em mim indicava a anarquia, a insubmissão e a desordem. Acabaram-me expulsando, por um pretexto frívolo e com grande humilhação para mim. Esse incidente influiu desastrosamente no desenvolvimento dos meus estudos.  Solto em Belo Horizonte, sem guia, sem orientação, fracassei nos preparatórios. Acabei matriculando-me num curso de Farmácia, em que durante três anos eu fui o aluno sem convicção, que recebe um diploma porém nem pensa em se servir dele. Nesse intervalo casei-me.  Foi um casamento de amor, precedido de uma longa experiência que nos deu a ambos um conhecimento integral um do outro. Sem emprego, sem coragem, voltei ao interior, onde fui alguns meses um vago professor e quase mergulhei na fazenda que meu pai me destinara e na qual coisa alguma me atraía. Chamado a Belo Horizonte para fazer jornal e, mais tarde, fazer burocracia, aqui fiquei. Minha vida, espiritualmente, não melhorou. Ela é cada vez mais desordenada. Não tenho nenhuma cultura. Tenho livros, quase tudo literatura de ficção, poesia, mas leio pouco e sinto mesmo dificuldade em ler. Escapam-me algumas humanidades essenciais. A curiosidade que sinto por certos estudos esbarra na falta de método para empreendê-los. Literariamente, eu supus a princípio que devia orientar-me na prosa, que era em mim apenas o plágio de autores brasileiros insignificantes. Com o advento do modernismo fiz poesia e nela me fixei, como sendo a minha verdadeira expressão literária. Com o tempo, verifiquei que meus versos são apenas a transposição de estados íntimos quase sempre dolorosos, e hoje o que faço é só isso, apenas isso: confissão direta, ou quase, de mágoas, desvarios e desejos não realizados, reflexo dos fatos da minha vida sentimental. Quase não posso publicar esses versos porque isso equivaleria a me mostrar nu no meio da rua.

Minha expulsão do colégio de jesuítas influiu também no sentido de acabar com toda a religião, e não era muito, que possuía de berço e de educação, mas já abalada pela irregularidade dessa educação e pelo abandono a mim mesmo em que sempre vivi, no domínio da alma.

Convicções políticas, filosóficas, estéticas, não as tenho. Nunca senti entusiasmo algum pelo modernismo.  Hoje sou um legionário porque, embora não tenha a mínima ilusão sobre a origem, natureza e finalidade desse movimento, eu o considero mais interessante e sobretudo mais honesto do que a organização pessimista do Estado. Sou, portanto, um legionário sem ver.

O que me preocupa, afinal de contas, é a solução de uns certos problemas freudianos que enchem a minha vida e dos quais eu tenho que me libertar, sob pena de suicídio (em que tenho pensado inúmeras vezes, mas sem a necessária coragem) ou de loucura, para a qual não é difícil encontrar exemplos em minhas origens. Como vê, coloco-me inteiramente à margem da discussão sobre as diretrizes que é dado ao homem contemporâneo escolher para o seu rumo pessoal. Vou por um desvio, que é escuro e sem alegria, e não tenho certeza de chegar ao fim.

V. talvez ficará decepcionado com a pequenez da minha angústia, a sua materialidade, a sua pobreza. Mas, generoso e compreensivo como é, terá pena deste seu pobre amigo, que realmente o estima e admira, e que lhe manda o mais afetuoso abraço.

Carlos

P.S. Com a vida afobada que levo, não reformei em tempo a assinatura da Ordem. Faço-o agora, pedindo-lhe mandar-me os números deste ano, que não possuo, com exceção do último, trazendo um artigo do Prudente sobre meu livro, que o seu primo José Amoroso me ofereceu.”

(Extraída de RODRIGUES, Leandro Garcia (org.). Drummond & Alceu – Correspondência Carlos Drummond de Andrade e Alceu Amoroso Lima. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2014)



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