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As agulhas que desafiam os passos

- Mario Donato D’Angelo

Arquivo Pessoal
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Assim, à deriva, senti-me um flâneur legítimo, aquele personagem de Baudelaire que vaga sem pressa, deixando que o olhar se perca no mundo. Caminhava pelas ruas plenas de vitrines como quem atravessa um palco de ilusões. Manequins imóveis sustentavam vestidos, bolsas e ternos numa encenação calculada do desejo humano. Eram como altares de vidro, prometendo perfeição a quem ali depositasse o cartão de crédito.

Os manequins pareciam guardar segredos que nenhuma ciência alcançava. Ali, os saltos altíssimos, quase agulhas desafiando os passos, riam da biomecânica, zombavam da ortopedia, ignoravam qualquer recomendação médica. A moda, quando decide, pouco se importa com a gravidade.

Penso, então, que a ciência é tímida diante desse espetáculo. Médicos, fisioterapeutas, engenheiros de marcha podem levantar gráficos, relatórios, estatísticas. Mas basta um salto para que tudo isso se torne pó na vitrine. A medicina que se cale: a moda não negocia, apenas ordena.

É o desejo, esse senhor implacável, que atropela diagnósticos, prescrições e cautelas. Não se trata de lógica, mas de reconhecimento. Quem precisa estar na moda já começa condenado à sensação permanente de estar fora dela. A moda é um embrulho, uma embalagem que impõe ao corpo sua coreografia e à alma, sua máscara.

E, no entanto, quem pode dizer que a vida não é feita disso? Fragmentos... A ciência tenta costurar o tecido inteiro, dar unidade à existência. A moda, pelo contrário, nos lembra que viver é aceitar pedaços soltos, cintilações breves, superfícies que brilham por um instante antes de se apagarem.

Há algo de religioso na forma como as pessoas param diante da vitrine: inclinam a cabeça, contemplam. O templo já não é a igreja barroca nem o laboratório de última geração, mas sim a luz refletida no vidro. A ciência pode explicar a refração, mas é a moda quem decide o que deve brilhar ali dentro.

Passamos séculos tentando convencer o mundo de que a razão salvaria a humanidade. O Iluminismo prometeu progresso, a medicina jurou longevidade, a engenharia ergueu cidades. Pois basta um salto de agulha para que toda a física de Newton desmorone. Um salto de quatro milímetros de largura sustentando sessenta quilos de carne e desejo? Impossível, diria a biomecânica. Mas a passarela insiste: “impossível ” é apenas uma categoria provisória da ciência.

Quantos artigos já não foram escritos sobre deformidades dos pés, hérnias de disco, joanetes que florescem após anos de sapatos impossíveis? Mas quem se importa? A mulher que entra na loja não quer o aval da ortopedia: quer o suspiro da amiga, o olhar enviesado do desconhecido, a promessa invisível de reconhecimento. O desejo não pede laudo, e muito menos atestado médico.

Pode-se dizer que a moda é fútil. Mas será mesmo? Talvez seja justamente sua futilidade que a torne poderosa. A moda nasce para morrer, e nessa morte programada encontra sua força. O vestido que hoje é ápice amanhã será cafona. É o prazo de validade que alimenta o desejo.

E, no fundo, não é essa também a equação da vida? A soma de dor e de reconhecimento.

Ninguém entra em uma loja para ser livre, mas para ser capturado. A bolsa disputada será, em breve, apenas uma peça de brechó. É como comprar uma flor sabendo que vai murchar. A beleza está no instante, não na permanência.

Ao pensar nisso, lembrei-me do duplo sentido: passar a roupa e passar o tempo. O ferro quente alisa o tecido, mas não há ferro que dome a passagem dos anos. No armário, roupas que um dia foram moda repousam como lembranças de quem já fomos. São marcas do passado, vestígios de estações que nos atravessaram.

E não somos diferentes delas. A cada década mudamos de corte, de cor, de tecido. O corpo é a roupa do tempo, e não há ferro capaz de passá-lo.

As ruas, afinal, também são vitrines. E como passamos! Cada um, à sua maneira, desfila pela calçada como se a vida fosse uma passarela improvisada. Modelos por alguns segundos, mesmo sem saber. E é aqui que mora a ironia: achamos que escolhemos nossas roupas, quando, na verdade, são elas que nos vestem. Em essência, nós também somos moda, efêmeros, datados, condenados a sair de catálogo. Uns terminam em brechós elegantes, outros em liquidação de esquina. A diferença é só a etiqueta da roupa...

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