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Academia Petropolitana de Letras

COLUNISTA

Academia Petropolitana de Letras

Centenário de Fernando Magno, Meu Pai

Por Christiane Michelin

Foto 1

Do menino manauara de calças curtas e grandes sonhos, que gostava de brincar com sua bola de sernambi, que fingia ser capitão de fragata e que se ria das peraltices do irmão mais novo, até o menino de 97 anos que nos deixou em 2022, pouco mudou, além de alguns raríssimos cabelos brancos, fartos bigodes e um par de óculos. Sim, quem vi fazer a passagem para além de nossa visão superficial foi um menino. Os dois o de calças curtas e o de fartos bigodes mantiveram-se fiéis a seus sonhos, buscando sempre outros, novinhos em folha, a cada vez que um era alcançado. E eu diria que esse foi um dos grandes motivadores de sua vida. Foi o que fez vívido, não tão somente vivo, por tantos anos. Sonhou e realizou até quase seus últimos dias. Embora tivesse os pés fincados na realidade, a cabeça povoava outros mundos 1º, o dos elementos químicos; depois, o da poesia.

Filho de Antônio e Rufina, teve apenas um irmão, Júlio Ferreira Magno. Lá pelos 8 anos de um e 7 de outro, foram levados a passar uma longa temporada em Portugal, na aldeia onde morava sua avó, para tratamento de saúde de sua mãe. Por mais que a saudade do pai que ficou em Manaus e da mãe que passou meses na casa de uma tia, na cidade grande, fossem doídas, conseguiu guardar, desse período, as melhores lembranças correr atrás de lebres, colher maçãs no pé, participar da pisa da uva e tomar sua primeira carraspana, incentivado pelos mais velhos na lida, que o levaram a provar um gole e mais um e outro mais. Viu o mundo girar mais rápido do que na noite em que imaginou que o céu tivesse aberto suas portas e comportas e todas as estrelas estivessem caindo sobre ele foi um fenômeno que aconteceu nos anos 30 que, numa pequena aldeia de Portugal, fez soar repetidamente os sinos da igreja, levando todos à reza, acreditando ser o final dos tempos. Assim, desde menino, foi guardando em sua retina e em sua memória as vivências que fizeram dele o que era um homem de fé e coragem, leal aos seus amigos e cheio de histórias que me faziam sonhar junto com ele.

Minha mãe, mais pés no chão do que nós, muitas vezes dizia que vivíamos em estado de devaneio, com as cabeças sempre nas nuvens... Não era mentira e foi, talvez, nosso grande elo e trunfo. Isso deu-se depois que parou forçadamente de atuar como professor e largou a direção do Instituto Presidente Kennedy, que, quando de sua aposentadoria, estava, graças a seu esforço e trabalho árduo, junto a outros diretores, passando a fundir-se com outros colégios públicos, formando o Centro de Estudos Integrados de Petrópolis, o CENIP. Se o magistério perdeu um grande professor e gestor, a poesia ganhou um grande poeta. E isso não é a filha quem diz, nem a dedicada esposa, revisora de seu trabalho, sua amada Nicinha. Tampouco cito, aqui, os amigos que tanto o incentivaram no início, dentre os quais os saudosos acadêmicos Mauro Carrano, Castro, Lauricy de Almeida Santos e Maurício Silva e, um pouquinho depois, Carmen Felicetti. Falo de ícones literários como ninguém mais, ninguém menos do que Carlos Drummond de Andrade, com quem manteve uma longa correspondência, que transformou-se em um livro. Drummond certa vez escreveu: “Christiane: um beijo de agradecimento a você. Diga a seu pai que ele, mais uma vez, tocou o meu coração com sua genuína poesia.”

Fernando Magno foi um jardineiro de palavras. Plantava-lhes a semente em solo fértil e generoso, fazia a rega diária, podava e as via brotar poemas. Era um mago, capaz de usar antigas fórmulas químicas e transformá-las em crônicas e contos que povoaram os cantos vazios de nossas lembranças. Fernando Magno foi comandante de sua própria nau e jamais a deixou soçobrar. No começo, assustou-se com a escuridão da tempestade que chegou desavisadamente, mas logo tomou o leme em suas mãos e seguiu sua rota, braviamente. Publicou mais de 10 livros, foi membro da Academia Petropolitana de Letras, da Academia Brasileira de Poesia e da Academia Petropolitana de Educação. Além de meu pai, teve um “filho de coração”. Tão logo o confrade Ataualpa Pereira Filho chegou à cidade, adotou-o como pai e foi adotado como filho. Ganhei um irmão.

Meu pai foi muito mais do que professor de Química. Foi professor de vida até o novo recomeço, para quem entende que a vida por inteiro é o avesso desta que temos aqui. Está, certamente, comemorando seu centenário em um cenário onírico, não com anjos tocando harpas, mas com espíritos de luz que o fazem ver por inteiro.

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