- Mario Donato D´Angelo
Alguns dizem que a ausência é apenas um vazio, uma cadeira deixada, uma porta fechada, uma xícara esquecida sobre a mesa. Mas não. A ausência é mais densa do que o próprio corpo; é presença aumentada, inflada, latejante. A ausência não se mede em distância, mas em pulsação. É uma vibração que insiste, uma sombra que não desaparece mesmo quando a luz se acende. Dela nasce o desejo.
Desejar significa aceitar um pedaço faltante em nós. Se estivéssemos completos, seríamos pedra, seríamos estátua, sólidos, sim, mas imóveis, condenados à eternidade de uma forma que não respira. O desejo é a ferida aberta que nos mantém vivos. Não é falta dolorosa, é falta que chama. É uma carência que se converte em energia, que empurra o corpo para frente, que dá às pernas a marcha e ao coração o compasso.
Considero Platão, ao dizer ser o desejo filho da Pobreza com a Abundância: nasce da falta, mas caminha em direção ao excesso. A cada instante de ausência, uma nova promessa se desenha. A escassez abre caminho para a imaginação, e a abundância do sonho nos move. Reflexiono sobre Lacan, quando afirmava o desejo como aquilo jamais saciado, pois não se deseja o objeto, mas o movimento em sua direção. A ausência é o ponto de partida, o desejo é a travessia. Recordo Barthes, ao notar como a ausência do amado torna-se presença absoluta, ocupando todos os cantos do pensamento. “Naquele instante em que ela se foi”, não havia espaço para outra coisa: só ela, justamente por já não estar mais ali. É a paradoxal plenitude do vazio.
O desejo é essa chama nascida da falta. É querer beber a água inexistente, tocar o corpo ausente, ouvir a voz que só ressoa dentro de nós. É dar nomes ao invisível, é inventar mundos para suportar o vazio. O amor não é plenitude, mas uma sucessão de presenças e ausências, encontros e esperas, de mãos que se procuram e mãos que se soltam. O amor é movimento interrompido e recomeçado, uma dança que alterna passos dados e passos suspensos no ar.
A ausência ensina paciência; o desejo ensina movimento. Entre essas forças, caminhamos como equilibristas sobre uma corda estendida no tempo. Oscilamos, tropeçamos, por vezes caímos. Mas é ali, no risco do abismo, que experimentamos nossa humanidade. O que nos torna frágeis também nos torna intensos. A vida pulsa nesse intervalo: não no que já temos, mas no que nos escapa.
Talvez não exista maior luxo da alma do que poder sentir ambos: o sabor amargo da ausência e o ardente do desejo. São as duas faces do espelho onde a vida se olha, o negativo e o positivo da mesma fotografia. O desejo é a forma poética e dolorosa da ausência persistir em nós. Se nos sentimos perdidos, é porque vivemos. Se escrevo, é porque ainda desejo.
E é justamente nesse intervalo, entre o que falta e o que se sonha, que a vida floresce em sua intensidade. A ausência desenha silêncios, mas o desejo preenche esses silêncios com vozes inventadas, com diálogos que nunca aconteceram e, ainda assim, nos confortam. O desejo obriga a criar, a imaginar, a manter acesa a chama que nos move.
Um abraço guardado, uma palavra não dita, uma fotografia esquecida na gaveta, tudo isso alimenta o desejo, que se ergue como arquitetura invisível sustentada pelo que não se cumpriu. Não é acaso que os poetas sempre beberam desse manancial: o que falta é o que faz escrever, cantar, reinventar. Se o encontro é alegria, a ausência é fecundidade.
E talvez seja essa a condição mais humana: nunca possuir inteiramente, nunca reter por completo. Viver é aprender a lidar com o que escapa, com o que se dissolve, com o que insiste em nos faltar. O desejo, então, não é uma condenação, mas um convite. Convite a seguir caminhando, mesmo quando o chão parece falhar.
Pois, no fim, é a ausência que nos dá o contorno do outro, e é o desejo que nos dá o contorno de nós mesmos. Entre ambos, não somos estátuas, mas viajantes. Não somos pedra, mas chama.
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