Estudo internacional aponta associação entre alimentação, tabagismo e exposição a pesticidas com casos precoces da doença; oncologista destaca importância da prevenção e do diagnóstico precoce
Jamis Gomes Jr. - estagiário
O câncer colorretal, tradicionalmente associado ao envelhecimento, tem chamado a atenção da comunidade científica por um motivo preocupante: o aumento constante dos casos entre adultos com menos de 50 anos. Pesquisas recentes indicam que fatores ligados ao estilo de vida e ao ambiente podem estar contribuindo para essa mudança de perfil da doença, que já figura entre as principais causas de morte por câncer em pessoas mais jovens.
Um estudo publicado neste ano na revista científica Nature Medicine analisou possíveis fatores relacionados ao crescimento dos casos de câncer colorretal de início precoce. Os pesquisadores investigaram o chamado "exposoma", conceito que reúne todas as exposições ambientais e comportamentais acumuladas por uma pessoa ao longo da vida, como alimentação, tabagismo, poluição e contato com substâncias químicas.
A pesquisa foi conduzida por cientistas do Vall d’Hebron Institute of Oncology (VHIO), na Espanha, que analisaram alterações epigenéticas, modificações que influenciam o funcionamento dos genes sem alterar o DNA, em pacientes diagnosticados com câncer colorretal antes e depois dos 50 anos.
Os resultados confirmaram fatores de risco já conhecidos, como alimentação inadequada e tabagismo, mas também identificaram uma associação entre a doença e a exposição ao herbicida picloram, utilizado na agricultura. Os pesquisadores observaram que regiões dos Estados Unidos com maior utilização da substância apresentavam taxas mais elevadas de câncer colorretal precoce.
Apesar dos achados, os autores ressaltam que a pesquisa não comprova uma relação de causa e efeito. O estudo aponta apenas uma associação estatística que ainda precisa ser confirmada por novas investigações.
Mudança no perfil dos pacientes preocupa especialistas
Para a oncologista Lívia Moura, da Unimed Petrópolis, a influência de fatores ambientais e comportamentais já faz parte das avaliações realizadas pelos especialistas.
"Hoje já sabemos que o câncer colorretal não depende apenas da genética. Fatores ambientais e de estilo de vida têm ganhado cada vez mais importância na avaliação de risco, especialmente em pacientes jovens. Alimentação rica em ultraprocessados, obesidade, sedentarismo, tabagismo e consumo excessivo de álcool já são fatores bem estabelecidos. Mais recentemente, estudos passaram a investigar o chamado 'exposoma', que engloba todas as exposições ambientais acumuladas ao longo da vida, incluindo pesticidas e outros contaminantes químicos. Um estudo publicado em 2026 identificou uma associação entre exposição ao herbicida picloram e câncer colorretal de início precoce, embora ainda não possamos afirmar uma relação causal definitiva", explica.
Segundo dados citados pelos pesquisadores, aproximadamente um em cada cinco diagnósticos atuais da doença ocorre em pessoas com menos de 55 anos. Além disso, a incidência vem crescendo em ritmo mais acelerado entre os jovens do que entre a população mais velha.
Por que os casos estão aumentando?
Embora a ciência ainda busque respostas definitivas, especialistas acreditam que o crescimento dos casos está ligado a mudanças significativas ocorridas nas últimas décadas.
De acordo com a oncologista, a maioria dos pacientes jovens diagnosticados não apresenta histórico familiar ou síndromes genéticas conhecidas associadas ao câncer colorretal.
"Essa é uma das maiores preocupações da oncologia atualmente. Cerca de 85% a 90% dos casos de câncer colorretal em jovens não estão relacionados a síndromes hereditárias conhecidas. O que observamos é uma combinação de mudanças comportamentais e ambientais ocorridas nas últimas décadas: aumento da obesidade, alterações da microbiota intestinal, dietas mais industrializadas, menor consumo de fibras, sedentarismo, distúrbios metabólicos e possíveis exposições ambientais cumulativas. Existe também o chamado 'efeito de coorte', em que gerações mais recentes foram expostas desde a infância a fatores diferentes daqueles vivenciados pelas gerações anteriores, o que pode influenciar o risco de desenvolver a doença mais cedo", diz Lívia Moura.
Entre os hábitos frequentemente associados ao aumento do risco estão o consumo excessivo de alimentos ultraprocessados, bebidas açucaradas, carnes processadas, além do tabagismo e da falta de atividade física regular.
Especialistas explicam que esses fatores podem contribuir para processos inflamatórios crônicos, alterações na microbiota intestinal e mudanças metabólicas que favorecem o desenvolvimento de tumores ao longo dos anos.
Atenção aos sinais de alerta
Outro desafio apontado pelos especialistas é o diagnóstico tardio. Como o câncer colorretal ainda é frequentemente associado a pessoas mais velhas, sintomas apresentados por pacientes jovens podem ser inicialmente subestimados.
Entre os sinais que merecem atenção estão sangramento nas fezes, alterações persistentes do hábito intestinal, dores abdominais recorrentes, perda de peso sem explicação aparente e quadros de anemia.
Para Lívia Moura, é fundamental que a população e os profissionais de saúde estejam atentos a essa nova realidade.
"Ainda temos desafios importantes. Historicamente, o câncer colorretal sempre foi considerado uma doença de pessoas acima dos 50 anos, o que faz com que muitos sintomas em pacientes jovens sejam inicialmente subvalorizados. É fundamental aumentar a conscientização tanto da população quanto dos profissionais de saúde para sinais de alerta como sangramento nas fezes, alteração persistente do hábito intestinal, perda de peso inexplicada e anemia", explica.
Petrópolis precisa acompanhar essa mudança
Embora Petrópolis conte com uma rede de saúde estruturada e acesso a especialistas, a oncologista acredita que o avanço dos casos em adultos jovens exige adaptação das estratégias de prevenção e diagnóstico.
"Petrópolis possui uma rede de saúde estruturada e acesso a especialistas, mas, assim como ocorre em diversas cidades brasileiras, será necessário ampliar estratégias de prevenção, educação em saúde e acesso oportuno à colonoscopia. O aumento dos casos em adultos jovens exige uma mudança de paradigma: câncer colorretal não é mais uma doença exclusiva do envelhecimento", afirma.
Os pesquisadores responsáveis pelo estudo defendem que a compreensão do impacto das exposições ambientais ao longo da vida pode ajudar a desenvolver políticas públicas mais eficazes, além de estratégias de prevenção voltadas para grupos de maior risco.
Enquanto novas pesquisas buscam esclarecer o papel de fatores como pesticidas e outras exposições ambientais, especialistas reforçam uma recomendação já conhecida: manter uma alimentação equilibrada, praticar atividade física regularmente, evitar o cigarro e reduzir o consumo de álcool continuam sendo algumas das principais formas de proteger a saúde e diminuir o risco de diversas doenças, incluindo o câncer colorretal.
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