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Clarisse Lispector usa Petrópolis como cenário para refletir sobre o abandono aos idosos

Foto: Wikimedia
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Darques Júnior Especial para o Diário

Nesta terça-feira (09) são celebrados os 48 anos do falecimento da autora e jornalista mais importante do século XX, Clarisse Lispector. A autora ucraniana naturalizada brasileira, responsável por diversas obras como “Água Viva”, “Perto do Coração Selvagem”, “Laços de Família”, dentre outras, chegou a visitar Petrópolis, que a inspirou a escrever um conto sobre a Cidade Imperial.

O professor de Letras da Universidade Católica de Petrópolis (UCP) e professor do Colégio de Aplicação da Universidade Católica de Petrópolis (CAUCP), Veber Viana Gusmão, explica que o conto está entre os primeiros escritos de Lispector. Há registros de que ela teria cerca de 15 anos quando o escreveu: “A obra, de 1964 presente no livro “Legião Estrangeira”, narra a história da idosa Margarida, alcunhada Mocinha, natural do Maranhão, e que vivia nos fundos de uma casa em Botafogo, acolhida por uma família que não guardava, com ela, laços sanguíneos. Um dia, a família se cansa dela, e a envia a viver com um irmão da dona da casa, Arnaldo, que morava em Petrópolis, e era casado com uma alemã. Como a família não tinha boas relações com Arnaldo, enviar a velha senhora a viver com ele seria algo como uma punição. Arnaldo, obviamente, recusa-se a recebê-la, e manda a idosa embora, dando-lhe dinheiro para voltar a Botafogo. Mocinha aceita o dinheiro, mas resolve “passear” pela estrada de Petrópolis, ao invés de tomar o trem. É quando vê um homem passando, e essa visão a “desperta”, e ela toma consciência de sua condição. Após parar para beber água em um chafariz, ainda sacudida por pequenas revelações cotidianas, a idosa sente-se muito cansada, e, encostando-se ao tronco de uma árvore, falece”.

Veber destaca a importância do cenário petropolitano nesta obra da Clarisse Lispector, apesar de não ter registro historiográfico que comprove que a autora teria viajado até a cidade: “Petrópolis como destino, como lugar de despertar, de se reencontrar, de despedir-se, de encontrar a paz, de despir-se do cansaço. São muitas as leituras, incômodas, apaixonantes, resgatadoras, enfim, todas típicas da catarse clariceana. Em seu conto, Clarisse faz um relato e uma reflexão sobre o abandono dos idosos feito pela própria família, a solidão e o envelhecer”, disse o professor.

Segundo dados do Balanço de Violações contra Pessoas Idosas, o Rio de Janeiro registrou em 2019, 37.979 casos de violências contra idosos, sendo cerca de 4 mil casos de negligência e 2.143 casos de violência patrimonial. Em 2025, as denúncias de abandono de pessoas idosas no Brasil chegaram a 60.271 denuncias registrado, um aumento de 21% em comparativo a 2023. O IBGE, de acordo com o Censo 2022, registra 13,1% da população do Rio de Janeiro.

Em Petrópolis, foi aprovado em outubro deste ano um canal direto para receber, encaminhar e acompanhar denúncias e reclamações relacionadas a violações de direitos de idosos. O serviço está em desenvolvimento e segue para a apreciação do Poder Executivo. Além disso, em casos de denúncias de maus tratos e abandono aos idosos, entre em contato com os números: 165 (Disque Idoso para o Estado do Rio), 100 (serviço nacional de denuncias de violação de direitos humanos), além do telefone da Delegacia Especializada da Terceira Idade (DEAPTI): (24) 2333-9260.

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