- Mario Donato D’Angelo
Toda crônica nasce de alguma ausência.
Às vezes da ausência de um tempo, de uma rua, de uma infância ou de uma pessoa que a vida levou devagarinho para dentro da memória.
A de hoje nasce de uma dessas ausências profundas.
Por isso, peço licença ao leitor por deixar de lado os personagens da imaginação e escrever sobre alguém real, luminosa e inesquecível.
Minha mãe.
Dona Wanda.
Dona Wanda partiu aos quase noventa e nove anos levando consigo uma coisa rara: a unanimidade do carinho.
Bastava dizer “Dona Wanda” e não era preciso sobrenome, endereço nem explicação. Todos sabiam quem era. O garçom sorria, o motorista reconhecia, as pessoas interrompiam o caminho apenas para abraçá-la ou conversar um pouco. Ela transformava a rua em sala de visitas.
Gostava da vida sem culpa. Um chopinho na Casa D’Angelo, uma conversa demorada, uma risada fácil, uma alegria sem cerimônia. Tinha o raro talento de fazer os outros se sentirem importantes. E por isso foi ficando na memória da cidade como certas músicas antigas que ninguém esquece.
Nunca me esqueci de um dia em que peguei um táxi longe de casa. O motorista perguntou:
“Pra onde vamos?”
E eu respondi:
“Pra casa da Dona Wanda.”
Ele apenas assentiu e me levou até lá.
Naquele instante eu compreendi o tamanho invisível de uma pessoa querida.
Minha mãe viveu sem inimigos, sem amarguras e sem endurecer o coração. Viveu plenamente. Há quem atravesse anos sem realmente viver. Ela viveu cada um deles com intensidade, afeto e presença.
Fernando Pessoa escreveu que “a morte é a curva da estrada”. E é verdade. A estrada continua cheia das marcas de quem passou iluminando o caminho dos outros.
Dona Wanda foi assim.
Partiu, mas deixou a cidade um pouco mais humana.
Por isso eu tenho a sensação de que ela ainda permanece em algum lugar de Petrópolis. Numa mesa cercada de amigos. Numa calçada do centro. Numa conversa demorada interrompendo a pressa da rua. Em algum restaurante onde o garçom ainda espera seu sorriso antes de anotar o pedido.
Porque certas pessoas, quando partem, não desaparecem inteiramente. Ficam suspensas no ar das cidades que aprenderam a amar.
Minha mãe agora mora assim:
um pouco em Petrópolis,
mas muito mais dentro de cada um de nós, seus filhos
Mora nos gestos que herdamos sem perceber.
Nas lembranças que continuam chegando de repente.
E nessa saudade silenciosa que, entra pela vida sem pedir licença...
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