Edição: domingo, 30 de novembro de 2025

Douglas Moutinho

COLUNISTA

Douglas Moutinho

O Sobrevivente

espetáculo, controle e a ilusão

v Reprodução


Em O Sobrevivente, acompanhamos Ben Richards, um homem empurrado aos limites pela precariedade de um sistema onipotente que transforma o desespero em entretenimento. Em uma América de 2025 em colapso econômico e turbulência social, Richards enxerga no sanguinário game show O Sobrevivente sua única chance de salvar a filha doente. A proposta é simples e brutal: sobreviver por trinta dias enquanto assassinos profissionais o caçam diante de uma plateia sedenta por espetáculo que acompanha cada movimento do candidato. O filme é baseado no romance The Running Man, de Stephen King e também dialoga fortemente com o espírito do cinema de 1987, de George Orwell. A distopia coloca a mídia e o governo como forças que moldam comportamentos e crenças, criando um mundo onde o sofrimento dos mais pobres vira atração de massa. Mas o alvo crítico não se limita unicamente às engrenagens de poder: a narrativa aponta diretamente para a classe média, que, ao não questionar a estrutura que a beneficia, se torna cúmplice silenciosa da opressão. É o velho “pão e circo” reformatado para uma era de telas incessantes, onde a passividade vale tanto quanto a violência.

A direção de Edgar Wright injeta energia ao misturar sátira, ficção científica, ação e um repertório pop reconhecível. Há, inclusive, uma notável “gamificação” da ação, evocando a lógica e a estética de videogames. O resultado é dinâmico, visualmente pulsante e, em certos momentos, surpreendente. Ainda assim, essa estilização por vezes dilui a contundência da crítica social, revestindo-a de uma estética tão chamativa que quase encobre a ferocidade da mensagem. O filme sofre o mesmo que todo blockbuster com preocupação social: desonestidade.

O grande destaque, no entanto, é Glen Powell. Com uma performance enérgica e emocionalmente honesta, ele encarna Richards não apenas como uma vítima do sistema, mas como alguém que confronta o absurdo com uma determinação visceral e desenvolvimento bem marcante. Sua presença dá ao filme a ancoragem humana necessária para que a crítica social não se perca no espetáculo.

O Sobrevivente acerta ao combinar entretenimento e reflexão, mesmo quando tropeça no equilíbrio entre sátira e drama. Funciona tanto como ação distópica quanto como comentário social urgente sobre manipulação da mídia, apatia política e o perigo de um mundo cada vez mais anestesiado pela violência transformada em show. No fim, o filme faz mais do que entreter: lembra ao espectador que, em sociedades moldadas pelo espetáculo, a sobrevivência raramente é apenas física é, sobretudo, moral.


Wicked Parte 2

Entre a nostalgia e a subversão contida

n Reprodução


Wicked Parte 2 retoma a narrativa exatamente no ponto em que o filme anterior termina, consolidando-se, de fato, como uma obra dividida em duas partes. Trata-se do quarto filme da franquia iniciada em 1939, mas, ao contrário de seu predecessor, apresenta uma mudança significativa em sua abordagem narrativa.

Enquanto o primeiro filme Wicked parte 1 se inclinava para uma desconstrução política e social frequentemente de maneira forçada e pouco natural, como evidenciado na cena da biblioteca protagonizada por Fiyero, Wicked Parte 2 opta por priorizar o conto de fadas e a narrativa clássica. Essa transição é interessante porque rejeita elementos problemáticos do  filme anterior, equilibrando subversão com um retorno às origens da fantasia. A obra deixa de lado a tentativa de chocar ou de forçar discussões sociais complexas ainda que de forma superficial, como ocorrer em parte 1, na finalização da história, na conexão com o filme de 1939 e no apelo à nostalgia.

No aspecto narrativo, Wicked Parte 2 oferece um filme mais funcional, no qual a fantasia assume seu devido protagonismo, substituindo o impacto pelo conto de fadas. Ainda assim, persiste a limitação herdada do primeiro filme: a necessidade de explicitar sentimentos e acontecimentos por meio do diálogo, em vez de permitir que o cinema expresse a emoção visualmente. Isso compromete o potencial cinematográfico da obra, embora seja uma
característica comum no blockbuster contemporâneo.

Em última análise, Wicked Parte 2 se mostra superior ao primeiro filme em termos de narrativa e coerência, mesmo que menos impactante. Ao abandonar a subversão forçada em favor de uma abordagem mais clássica e nostálgica, o filme cumpre seu papel como prequel de um clássico da fantasia, oferecendo uma experiência mais simples, porém funcional, que valoriza a essência do gênero.

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