Edição anterior (4142):
sábado, 10 de janeiro de 2026


Capa 4142
Douglas Moutinho

COLUNISTA

Douglas Moutinho

Avatar: Fogo e Cinzas

A reinvenção de Pandora

v Reprodução

Avatar: Fogo e Cinzas concentra-se na família Sully diante de uma nova e inquietante ameaça: o violento Povo das Cinzas, uma tribo Na’vi beligerante liderada por Varang, cuja ambição por poder desencadeia não apenas um embate externo, mas também um profundo conflito moral e interno entre os próprios Na’vi. Em meio a esse cenário de instabilidade, Jake e Neytiri lutam para proteger seus filhos e assegurar o futuro de seu povo em Pandora, enquanto a presença humana volta a se reorganizar e a ganhar força.

O filme inaugura um novo paradigma narrativo dentro da franquia de James Cameron, distinguindo-se claramente dos dois capítulos anteriores. Se em Avatar e Avatar: O Caminho da Água predominava uma abordagem contemplativa, fortemente voltada à ambientação e à exploração visual com longas sequências dedicadas a revelar as nuances dos cenários e a relação quase simbiótica dos personagens com o ecossistema de Pandora, Fogo e Cinzas adota um ritmo mais ágil e dinâmico. Aqui, o roteiro assume protagonismo, conduzindo uma trama repleta de reviravoltas, alianças improváveis e sequências de ação intensas.

A jornada que antes se assemelhava a uma experiência de exploração pausada, na qual a tela funcionava como uma ampla janela panorâmica para a contemplação, agora é orientada pelo encadeamento acelerado dos acontecimentos. Embora a narrativa permaneça linear, como nos filmes anteriores, instala-se uma sensação constante de urgência, marcada pela ação e pela reação imediata aos eventos.

Essa mudança de abordagem pode, naturalmente, causar certa frustração nos admiradores da experiência visual mais contemplativa que se tornou marca registrada da franquia. Contudo, tal perda é amplamente compensada pela maestria de Cameron na condução da ação, integrando de forma impressionante os atos dramáticos aos cenários, sem comprometer a imersão do espectador.

As razões por trás dessa escolha estilística não são totalmente claras. Pode tratar-se de uma tentativa deliberada de inovação, de uma resposta às críticas sobre o ritmo mais lento de O Caminho da Água ou, ainda, de mais um capítulo no contínuo experimentalismo tecnológico que caracteriza a obra recente do diretor. Em Fogo e Cinzas, cerca de 40% do filme justamente as cenas de ação foi filmado em 48 fps, evidenciando que o uso do HFR (high frame rate) não busca substituir o cinema tradicional, mas expandir suas possibilidades expressivas.

Em síntese, Avatar: Fogo e Cinzas representa um ponto de inflexão significativo na trajetória da franquia. Ao abandonar parcialmente a contemplação em favor de uma narrativa mais urgente e orientada pela ação, James Cameron demonstra disposição para reinventar o universo de Pandora sem abrir mão de sua grandiosidade. Ainda que essa escolha possa dividir o público, o filme se sustenta pela solidez do roteiro, pela complexidade dos conflitos apresentados e pelo domínio técnico do diretor. Fogo e Cinzas não apenas expande o imaginário da saga, mas reafirma Avatar como uma franquia em constante transformação, capaz de dialogar com diferentes sensibilidades sem perder sua identidade.


Anaconda

Entre metacinema e risos

v Reprodução


É instigante observar como determinados filmes optam por confrontar o próprio passado como estratégia de desenvolvimento narrativo e legitimação de suas histórias. Anaconda (2025) surge, nesse contexto, como um exemplo eloquente de como a inventividade pode revitalizar uma franquia aparentemente esgotada. A título de curiosidade, trata-se do sexto longa-metragem da série ainda que, no imaginário coletivo, apenas o filme de 1997 costume ser lembrado. Tal fato torna ainda mais surpreendente a capacidade de uma saga considerada morta de despertar novamente o interesse do público e figurar entre as principais estreias do circuito cinematográfico.

Nesta nova incursão pelo mito do ofídio amazônico, um grupo de entusiastas do cinema viaja ao Brasil com o objetivo de realizar um filme sobre a cobra gigante. Curiosamente, a inspiração do projeto não reside exatamente na criatura em si, mas no longa de 1997. Nem mesmo as personagens conseguem definir com precisão a natureza da obra que pretendem realizar seria uma continuação, um spin-off, um sucessor espiritual, um remake ou uma
reimaginação? A única certeza que os move é a condição de fãs de um clássico cult e a oportunidade, enfim, de materializar um desejo antigo.

A partir dessas premissas, torna-se evidente que estamos diante de uma obra que pode ser claramente compreendida como metacinematográfica. Anaconda reflete sobre o próprio cinema, tensionando as convenções narrativas e dramáticas que tradicionalmente separam o filme do espectador. A produção incorpora, inclusive, a feitura do longa original de 1997 como motor narrativo, chegando ao ponto de mencionar os atores do filme clássico por seus nomes profissionais, em um gesto deliberado de autoconsciência.

Essa reinvenção da franquia não apenas confere frescor à narrativa, como também permite que o filme se legitime a partir de sua própria história. Mais do que isso, abre espaço para a mescla de convenções de gêneros distintos. Evidentemente, o uso do metacinema não é uma novidade trata-se de um recurso consolidado há décadas, fruto da evolução da linguagem cinematográfica. No entanto, não são raras as ocasiões em que tais abordagens soam artificiais ou carecem de sustentação dramática. Felizmente, esse não é o caso de Anaconda. Ao articular elementos do terror, da aventura e da comédia, o filme constrói uma experiência marcada por cenas leves, sustos pontuais e um amplo repertório de referências. O resultado é surpreendentemente equilibrado. O espectador não se preocupa em julgar a verossimilhança dos acontecimentos; aceita, sem resistência, o absurdo de uma obra que não pretende se levar excessivamente a sério. O efeito final é uma sucessão de risadas e uma experiência cinematográfica agradável, que deixa a plateia mais leve e satisfeita ao fim da sessão. Afinal, não é exatamente isso que, por vezes, buscamos ao ir ao cinema?

Edição anterior (4142):
sábado, 10 de janeiro de 2026


Capa 4142

Veja também:




• Home
• Expediente
• Contato
 (24) 99993-1390
redacao@diariodepetropolis.com.br
Rua Joaquim Moreira, 106
Centro - Petrópolis
Cep: 25600-000

 Telefones:
(24) 98864-0574 - Administração
(24) 98865-1296 - Comercial
(24) 98864-0573 - Financeiro
(24) 99993-1390 - Redação
(24) 2235-7165 - Geral