Pesquisa publicada na revista científica JAMA Network Open analisa mais de 1.300 idosos ao longo de 19 anos e indica que padrões de soneca podem funcionar como marcador de risco à saúde
Jamis Gomes Jr. - estagiário
Os cochilos durante o dia costumam ser vistos como uma solução rápida e quase inofensiva para recuperar energia em momentos de cansaço. A clássica “soneca após o almoço” ou aquele breve descanso no sofá fazem parte da rotina de muitas pessoas, especialmente entre idosos. No entanto, uma nova pesquisa internacional acende um alerta: dependendo da duração, frequência e até do horário, o hábito pode estar associado a um maior risco de mortalidade.
O estudo foi publicado na revista científica JAMA Network Open e analisou dados de mais de 1.300 participantes com 56 anos ou mais, acompanhados por um período de 19 anos. O objetivo dos pesquisadores foi investigar se características específicas dos cochilos diurnos, como tempo de duração, frequência e horário, poderiam estar relacionadas à mortalidade por qualquer causa.
Nas conclusões, os autores apontam que, por se tratar de um comportamento comum entre idosos, os padrões de soneca observados levantam preocupações relevantes sobre possíveis impactos na longevidade.
Duração, frequência e horário entram no radar
De acordo com o estudo, nem todo cochilo representa risco. O problema aparece em determinados padrões. Entre os fatores associados ao aumento da mortalidade estão:
Os pesquisadores destacam que esses três elementos, combinados ou isolados, mostraram associação com maior risco de morte ao longo do período analisado. Em resumo, cochilos mais longos, repetidos e realizados no período da manhã foram os que apresentaram maior relação com os desfechos negativos.
Possíveis explicações e limitações do estudo
Apesar da associação observada, o estudo não estabelece relação direta de causa e efeito. Os autores ressaltam que não foram analisadas as causas específicas de morte, o que impede conclusões definitivas sobre por que esses padrões de sono estão ligados ao aumento de mortalidade.
Entre as hipóteses levantadas estão possíveis relações com doenças cardiovasculares, distúrbios do sono, doenças crônicas, como diabetes e doenças respiratórias, além de processos inflamatórios sistêmicos e condições neurodegenerativas.
Segundo os pesquisadores, em muitos casos, a sonolência excessiva durante o dia pode não ser a causa do problema, mas sim um reflexo de condições de saúde já instaladas.
“Isso sugere que o cochilo diurno não é apenas uma compensação por um sono noturno ruim, mas pode atuar como um marcador independente de risco de mortalidade”, destacam os autores do estudo.
Ainda assim, a pesquisa apresenta limitações importantes. A amostra foi composta majoritariamente por indivíduos brancos, o que restringe a análise de diferentes contextos raciais e culturais. Além disso, o estudo não considerou outras faixas etárias nem populações específicas, como trabalhadores em turnos.
Os autores defendem que pesquisas futuras ampliem a diversidade dos participantes e considerem variações de longo prazo no padrão de cochilos, como mudanças ao longo de semanas, meses e estações do ano.
“O problema não é o cochilo em si”, dizem especialistas
Para o médico neurologista e professor de Medicina da Faculdade Pitágoras, Frederico Lacerda, o ponto central da discussão não é o cochilo isoladamente, mas o que ele pode indicar sobre a qualidade do sono noturno.
“Aqui o problema não é o cochilo em si. É porque o cochilo no adulto ele não é necessário. Se ele está sendo necessário todo dia para o paciente manter qualidade de vida, funcionalidade, é porque o sono noturno não está sendo suficiente”, explica.
Segundo o especialista, a necessidade constante de dormir durante o dia pode indicar privação de sono ou distúrbios como apneia, além de alterações na qualidade do sono profundo.
“Mais do que se preocupar com quanto de tempo o paciente perde no cochilo, é mais importante identificar por que ele precisa do cochilo para se sentir bem”, afirma.
Frederico também chama atenção para a relação entre distúrbios do sono e doenças mais graves. Ele cita que pacientes com apneia do sono podem ter risco duas a três vezes maior de infarto e AVC. Já casos de insônia ou privação crônica de sono podem estar associados a maior morbidade cardiovascular e até risco aumentado para outras doenças.
Entre os sinais de alerta, o médico destaca irritabilidade, cansaço ao acordar, dificuldade de concentração, ansiedade, depressão e sensação de sono não reparador mesmo após horas de descanso.
“Tudo isso tem que ser revisto, do ponto de vista medicamentoso ou não”, completa.
Cochilo em idosos pode ser normal, mas exige atenção
Na terceira idade, os cochilos diurnos são comuns e, em muitos casos, considerados naturais. No entanto, o médico geriatra e professor da Uniderp, Marcos Blini, explica que há uma linha entre o hábito fisiológico e o sinal de alerta.
“Com o envelhecimento é muito comum a gente ter alguns períodos de sonolência durante o dia, principalmente em idosos aposentados ou que passam muito tempo em casa. Principalmente após o almoço, isso é natural”, afirma.
Segundo ele, uma soneca curta após o almoço pode até ser benéfica, mas o excesso pode comprometer o sono noturno e gerar um ciclo de piora contínua.
“Um cochilo de no máximo uma hora durante o dia é aceitável. Mais do que isso aumenta a chance de piorar a qualidade do sono à noite”, explica.
O geriatra também alerta para o risco de desorganização da rotina de sono em idosos que dormem repetidamente durante o dia.
“Isso vira um ciclo vicioso: o idoso dorme mal à noite, cochila mais durante o dia e isso vai piorando a qualidade do sono”, diz.
Ele acrescenta que a sonolência diurna excessiva pode estar indiretamente relacionada a quadros de demência e declínio cognitivo, especialmente em casos de doenças como Parkinson ou demência vascular, que alteram o ciclo sono-vigília.
O que está por trás do excesso de sono durante o dia
Embora o estudo não estabeleça causas diretas, especialistas apontam que o cochilo frequente pode funcionar como um indicador de problemas mais amplos de saúde. Entre os fatores associados estão doenças cardiovasculares, alterações neurológicas, distúrbios do sono e processos inflamatórios.
Além disso, o sono inadequado pode impactar funções cognitivas importantes. De acordo com os especialistas, a má qualidade do sono noturno afeta memória, aprendizado e até o funcionamento de sistemas de “limpeza cerebral”, responsáveis por eliminar resíduos metabólicos durante o descanso.
Conclusão dos pesquisadores
Os autores do estudo reforçam que ainda são necessários mais trabalhos para compreender a relação entre cochilos e mortalidade. Entre as recomendações está a ampliação da diversidade dos grupos analisados e o aprofundamento sobre como padrões de sono variam ao longo do tempo.
Apesar disso, o estudo reforça uma mensagem central: o cochilo, por si só, não é o problema. O que importa é o contexto em que ele ocorre e o que ele pode revelar sobre a saúde do sono como um todo.
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