Ataualpa A. P. Filho - Professor
A Poesia perpetua. A Arte quando traduz a vida vence o tempo. O que se conta é o tempo vencido. O tempo a contar é o que acena para a eternidade. Cem anos já se passaram do nascimento de Fernando Augusto Magno. O corte do cordão umbilical foi efetuado em 29 de dezembro de 1925, no Estado do Amazonas. Mergulhou nas águas do Rio Negro em batismo de menino que sabe onde a felicidade mora. Esse menino manauense é “pai do homem”. Ele confessa em “Por falar em brincadeira de roda”, poema que se encontra no livro dele “O Dia do Canto Imaginado”:
“E como em brincadeira de roda/ me vejo cercado de crianças/ e de moças me atirando fitas/ e eu homem-menino/ sou laçado pela roda/ e de novo me entrelaço/ no espaço deste jogo da vida”.
E nesse mesmo livro, no poema “Aquelas grandes pequeninas coisas”, ele diz:
“Por antigos caminhos cheguei/querendo de mim meus sapatos de menino/ e andar com eles o que andei/ sem medos, sem pressas, sem desgostos de cor.”
“O que é mais perigoso do que ser poeta?” Indaga Cervante em “Dom Quixote”. É preciso ter “luares grandes” para desafiar o destino.O Magno, o Augusto, o Fernando venceu-o, quando passou a conhecer o mundo por dentro. Não foram moinhos de ventos que ele enfrentou. A dura realidade deu-lhe outros caminhos que foram superados com ternura. A dor não encontrou lamento. O que sangrou foi Poesia. Em “Era Setembro e Madrugava”, ele escreveu:
“Devo acrescentar, entretanto, que nem sempre a perda da visão nos leva a não enxergar. O acidente no qual fui vitimado, permitiu-me um mergulho em diferentes mares. Impregnou-se de poesia. Fez- nascer o escritor. Se me foi roubado certo jeito de ver, descobri outro. Tornei-me poeta carregando o mundo para além dos olhos.”
O professor de Química tornou-se Poeta. Passou a usar outros elementos químicos que permitiram exercer a solubilidade dos sentimentos humanos tanto em verso, quanto em prosa, com intensidade e densidade lírica que tocam os corações das almas por meio de uma linguagem terna e eterna, pois o amor está além das vísceras, na parte inorgânica que inspira e respira felicidade...
Liricamente, Fernando Magno, quando estava entre nós, narrou, descreveu, dissertou a incerta vida como um navio que segue o seu destino, sem ignorar as marés. E definiu a existência humana assim:
“O homem é como um cais, donde está sempre partindo ou se despedindo de alguém ou de alguma coisa. Mas, de maneira recíproca, há de estar sempre chegando, ou se aproximando de alguém ou de alguma coisa. É a dualidade da vida. Assim é o Universo com o seu sistema bipolar de forças. É a lei que dá equilíbrio e sustentação a tudo o que existe. Mas se a partida é, por vezes, ruptura, um ato doído, a chegada é, muita vez, um recomeço, um ponto de esperança nova.”
O Poeta Fernando Magno partiu deste mundo em 08 de maio de 2023. Na condição de filho adotivo, sou testemunha ocular: vi a Poesia em vida concreta, sem soluço, mesmo diante de tantas dores. Houve uma despedida das vísceras. O pó voltou ao pó. A essência poética vive, centenariza-se a caminho da eternidade. A parte ida consistia na efêmera matéria humana. O vivido permanece. Precisamos assimilá-lo na dimensão do silêncio que guarda o secreto da latência cardíaca pela empatia: 100% humano no pulsar poético que usa a palavra como instrumento cirúrgico para embalar a alma em sonho de felicidade.
Ele nos disse em “Sabor de laranja”: “Meu verso nasce duro como pedra./ Às vezes áspero e pontudo./ Preciso cortar. Esculpir. Bater forte./ Ajeitar-lhe um jeito./ Tem vez é fácil de trabalhar./ Outros há, dura tempo./ Bem que gostaria de escrevê-los como quem chupa laranja: Sentindo o caldo a escorrer-me macio dentro da boca.”
Guardo saudades, guardo lições de vida, guardo, no lado esquerdo do peito, o amigo que se poetou e venceu o tempo: mergulhou no azul do Oceano Eterno.
O tempo não descansa. Tem por hábito colecionar memórias para quem segue os passos da história. E aqui apenas afirmo que a Poesia ampliou a minha família...
A senhora Albenice Benaion Magno, Nicinha, esposa de Fernando Magno, era os olhos dele, a outra parte da alma, que fez nascer Christiane Benaion Magno Michelin, que o amor uniu a Arnaldo Michelin. E a Poesia me integrou a essa família. O nosso Poema edificado na Cidade de Petrópolis exemplifica os seguintes versos do seu hino: “Quem pensa que é feliz em outra terra/ é porque/ ainda não viveu aqui”.
Sim, a felicidade é uma meta e uma metáfora da paz entre os seres humanos. Aqui uso mais uma frase do Menino timoneiro perseverante que vivia no coração de Fernando Magno: “a felicidade era tudo que cabia no meu querer. E cabia tudo.” Para quem está embarcado na vida, a felicidade torna-se obstinação. Contudo é preciso saber que nem sempre os ventos sopram como convém. Mas quem está no convés sabe que a água do mar tem sabor de lágrimas. A felicidade também as produz.
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