COLUNISTA
Leandro Garcia*
Refletindo sobre a gigantesca e complexa correspondência praticada pelo escritor Mário de Andrade, assim afirmou o crítico Antonio Candido: “Encherá volumes e será porventura o maior movimento no gênero, em língua portuguesa: terá devotos fervorosos e apenas ela permitirá uma vista completa de sua obra e do seu espírito”. Embora hiperbólica ao afirmar que “será porventura o maior movimento no gênero”, esta afirmação de Candido é assaz sintomática e ajuda a pensar e compreender o que significou a epistolografia na vida e na obra de Mário de Andrade.
Já temos, no âmbito dos estudos literários brasileiros, uma considerável bibliografia teórica a respeito do gênero epistolar e suas particularidades e idiossincrasias. A cada ano, novas publicações chegam às livrarias e podemos dizer que o mercado editorial “descobriu” a importância da epistolografia: inúmeras correspondências e antologias epistolares têm sido lançadas e revigoram esta importante área de pesquisa, com novidades e revelações próprias de uma carta e do seu movimento maior e mais organizado a correspondência. Tal fato, em si, já é digno de consideração e até comemoração, pois tivemos um problemático atraso temporal em reconhecer a potência dos estudos epistolográficos.
Em relação a Mário de Andrade, este mesmo afirmou numa carta ao amigo e poeta Carlos Drummond de Andrade: “Sofro de gigantismo epistolar”. De fato, o arquivo da correspondência passiva de Mário a parce-
la que ele recebeu dos seus correspondentes beira os 8 mil itens, tudo devidamente processado e salvaguar-
dado no Instituto de Estudos Brasileiros da USP.
Mário excedeu as fronteiras próprias do gênero epistolar, isto é, não escreveu ou recebeu cartas apenas para a tradicional troca de notícias e informações, função básica da epistolografia. Ao contrário, o autor de Macunaíma pensou e teorizou este gênero, reconhecendo neste uma importância fundamental: a carta lhe eraum verdadeiro laboratório de ideias e teorias. Ao escrever as suas “cartas pensamenteadas” (expressão sua!), Mário pensou a sua obra e a própria literatura brasileira através da sua caudalosa correspondência mantida religiosamente com inúmeros destinatários. Em geral, não deixava carta sem resposta, mesmo aquelas enviadas por desconhecidos e curiosos, o que comprova o seu compromisso com esta tipologia de gênero, bem como a sua crença de que escrever carta era também uma forma de produzir conhecimento.
De fato, como profetizou Antonio Candido, muito da obra e do pensamento de Mário de Andrade é compreendido através da sua correspondência, já que esta foi uma espécie de “lado B” da sua produção, o bastidor por excelência do seu complexo processo de criação literária e ensaística. Mário ofereceu boas pistas de compreensão crítica do que escreveu através das inúmeras cartas enviadas e recebidas dos seus principais correspondentes: Manuel Bandeira, Alceu Amoroso Lima, Carlos Drummond de Andrade, Jorge de Lima e tantos outros que hoje formam o emaranhado da sua rede de sociabilidade epistolar. Como ele mesmo afirmou numa carta a Bandeira, em 7/4/1928:
“Carta de deveras carta é documento maior Manu, e matute bem nos que não conseguem escrever carta e muito menos sustentar uma correspondência”. Mário sustentou!
*Professor de Teoria Literária da Faculdade de Letras da UFMG, membro titular e vice-presidente da Academia Petropolitana de Letras.
Agenda Cultural
A acadêmica Roseni Kurányi, nossa diretora-tesoureira, será a convidada da próxima edição do projeto
“Fale-me de Petrópolis”, que acontece no dia 30 de abril, às 14h30min, na Biblioteca do Museu Imperial, que o promove, com entrada gratuita.
Através do tema “Histórias que libertam: Conversando sobre Literatura e Educação”, Roseni conduzirá um bate-papo sobre sua trajetória como escritora e compartilhará experiências marcantes de seu trabalho junto às escolas de Petrópolis, onde desenvolveu, ao longo de 17 anos, um projeto voltado ao incentivo da leitura e da escrita. O evento integra a programação cultural do Museu Imperial e convida o público a refletir sobre o poder transformador da literatura na educação e na vida.